A arte da técnica


Quando algum miúdo ou adolescente me pergunta qual é o nível de habilidade técnica individual que deve atingir para vingar no mundo do futebol, tenho sempre a resposta na ponta da língua: deves praticar o máximo que puderes para conseguires tratar a bola tão bem quanto o Robben a trata. Deves acariciá-la tão bem quanto o holandês a acaricia na recepção para que a dita não te fuja, deves ter aquele drible miudinho, curtinho curtinho que te permita teres a bola coladinha “debaixo da tua asa” enquanto levantas a cabeça para ler todo o jogo que corre à tua frente, e para impedir que o adversário te tire a bola enquanto lês o jogo para melhores decidires o destino que lhe vais dar, deves ter aquele toque de midas que te permita a qualquer momento ludibriar o adversário que está à tua frente com uma mudança de direcção, deves passar com a maior eficácia possível e sempre em segurança para todos aqueles que não tiverem um adversário na ilharga ou para todos os companheiros que te ofereçam uma desmarcação para vir receber o teu passe ou para a tua equipa progredir no terreno, e no remate deves, preferencialmente, acertar bem com a parte de dentro do pé para tornares a missão mais complicada ao guarda-redes. Contudo só há uma forma de conseguires aperfeiçoar tudo isso: praticando. Praticando Muito. Contra a parede lá de casa. Na clássica dureza do cimento polido, contra os amigos. No relvado do jardim público e na quadra lá da escola. Excusado será dizer que jogadores como Arjen Robben aperfeiçoaram a sua técnica na rua. Antes de serem jogadores de relvado, foram jogadores de muita peladinha na rua. A rua explica muito do talento técnico de um futebolista. Só o futebol de rua pode oferecer ao futuro jogador a capacidade de criar situações em espaços reduzidos de terreno e sob intensa pressão do adversário, a noção de como fintar um adversário sem ir ao chão (ninguém gosta de queimar as pernas no cimento ou no barro, não é?) e a noção de como fazer uma tabela com um companheiro, a força que se deve empregar em cada passe que se faz… Algumas destas qualidades não são pura e simplesmente edificáveis nos relvados, por mais exercícios que sejam imaginados, desenhados e testados por treinadores ou por pedagogos.

Muitos foram os miúdos que à posteriori me vieram dizer: “João, você tinha razão – Robben é de uma enorme mestria técnica ” Efectivamente. Arjen Robben pertence a uma cada vez mais rara classe de profissionais que trata o seu “ganha-pão”, o seu utensílio de trabalho, como se estivesse a fazer amor com uma bela e inesquecível mulher.

O gesto do holandês é tão importante e tão reconfortante que a bola deverá decerto, no final de cada partida, suplicar insistentemente ao holandês para que a leve para casa para sua casa de modo a poder descansar das pancadas e do maltrato que sofreu de outros pés, menos qualificados, ao longo dos 90 minutos. Num mundo em que o trabalho vale tanto como lixo (e é cada vez mais inflexível, pesado, desgastante e desqualificador para o trabalhador) haja no mundo quem tenha a noção da necessidade de retribuir, com bons gestos, os milhões que recebe pelo exercício da sua profissão. Há 15 anos que Robben exerce a sua com uma mestria técnica ímpar, denominador comum daqueles que se eternizaram neste mundo do futebol.

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