Frente a uma equipa extremamente competente, o empate foi um mal menor


gelson

Confesso que estive aqui meia hora a sistematizar o jogo na minha cabeça para que nenhum pormenor me pudesse escraver na altura de escrever este post. O meu exercício acarreta porém, quase sempre uma inevitabilidade. Por mais que a tente fintar, o meu exercício acaba sempre gorado: a multiplicidade quase milionária de acções, posicionamentos, processos, situações, frames muito específicos nos quais virtudes e forças, erros e fraquezas, impedem-me de conseguir escarrapachar tudo no teclado.  A minha sistematização ajudou-me porém a compreender que o Sporting não fez contra o Porto um jogo tão bom quanto o que foi realizado contra o Barcelona. Já o FC Porto fez um jogo tão bom quanto o que fez no Mónaco, claudicando apenas na hora de finalizar. Muito mais fortes e mais competentes que os leões no primeiro tempo (no segundo tempo padeceram do estado físico que acompanhou a formação leonina durante os 90 minutos), a exibição do onze portista faz-me lembrar aquelas partidas de bilhar nas quais, em 7 tacadas, um jogador limpa o bolo de uma assentada mas não consegue finalizar a partida por falta de engenho para meter a bola preta à tabela.

Ao contrário do que aconteceu na partida realizada na quarta-feira frente aos culés, o Sporting não se exibiu a um nível tão eficiente no quadro da fase de organização defensiva (razão que explica em parte as 3 ou 4 situações de golo que os portistas tiveram no primeiro tempo) e ofensivamente voltou a padecer de vários males, males que de resto têm atormentado as exibições da equipa nos últimos jogos: os erros cometidos na transição ofensiva (uma amálgama de passes falhados e de decisões mal tomadas na hora de sair a jogar), indefinição na criação ofensiva (mais uma vez, o Sporting criou poucos lances de perigo real junto à área adversária) e dois matchpoints capitais desperdiçados por falta de engenho dos respectivos intervenientes. Se Bruno Fernandes… Se Bas Dost… Se William… se se se – uma equipa que quer praticar um futebol mais cínico nos jogos contra equipas grandes não se pode dar ao luxo de perder oferta que seja nem pode viver do se nos poucos lances que constrói. Tem que ser eficaz, segura e mais ousada do que aquilo que foi.

Extraordinária organização defensiva (principalmente a meio-campo), segurança e mecanismos na transição, bons processos de circulação de bola, muita dinâmica posicional e está claro, liberdade para Brahimi criar. 

sergio conceição

Já diz o ditado popular que em equipa que ganha, não se mexe. Sérgio Conceição não mexeu em muitos dos pózinhos que lhe permitiram conquistar os 3 pontos na noite de terça-feira no Mónaco, apresentando em Alvalade o mesmo sistema táctico, o mesmo modelo de jogo e a mesma estratégia de jogo que tinha apresentado frente à equipa daquele principado. A aposta num preenchido meio-campo (completo com a volatilidade de funções exercidas por Hector Herrera ao longo da partida; o mexicano começou perto de Aboubakar, facto que lhe permite ser incisivo na pressão à saída de jogo adversária; desceu quando a equipa precisava de mais um construtor a meio-campo, libertando Brahimi em definitivo para o corredor\meia interior esquerda; e de mais um homem para preencher os espaços centrais quando a equipa não tinha a posse para limitar a construção leonina e reaver a posse de bola; mais tarde encostou-se à direita nos momentos em Marega, inútil num flanco direito muito bem defendido por Jonathan Silva se colou a Aboubakar junto aos centrais leoninos) deu os seus frutos. A pressão alta logo à saída de jogo por parte dos centrais (permitida essencialmente por um maior fulgor físico resultante do dia adicional de descanso que a formação de Conceição dispôs) também deu louros à equipa portista. No plano de jogo de Conceição tudo se resumiu no fundo à limitação da construção adversária como o móbil de actuação passível de exercer conquista da posse para controlar o adversário e dominá-lo através da posse do esférico e da posse territorial.

O bom posicionamento sem bola permitiu aos médios do Porto estar sempre próximos dos construtores leoninos para os limitar na 1ª fase de construção (Jorge Jesus inverteu as posições dos dois médios; equilibrando-as à passagem da meia-hora com o recuo no terreno de Battaglia) e os triângulos de apoio realizados pelos pressionantes médios portistas garantia contenção e recuperação nos momentos em que os médios leoninos tentavam construir (desarmando, ganhando quase todas as segundas bolas). Para além do domínio territorial exercido no meio-campo adversário, algumas recuperações efectuadas pelos médios portistas eram aproveitadas para desenhar boas jogadas no contragolpe e bons processos de circulação em ataque posicional. Procurando Brahimi na esquerda, com espaço e sem grande pressão (Jesus voltou a tentar que as suas 3 linhas de pressão actuassem o mais juntas possíveis), o argelino provocou calafrios em Alvalade sempre que partia em velocidade para o drible. Criativo como sempre, o argelino até teve rédea solta por parte de Battaglia e Piccini para magicar alguns lances de perigo que seriam desaproveitados na finalização por Aboubakar e Marega. Na 2ª parte, a história foi outra. Em cima do argelino nas transições para o ataque, quer o lateral italiano quer William secaram-no por completo.

3 inoperantes caramelos cometem o erro que ninguém deve cometer frente a Brahimi: deixá-lo livremente sair do drible com hipótese de rodar para voltar a ficar de frente para o jogo de forma a servir o avançado na área (municiando-o; realizando uma tabela) ou criar ele próprio um jogada de perigo.

Com um alcance de passe bem medido, Herrera municiava o argelino de jogo e teve a sua oportunidade para brilhar quando, numa recuperação na área portista, à qual Aboubakar deu seguimento por via de um apoio frontal que tirou Coates da equação beneficiou o mexicano de uma situação de inferioridade numérica 3×2 passível de ser cavalgada: o remate foi a pior decisão que o mexicano poderia tomar. Enquanto Jonathan ainda recuperava posição (num primeiro momento foi mais rápido a chegar que Layun e Mathieu não foi à queima (nunca oferecendo de bandeja a linha de passe para Marega) o mexicano cavalgou pelo meio-campo adversário. O problema deu-se quando o lateral esquerdo leonino abriu a raleira que permitiria ao mexicano ter ferido o leão de morte.

herrera 2

Se neste momento a decisão tivesse sido outra por parte do mexicano, outro galo poderia ter cantado no jogo…

… para incentivar uma acabrunhada equipa leonina que voltou a só conseguir criar jogadas pelo flanco direito, flanco onde Gelson (demasiado rodeado; por vezes demasiado complicado no capítulo da decisão, nos lances em que a maior permissão de Teles ou de quem o rodeava até lhe permitia bombear bolas para a área) voltou a estar só e sem linhas de passe disponíveis quer para dar seguimento ao lance quer para procurar um apoio que pudesse dar às ditas uma reformulação, digamos, mais ameaçadora para a área portista. Impossibilitados de jogar a meio, os médios do Sporting estavam completamente presos na armadilha montada por Conceição para aquele sector do terreno. Qualquer entrada em zona interior seria meio caminho andado para a perda da posse e para um contra-ataque prometedor dos portistas. Quando tinham espaço para jogar, sobressaíram essencialmente os erros no passe e no transporte (Battaglia), a desesperante lentidão de William e as perdas de Bruno Fernandes.

battaglia

Boa cobertura posicional de toda a equipa do Porto à excepção de Layun. Impossibilitado de servir William e Bruno (Aboubakar fechava naquele momento a linha de passe para o internacional português; Danilo estava próximo de Bruno; Herrera estava colado a Mathieu; se a bola entrasse no central francês, o mexicano cairia rapidamente na pressão), Battaglia sente que naquele frame específico tinha de avançar com a bola para queimar linhas e tentar criar uma situação na qual pudesse dar tempo aos seus companheiros para abrir uma linha de passe profícua para os colocar em jogo. 

battaglia 2

Face a uma situação na qual Danilo vai pressionar e Sérgio vai fazer a contenção, e William já aparece em condições de receber a bola (creio até que se tivesse avançado de cabeça levantada, Battaglia poderia ter vislumbrado a diagonal que lhe estava a ser oferecida por Gelson) o argentino deu um passo a mais… e perdeu o esférico, deixando a sua defesa em clara situação de inferioridade numérica. 

danilo 2

Danilo pressionou, Sérgio fez a contenção (conquistando a recuperação) que Brahimi aproveitou para lançar uma acção de contragolpe

Sem espaço para colocar a bola na posse dos médios no interior do relvado, os centrais do Sporting procuraram inverter novamente a construção através do passe para os laterais. Porém, até nesse processo Mathieu teve uma noite pouco inspirada. Em vários lances nos quais o central tentou iniciar a construção com Jonathan, os passes não lhe saíram escorreitos. O papel do lateral foi em diversos momentos do jogo algo ingrato: Jonathan projectava-se bem e abria junto à lateral boas linhas de passe mas os seus companheiros doseavam e de que maneira o impacto na bola para o servir.

De canto em canto, de livre em livre o Sporting apostava tudo nas bolas paradas mas nem sempre a execução de Acuña foi a melhor. Jesus chegou inclusive a ir ao desespero quando à “8ª tentativa” o argentino voltou a bater mal para o primeiro poste, zona onde existia sempre um jogador do FC Porto.

Lá pelo meio andava Bas Dost. Sem jogo na área adversária (a verdade é que Marcano e Felipe também realizaram duas irreprensíveis exibições; bem posicionados, cortaram com eficácia grande parte dos lances que Jonathan ia colocando para a área; noutros lances fizeram uma boa cobertura corpo-a-corpo às movimentações de Dost no ataque à bola) o holandês limitava-se a vir ao exterior cabecear bolas para tentar manter o jogo vivo no meio-campo adversário. Doumbia fez efectivamente muita falta neste jogo. Com o marfinense em campo, o Sporting ganha, neste tipo de partidas, uma referência (e critério: as movimentações no ataque à profundidade) para as saídas rápidas no contra-ataque. No único lance em que o Sporting esteve próximo do golo no primeiro tempo, a bola foi por infelicidade parar à cabeça do pior finalizador: William Carvalho. Com tudo para finalizar na cara de Casillas, o médio desperdiçou a única oportunidade que os imperiais Felipe e Marcano lhe concederam.

Na 1ª parte, Conceição optou por não colocar a carne toda no assador. Prevenidos para os processos habitualmente utilizados pelo Sporting, mais concretamente por William e Bruno Fernandes na transição para o contra-ataque (o lançamento de bolas para a velocidade de Gelson no corredor direito) os laterais do Porto, Layun e Telles, avançaram com conta e medida pelos seus flancos para evitar situações de exposição que poderiam ser aproveitadas pelo adversário. Na 2ª ocasião flagrante de golo até foi Marcano quem subiu no terreno para servir o cabeceamento de Aboubakar:

Não posso terminar esta abordagem ao primeiro tempo sem elogiar a exibição de classe mundial de Rui Patrício. Seguro entre os postes e rapidíssimo a sair aos pés adversários, o histórico guardião leonino deu 1 ponto à equipa leonina com as suas decisivas intervenções. Se no lance em que está 1×1 com Aboubakar, foi rápido a sair dos postes para destemidamente dar, aos pés do camaronês, uma eficaz palmada na bola, e neste lance em particular, demonstrou fantásticos reflexos, não menos importante para o desfecho final da partida, foi, na 2ª parte, aquela categórica saída aos pés de Aboubakar naquele lance em que a hesitação de Xistra na decisão de um lançamento lateral quase deu 3 pontos ao FC Porto.

O Sporting cresceu na 2ª parte quando Jesus “acertou” o posicionamento a meio-campo e mandou subir o bloco. 

O avanço do bloco (pressionando em terrenos mais adiantados a saída de jogo dos portistas), a troca de extremos (fazendo passar Gelson para a esquerda e Acuña para uma posição mais interior na direita), o recuo de Battaglia e o avanço de William no terreno (matando as transições adversárias) foram as soluções que Jesus encontrou ao intervalo para colocar o meio-campo em pratos limpos, ou seja, em superioridade numérica. O FC Porto de Sérgio Conceição recuou linhas enquanto o Sporting avançou-as.

Jesus ganhou a aposta. A pressão em terrenos mais adiantados, acompanhada de maior agressividade na disputa da bola, permitiu à formação leonina mais recuperações a meio-campo, recuperações a exemplo desta, podiam ter sido melhor exploradas\finalizadas.

bruno fernandes 3

Como se pode ver, no momento da recuperação, a defensiva do FC Porto é praticamente toda apanhada em contrapé. O médio teve uma passadeira para entrar na área mas não foi capaz de desfeitear Iker Casillas. 

Fruto de algum cansaço físico, os portistas começaram a pressionar com menos agressividade, saíram menos vezes e com menor qualidade para o contra-ataque e abriram até alguns espaços para Bruno Fernandes colocar alguma velocidade no jogo. Quando o jogo parecia talhado para a rapidez de execução do médio, Jesus decide tirá-lo de campo para colocar Bruno César. Bruno estaria decerto estoirado num jogo onde o jogo pouco lhe passou pelos pés, mas face à maior e mais errática “abertura” posicional do adversário, não se justificaria a entrada de um jogador capaz de dinamizar (e de colocar alguma imprevisibilidade nas acções; de arrancar com a bola; de realizar tabelas à entrada da área, de aparecer numa zona mais interior a facilitar a realização de combinações em triangulação com os homens dos corredores) entre linhas como o é efectivamente Daniel Podence? Só Jesus poderá esclarecer o que lhe terá passado pela mente naquele preciso momento quando decidiu colocar o brasileiro em campo!

O Sporting voltava à velha estratégia que tão poucos frutos tem dado na presente temporada. Carregados de jogo (quer Gelson, quer Acuña) tinham dificuldades para definir bem as jogadas que iam construíndo. Na esquerda, apesar de ter executado duas aberturas de sonho para a entrada nas costas da defensiva portista por parte de Jonathan (oferecendo ao argentino boas situações de cruzamento) Gelson teve algumas dificuldades para suplantar a pressão adversária (sempre de 2 jogadores) e voltou a hesitar nas situações em que poderia ter dado sequência às incursões até zonas mais interiores através do cruzamento. Já Acuña foi obrigado a um esforço muito maior. Presente ora no centro a lutar pela posse ora aberto no flanco (Piccini subiu menos no 2º tempo e nem sempre foi lesto a subir para aproveitar o espaço que o argentino lhe libertava sempre que pulava para o interior do terreno) o argentino foi pouco apoiado nas suas investidas, investidas nas quais se via rodeado por vários jogadores adversários.

Nota final para a pujante entrada de Corona na partida: na 2ª parte, Sérgio Conceição abdicou totalmente do seu flanco direito. Com Marega em cunha com Aboubakar e Otávio (entretanto entrado na partida) em zonas mais interiores, Layún não pode subir porque a colocação de Gelson no seu flanco obrigava-o a ter mais contenção nas subidas. Quando Conceição voltou a reactivar a ala, Corona ofereceu “pernas frescas” à equipa e numa acção na qual procurou o jogo interior com uma inflexão em drible, passou por 3 adversários antes de ser derrubado. O autêntico penalty a 25 metros que o mexicano criou aos 87″ foi bem resolvido por Rui Patrício, mas se Conceição tem apostado mais cedo na sua entrada, o mexicano poderia ter ajudado a resolver a partida. 

 

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2 opiniões sobre “Frente a uma equipa extremamente competente, o empate foi um mal menor”

  1. Isto é tudo muito bonito, todas estas analises tácticas e técnicas… Mas muitos dos jogos são definidos pela APAF. A pergunta que deixo, num jogo em que o árbitro nem teve nenhum lance daqueles que decidem um jogo artificialmente, é o que teria sido o jogo se o árbitro tivesse agido disciplinarmente como devia com a carrada de faltas que o Sérgio Oliveira pôde fazer o jogo todo? Acabaria a primeira parte? Não me parece! E isso não mudaria o jogo radicalmente? Pensar que o gajo acabou o jogo sem levar sequer um amarelo…

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    1. Teria sido completamente diferente porque o jogador em causa não teria sido tão agressivo quanto foi durante os primeiros 60 minutos. Logo, o FC Porto não teria uma postura tão controladora a meio-campo.

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