Os golos do dia (1ªparte)


Um auspicioso início de temporada para Romelu Lukaku

Ultrapassada que está, creio, a ligeira incongruência cometida por José Mourinho relativa à contratação de um jogador, por 75 milhões de euros, duas épocas depois de o ter dispensado quando era treinador de um adversário directo do United, num processo que conduziu à sua contratação por parte do clube que vendeu o jogador à posteriori para o clube de Manchester, a cada vez mais influência do jogador no futebol do United está à vista.

Eu não sou muito fã de estatísticas, reconheço. No entanto sei reconhecer a sua preciosa utilidade para avaliar determinados aspectos de evolução técnica ou táctica de um jogador e utilizo-as de vez em quando para esse efeito quando as estatísticas desse jogador combinam com uma ou mais observações nas quais vislumbro qualidade nas acções. Ao contrário do que vejo por aí em alguns jornais, sites e blogs de especialidade não as utilizo de forma abundante para explicar o quer que seja porque não sou, de todo, adepto de modelos de observação tecnocratas mas sim de modelos de observação qualitativos, modelos nos quais os aspectos matemáticos do jogo são meros exemplos complementares para reforçar essa mesma qualidade. Não me adiantam portanto os milhares de quadros estatísticos disponíveis em vários sites para perceber se um rendimento de um jogador traz qualidade ao futebol de uma equipa porque a qualidade nas várias vertentes do jogo só pode ser aferida qualitativamente através dos proveitos que o seu rendimento traz para o futebol dessa equipa, mediante a satisfação de um conjunto de factores de aferição nos quais devem estar sempre presentes o sistema táctico e modelo de jogo utilizado\operacionalizado pelo seu treinador, a interacção com os companheiros de equipa no terreno jogo e o benefício ofensivo ou defensivo que certa acção praticada oferece ao jogo da equipa. 

Medir a qualidade do rendimento de uma determinada equipa num determinado jogo tendo como base factores meramente estatísticos, ou seja, entre outros exemplos, o número de remates efectuados, o número de cantos conquistados, a percentagem de posse de bola detida por uma equipa durante 90 minutos, e por aí adiante, é, desculpem-me, na maior parte dos casos, conversa de quem não entende minimamente de futebol. Do futebol de qualidade, do futebol espectáculo, dos bastidores do verdadeiro futebol: a interminável lavoura de um treinador e de um grupo de jogadores. A apresentação de tabelas estatísticas para comprovar algo será sempre um argumento algo enviesado porque não atende minimamente à qualidade que uma equipa\jogador pode ter numa única acção (criando um golo) ou em meia dúzia de acções defensivas (impedindo o golo adversário) face a um adversário que possuiu o esférico durante 65% do tempo útil de jogo, conquistou 8 cantos, fez 27 remates, conquistou 21 faltas mas saiu do jogo a ganhar, como afirmou uma vez o outro, “bola”. Exemplo paradigmático do que estou a escrever foi por exemplo o rendimento do Sporting na partida de ontem. Estatisticamente não foi um jogo bom para a formação de Alvalade mas qualitativamente houve um conjunto de acções que fizeram equilibrar o fiel da balança.

No entanto, como referi anteriormente, sempre que reforçamos uma certa ideia com dados estatísticos, não cometemos o erro vulgarmente cometido por todos aqueles que ignoram a qualidade em prol de uma avaliação meramente baseada nos números. A qualidade pode ser eficácia mas a eficácia nem sempre é sinónimo de qualidade numa determinada acção. Por vezes uma acção colectiva é impassível de ser quantificada num determinado grau de eficácia – uma linha que consegue por exemplo cortar linhas de passe à equipa adversária – tais acções (banais, realizadas em todos os jogos) não são passíveis de serem quantificadas mas acrescentam qualidade a uma equipa ou a um determinado jogador. Basta referir que se eu tiver um jogador que tenha 100% de eficácia ao nível do passe mas não me acrescente um metro de terreno num passe, num modelo de jogo no qual pretendo que esse mesmo jogador consiga gerar progressão à equipa através do seu passe, a eficácia desse jogador não me serve de nada para aferir qualidade porque esse jogador não está pura e simplesmente a acrescentar nada ao modelo do jogo que eu quero que a equipa pratique.

Chega de discurso soez (para os tais que nada percebem de bola, isto não passa de um discurso soez; esses são os tais que passam a vida no café a encher a boca “eh pá, fulano x joga tanto… fez 8 fintas espantosas sobre o adversário – mas perdeu a posse em todas as situações, não acrescentando nada à equipa com as suas acções) e vamos ao que interessa: a qualidade que Lukaku trouxe a esta equipa do United. Dentro da área, o belga tem-se tornado um verdadeiro monstro. Com 9 golos (3 na Champions em 2 jogos disputados) em 8 jogos e uma relação de 1 golo a cada 3,88 remates (Lukaku tem uma média de 4,5 remates por jogo na Premier League e 4 na Champions) o belga tem tido uma enorme taxa de sucesso. Para servir de comparação, estão por exemplo os números de Cavani. Cavani leva 12 golos em todas as competições da presente temporada num total de 13 partidas realizadas. A sua média é de 1 golo a cada 3,81 remates, média que transforma o uruguaio o avançado com o melhor aproveitamento relação remate\golo do futebol europeu.

Para além desse facto tem sido inegável o desgaste que Lukaku tem provocado nas defesas adversárias com as suas constantes movimentações de área, da área para as alas, ou da área para uma posição mais exterior (vide exemplo abaixo postado) obrigando os centrais adversários a terem que o seguir constantemente ou com a capacidade que ostenta para vir atrás buscar e segurar jogo, permitindo que o recuado bloco que Mourinho apresenta na maioria dos jogos ou na pior das hipóteses, em diversas fases do jogo, possa subir no terreno.

De Bruyne com um toque de magia provido pela rapidez de pensamento e execução de Silva na criação. A diferença das funções cognitivas de Silva para grande parte dos médios da actualidade do futebol. 

A cada erro cometido pelo adversário na transição para o ataque, este Manchester City de Guardiola tem, na sua linha média, duas ferramentas de velocidade, verticalidade, técnica e vertigem que castigam esse mesmo erro. Falo de Silva e de Kevin de Bruyne.

Uma bola perdida por Marlos no momento da transição deu origem a um lance no qual David Silva voltou a provar a razão pela qual pertence à elite do futebol mundial. O jogo não foi porém fácil para a formação de Guardiola, em especial no primeiro tempo.

Paulo Fonseca não deixou que os citizens, em ataque organizado, colocassem muitas bolas verticais entre linhas no interior do seu bem organizado bloco defensivo, bloco no qual sobressaíram a anulação do espaço para jogar entre linhas através da proximidade entre linhas e entre unidades da mesma linha, um dispositivo de pressão agressivo a toda a largura do terreno, equilíbrio no miolo com a estratégica colocação dois dois jogadores à frente do quarteto defensivo (Fred e Taras Stepanenko) com ordem para fazer boas coberturas na zona da bola (vasculando sempre que os citizens tentavam variar o jogo entre os 3 corredores) e patrulhar as movimentações de DeBruyne e Silva no miolo. Tanto o jogador belga como o espanhol tiveram, em momentos distintos, de tentar quebrar a união de sectores dos ucranianos com movimentos divergentes do centro para as alas, em especial nas fases da partida em que a formação de Guardiola foi obrigada a ter que abusar do passe longo para tentar surpreender a formação orientada pelo treinador português com rápidas variações entre flancos.

Quando o Shakhtar quis assumir mais iniciativa ofensiva no 2º tempo muito do equilíbrio defensivo realçado no primeiro tempo desfez-se. Com mais espaço e menor pressão para acelerar pelo meio-campo adversário os médios ofensivos de Guardiola fizeram a diferença na partida.

No lance do primeiro golo, realço a rapidez de pensamento e execução de Silva. Gorada a primeira acção pela intercepção incompleta por parte do adversário, o espanhol demorou um mero fragmento de segundo a pensar o que é que havia de fazer com o esférico. A velocidade de pensamento e execução de Silva é por demais incrível. Pode-se até mesmo dizer que o espanhol tem sempre uma boa solução na ponta da língua, ou melhor, na ponta da sua bota. Isso advém obviamente da sua enorme capacidade cognitiva. Da capacidade cognitiva que lhe permite num único frame, ler tudo o que passa em seu redor para melhor decidir bem naquele preciso momento. Porque no futebol, a decisão daquele momento pode ser boa, mas a decisão tomada 1 segundo depois (com um jogador em cima) já não acrescenta tantos ganhos à equipa porque a disposição posicional do adversário pode-se ter alterado significativamente. Com um dos seus clássicos passes redondinhos para os pés de DeBruyne, em menos de 1 segundo, o internacional espanhol desencantou a fórmula que haveria de dar vantagem no altivo remate do seu companheiro.

No 2º lance acima postado, difícil é para qualquer jogador falhar aquele matchpoint que foi oferecido de forma tão escorreita pelo médio espanhol.

Verticalidade à la Guardiola – A confirmação da operacionalização das dinâmicas que compõem um modelo de jogo.

manchester city

Reparem nos movimentos de desmarcação que são feitos quer por DeBruyne quer por Raheem Sterling no preciso momento em que Kyle Walker domina o esférico. O lateral já sabe o que fazer (abrir em profundidade para a desmarcação em velocidade do belga) porque sabe que se adiantar bem a bola, DeBruyne conseguirá ganhar a frente ao lance. Já Sterling já só está preocupado com a finalização do lance. Antevendo a conquista de DeBruyne, o avançado trata de avançar para se desmarcar sobre os centrais.

manchester city 2

Toda esta acção corresponde à ideia de verticalização que é desenvolvida e operacionalizada pelo espanhol no seu modelo de jogo. Quando isto acontece é sinal que as dinâmicas que compõem os processos de jogo do modelo de jogo de um treinador estão totalmente assimiladas pelos jogadores e por conseguinte correctamente operacionalizadas em contexto de competição.

O lance do 2º golo é outro exemplo da mesma índole

Num lance em que a armadilha de fora-de-jogo montada pelo quarteto defensivo de Paulo Fonseca falhou redondamente.

As boas defesas

A boa estirada de Andriy Pyatov ao colocado remate de Kun Aguero da marca dos onze metros.

E os erros imperdoáveis para qualquer guarda-redes. “Então ó Vitó, vais tentar colocar a bola num jogador que tem um adversário à frente?”

O brinde oferecido pelo guarda-redes Denis Scherbitski na derrota do Bate Borisov frente ao Arsenal (2-4). Um erro absolutamente primário do jovem internacional bielorusso de 21 anos.

continuarei mais logo com uma dúzia de uploads.

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