Miguel Cardoso, o perfeccionista que procura competência e eficácia em todos os jogos


miguel cardoso

Descrito por grande parte dos colegas de profissão e dos jogadores que orientou até ao momento enquanto adjunto de vários outros treinadores de nomeada da praça portuguesa (na última década, antes de se estrear como treinador principal no Rio Ave, Miguel Cardoso foi adjunto de Domingos Paciência, Paulo Fonseca e Carlos Carvalhal) como um grande treinador (um enorme conhecedor\interprete do jogo) que procura trabalhar as suas ideias de jogo com minudência e rigor, até à exaustão, ou melhor, até à “perfeita operacionalização” destas, Miguel Cardoso tem sido um dos treinadores que se tem destacado nas primeiras jornadas da Liga Portuguesa. O 6º lugar actualmente ocupado pelo Rio Ave na tabela classificativa da Liga Portuguesa (com 14 pontos somados em 24 possíveis; a 3 pontos do Benfica, o actual 3º classificado) não tem expressado por ora o nível de competência com que a equipa aborda todas as partidas e todas as situações de jogo, nem tão pouco tem feito justiça à qualidade do futebol praticado pela formação de Vila do Conde. O nível de excelência que a equipa tem exibido no primeiro quartel da Liga merecia indiscutivelmente uma posição mais adiantada da tabela (o 3º lugar a meu ver seria neste momento a posição mais justa para a formação vilacondense) pese embora, como temos vindo a observar nas últimas partidas, o competente Marítimo de Daniel Ramos também tem vindo “a fazer pela vida” para realizar um campeonato que permita aos madeirenses o acesso às competições europeias da próxima temporada e a um resultado histórico nunca alcançado (4º lugar) pelo emblema do Funchal nos seus 107 anos de existência. 

Quem é Miguel Cardoso?

miguel cardoso 2

Nascido há 45 na Trofa, este Licenciado em Desporto pela Universidade do Porto e Mestre em Treino Desportivo de Futebol pela mesma instituição universitária, realizou um percurso ascendente na modalidade. Brilhante aluno quer no seu percurso universitário quer nos cursos de treinador que frequentou (no curso de nível IV foi a par de Pedro Caixinha o melhor aluno do curso, terminando-o com uma distinta avaliação de 17,5 valores – num curso frequentado por antigos jogadores como Ricardo Sá Pinto, Hélder Cristóvão, Pedro Caixinha, Jorge Simão e Mitchell Van der Gaag) o futebol entrou na vida de Miguel Cardoso quando, ao acordo de um protocolo assinado entre a Universidade do Porto e o Futebol Clube do Porto, o actual treinador adjunto da selecção nacional Ilídio Vale, na altura o coordenador da formação dos dragões o convidou para a formação do porto, formação onde já trabalhavam, nos meados dos anos 90, nomes como Vítor Pereira ou André Villas-Boas. Durante 8 anos, o técnico orientou os mais variados escalões de formação da formação da invicta.

Em 2004 viria o convite que o iria conduzir até ao actual cargo que desempenha. Carlos Carvalhal, o então treinador do Belenenses, técnico que na altura gozava os louros do prestígio que tinha alcançado 2 anos antes ao serviço do Leixões (a formação do concelho de Matosinhos foi a primeira equipa do 3º escalão do futebol português a atingir a qualificação para a final da Taça de Portugal na temporada de 2001\2002; foi também a primeira equipa do 3º escalão a jogar uma supertaça Cândido de Oliveira e as competições europeias da temporada seguinte; apesar de ter sido eliminada logo na 1ª mão contra o poderoso PAOK da Grécia, no Estádio do Mar, Carvalhal conseguiu bater os gregos por 2-1 no jogo da primeira mão disputado no Estádio do Mar) decidiu convidar Miguel Cardoso para seu adjunto na formação de Belém. A relação profissional iniciada pelo técnico perduraria pelas 3 épocas seguintes, épocas nas quais, Miguel Cardoso, iria acompanhar o actual técnico do Sheffield Wednesday até Braga. O trabalho realizado em Braga despertou o interesse de Domingos Paciência, treinador que se estreava na altura como técnico principal. Com Paciência, Miguel Cardoso percorreu um percurso de 6 anos que inclui passagens pela Académica, pelo Deportivo da Corunha (2 temporadas), novamente pelo Braga e pelo Sporting.

Em 2013, Luis Gonçalves, actual CEO do Porto, decidiu convidar o técnico de 41 anos para ingressar no departamento técnico de formação do Shakhtar Donetsk. Durante 4 anos, o treinador orientou a equipa B da formação ucraniana, a principal rampa de lançamento dos “produtos acabados” da formação do emblema de Donetsk, ao mesmo tempo que coordenava toda a formação do clube daquela cidade da Crimeia. Na última temporada, o técnico acumulou essa função com a função de adjunto de Paulo Fonseca. O percurso do técnico em Donestsk não foi de todo fácil. Apanhado pela invasão e anexação do território realizado pelas milícias populares pró-russas na sequência da crise despoletada pela queda do presidente Ianukovic, o clube foi obrigado a mudar-se e de certa forma a re-iniciar a sua actividade praticamente do zero na cidade de Lviv, regressando apenas à cidade no início de 2017 para jogar no estádio do “rival” Metalist. O recinto do Shakhtar, a outrora belíssima Donbass Arena (cujas obras custaram 320 milhões aos cofres do estado ucraniano), estádio construído de raiz para o Euro 2012, viu vários sectores destruídos em 2014 na sequência de um raid de bombardeamentos realizado pelas várias partes envolvidas na contenda bélica.

O ADN futebolístico

Como já viemos a constatar noutras ocasiões, Miguel Cardoso é um fervoroso adepto da ideia de que as 6 semanas prévias ao contexto de competição que lhe são oferecidas para preparar a equipa para o contexto competitivo devem ser utilizadas exclusivamente (ignorando as concepções metodológicas tradicionais)  para explicar, sistematizar, exercitar, modelar colectivamente e operacionalizar os jogadores ao guião, ao fio condutor que vai nortear a forma de jogar da equipa durante toda a temporada: o modelo de jogo. Para se chegar ao rendimento máximo que o treinador pretende para determinada altura da temporada para o seu modelo de jogo, Miguel Cardoso é um dos treinadores que utiliza desde o início da temporada uma abordagem mais ou menos personalizada, à metodologia da periodização táctica, uma metodologia de treino na qual a componente táctica da equipa é o núcleo central da sua preparação, ou seja, a dimensão do jogo que subjuga todas as outras dimensões mas não as exclui, arrasta-as consigo. Nesta abordagem metodológica, os aspectos físicos, técnicos e psico-cognitivos são também importantes mas os aspectos tácticos agem como items reguladores e orientadores de todo o trabalho que é realizado.

A periodização táctica é também uma abordagem metodológica (que recusa a divisão da temporada em várias divisões; a única é o microciclo de treino) que tem como imposição (para se atingirem os resultados pretendidos) a utilização do período preparatório como o fulcral período no qual o treinador deve orientar o seu treino com base numa única preocupação: colocar a equipa a jogar como pretende. O colectivo sobrepõe-se ao individual, embora as características individuais de alguns jogadores tem de ser modeladas para melhor funcionarem no trabalho colectivo que se visa desenvolver Para o efeito, a realização de exercícios específicos para as 4 fases do jogo revestem-se de especial importância. O treinador deverá portanto idealizar no tempo exercícios específicos que estejam de acordo com os parâmetros (princípios e sub-princípios) idealizados de acordo com o seu modelo de jogo nas 4 fases deste.

Fidelidade ao modelo identitário em construção é a palavra de ordem para esta temporada em Vila do Conde. O treinador vincou várias vezes a ideia que os jogadores devem sempre respeitar o modelo de jogo que tem vindo a ser construído, indiferentemente do adversário. E o modelo de jogo deste Rio Ave, alicerçado no sistema táctico 4x2x3x1 começa cá atrás, na baliza, com uma saída apoiada em construção que se inicia nos pés do guarda-redes Cássio e dos centrais habitualmente utilizados Marcelo e Marcão. Indiferentemente do adiantamento das linhas de pressão do adversário, a equipa revelou ter solidificada saída a jogar, sem erros, que permite aos médios (Tarantini e Pelé) entrar ao meio para receber e conduzir controladamente e em segurança o esférico até ao meio-campo, sector onde se activa outro dos pressupostos do modelo de Miguel Cardoso: não apostando num futebol de processos que privilegiam a utilização dos corredores em detrimento do jogo interior (os laterais devem ser capazes de ter disponibilidade física para fazer o corredor praticamente por inteiro porque os “falsos alas” entram em desmarcações diagonais nos espaços centrais para receber o jogo; a ideia aqui passa pela verticalidade e profundidade que pode ser dada pelos laterais dado o posicionamento mais interior dos criativos vilacondenses;), o trio de médios criativos que joga à frente dos médios de transporte\e contenção defensiva (com a missão de trancar imediatamente a investida adversária no contragolpe em caso de perda da posse) Tarantini e Pelé (Ruben Ribeiro, Francisco Geraldes e Barreto), vêm ao meio buscar jogo (preferencialmente atrás da linha média adversária para explorar um eventual espaço existente entre linhas) para criar, quer através de jogadas de pé para pé, quer através de rápidas acelerações verticais em velocidade (Barreto, p.e) quer através do passe (em profundidade para as desmarcações de ruptura Guedes para as costas da defesa; para as desmarcações circulares de Guedes para as alas; para as subidas dos laterais no terreno) quer até através, sempre que a equipa adversária o permita, do remate de meia distância.

rio ave

Momento da construção ofensiva vilacondense:

  1. Centrais bem abertos. Pelé recua até aos centrais, formando uma linha de 3.
  2. Transição com,a bola controlada.
  3. Laterais bem projectados no terreno e abertos pelo flanco.
  4. Trio de médios criativos inseridos no jogo interior, com Ruben Ribeiro a desmarcar-se sobre os centrais para receber o passe em profundidade nas costas da defensiva do Vitória de Setúbal.

Outra perspectiva:

rio ave 2

A vermelho: os laterais

A azul: a linha de 3 formada com a presença de Péle

A preto: criativos inseridos em zona interior.

Outra jogada em que é possível ver a mesma esquemática posicional:

rio ave 3

A azul em zona interior: Geraldes, Nuno Santos e Rúben Ribeiro.

A preto: os laterais, bem projectados.

A vermelho: os stoppers Pélé e Tarantini. 

Defensivamente, este Rio Ave começa no seu avançado. Guedes é a primeira de pressão intensiva a qualquer adversário. Não raras vezes podemos ver o resistente avançado a lutar pela recuperação da bola junto aos centrais ou até mesmo aos médios organizadores adversários. Não assumindo de todo um bloco recuado, mas sim um bloco médio e até por vezes médio alto (dependendo do adversário), com linhas sempre próximas e defesa subida sempre que possível, as 4 linhas de pressão devem encurtar o máximo de espaços possíveis para o adversário jogar entre linhas e devem ser extremamente pressionantes para: 1) obrigar o adversário a cometer erros 2) auxiliar a sua defesa no controlo da profundidade, limitando o espaço e o tempo para o adversário pensar e executar, tempo precioso para a defesa ir subindo no terreno para criar a armadilha do fora-de-jogo.

As bolas paradas ofensivas

Variar e inovar a execução para complicar a missão defensiva ao adversário. Como qualquer perfeccionista, Miguel Cardoso é um treinador que gosta de trabalhar com minúcia novas soluções para os lances de bola parada ofensivos. A apresentação de um leque variado de possibilidades de execução ainda não é para já uma premissa que nos possa levar a afirmar com segurança que as equipas que inovam regularmente um nível de eficácia superior ao nível das equipas que batem estes lances da mesma forma ao longo de toda uma temporada. Contudo, variar a execução dos lances de bola parada significa acima de tudo, apanhar completamente desprevenida a defesa contrária ou criar-lhe novos problemas defensivos, problemas para os quais nem sempre pode estar treinada uma rápida adaptação, ou seja, um conjunto de modificações que ajudam determinada a equipa a adaptar-se às condições impostas pelo adversário.

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