Um artigo da Marca que dá pano para mangas


Messi

Durante a tarde de hoje, um amigo futebolista, mostrou-se este interessante recorte publicado pelo Jornal Marca, vídeo que alegadamente, segundo os jornalistas daquela publicação, tem vindo a tornar-se viral na internet nos últimos dias.

O dito vídeo mostra as assinaláveis diferenças de execução e eficácia (entre o que acontece no Barcelona, com Luís Suarez e o que acontece na selecção argentina) numa das dinâmicas mais utilizados pelo argentino ao longo da sua carreira. Em bom futebolês, muitos designam esta acção como parede; outros chamam-lhe apoio frontal de um colega à acção do portador; outros designam esta acção como tabela em apoio frontal – eu prefiro chamar-lhe tabela de apoio frontal à acção do portador porque nem sempre as paredes respondem de forma escorreita à nossa acção. O artigo, de índole sensacionalista – numa éra em que o jornalismo adoptou o sensacionalismo no topo das opções editoriais, como um mister da profissão e garante da sua própria sobrevivência, um gajo precisa de ter sempre o chip formatado para a desconfiança e um filtro à informação à mão de semear – visava, creio, tentar incentivar a uma das mais velhas discussões do futebol – “as assinaláveis” diferenças que muitos vêem crer no rendimento do futebol na selecção argentina relativamente ao seu rendimento em Barcelona. Não quero comprar essa discussão (o último jornalista que tentou comprar essa discussão com Cristiano Ronaldo acabou com o microfone no fundo do lago!) porque simplesmente não creio que o rendimento do atleta seja assim tão díspar e porque obviamente existem outros condicionalismos que enviesam a discussão, nomeadamente, as diferenças assinaláveis no modelo de jogo dos treinadores que orientam o argentino; as claras diferenças de tempo que este tem para trabalhar com os diversos actores do clube e da selecção; as próprias disposições dos adversários nos momentos de organização defensiva e todos os contextos tácticos diferenciados que um adversário pode oferecer ou retirar durante um jogo (aumentando ou diminuíndo o espaço para jogar em certas zonas do terreno; marcando mais ou menos em cima; a intensidade e a agressividade na pressão ao portador; a velocidade de reacção à perda do esférico; o tempo que uma equipa demora a realizar uma transição defensiva eficaz, e por aí adiante…) e a própria entrega do argentino ao jogo.

Confesso que tive porém curiosidade para ir pesquisar in loco mais sobre este assunto para estudar e para quiçá executar uma espécie de paralelismo entre as dinâmicas clássicas que o argentino construiu na última década em Barcelona e as dinâmicas dos processos ofensivos operacionalizados por Jorge Sampaoli. Fui portanto fazer um upload do jogo realizado pela selecção argentina na quinta-feira frente ao Peru para apreciar com mais nitidez algumas dinâmicas do craque e o seu devido enquadramento nas dinâmicas que compõem processos de jogo ofensivo do seleccionador da albiceleste. Em 45 minutos encontrei naturalmente muitas das dinâmicas desenvolvidas em Barcelona, porque é efectivamente nesse conjunto de dinâmicas onde o jogador sente que pode aplicar todo o seu potencial (velocidade na decisão em espaços curtos, inteligência na procura de espaços mais amplos para jogar; rápidas rotações em drible sobre o adversário, rápidas mudanças de direcção em drible; apoio frontal para anular a pressão exercida naquele momento ou queimar a linha adversária que se encontra à sua frente, impossibilitando-o de progredir mais com bola, para poder numa segunda fase da jogada voltar a receber em condições de progredir ou até de partir para a finalização da jogada já sem oposição por perto) 

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Tendo recebido na interior direita, Messi realiza lentamente a aproximação ao jogo interior. A defesa adversária concede-lhe algum espaço (em clima controlado; assim que o argentino entra totalmente no corredor central, 2 jogadores tratam de fechar a linha de passe para qualquer jogador que possa aparecer entre linhas) para progredir. Neste frame nota-se que o argentino quer entrar através de apoio frontal nas imediações da área mas dois colegas já estão a pensar no ataque à profundidade, com dois movimentos de desmarcação, um divergente e o outro em diagonal. 

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Quando os companheiros se apercebem que La Pulga não irá efectuar o passe para as suas investidas, dois colegas tratam de parar os movimentos para oferecer apoio frontal. Nesse momento já os peruanos fecharam as linhas de passe. 

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O argentino é obrigado portanto a ter que passar em velocidade por um jogador para obrigar outro a sair em contenção para lhe roubar o esférico, para abrir uma linha de passe. Como é rasteirado, não aparece para receber o apoio frontal. 

Considero perfeitamente natural que as dinâmicas utilizadas por um jogador num clube, dinâmicas trabalhadas (em conjunto por todos os agentes envolvidos na criação do “jogar” do Barça) que têm sido, no decurso da última década, sinónimo de tanta destruição junto das defesas adversárias, não sejam alteráveis de um dia para o outro. Já nem falo do pouco tempo que Jorge Sampaoli ou qualquer outro seleccionador dispõe para trabalhar um conjunto dinâmicas alternativas com os jogadores, porque qualquer seleccionador dispõe efectivamente de pouco tempo para operacionalizar um modelo de jogo e ainda tem por vezes que lidar com contrariedades (lesões de jogadores que já assimilaram e já executam as suas ideias) que o obrigam a ter que convocar outro jogador para, num reduzido período, o “formatar” às suas ideias para aquela posição. A assimilação e execução de qualquer ideia no futebol demora tempo, requer prática e carece de entendimento por parte do jogador em relação ao que lhe é pedido. Nem sempre todos os jogadores entendem aquilo que lhes é pedido porque a sua compreensão do jogo é diferente. A verdade é que os próprios jogadores por vezes compreendem o jogo de forma diferente e continuam a insistir em acções e execuções que lhes granjeiam sucesso, enquanto outros pura e simplesmente falham até na interpretação das acções que os colegas de equipa realizam.

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Messi volta a receber da direita, inserido na meia direita. No corredor central aparecem bem posicionados os 3 defensores do último exemplo. 

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O adversário volta a condicionar a dinâmica do argentino. Enquanto um jogador pressiona, outro fecha-lhe a linha de passe para o único apoio disponível. Messi contemporiza e espera que se abra outra linha de passe.

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Nestes exemplos, o apoio frontal não sai porque:

  • A defesa adversária criou vários condicionalismos (boa cobertura posicional, fecho das linhas de passe)
  • Os colegas não entenderam no início da jogada as intenções do colega.

É tão natural que Luis Suárez entenda, pelo tempo que já tem de trabalho com o argentino a sua forma de jogar, assim como é natural que o uruguaio procure outro tipo de movimentos (a desmarcação em circular sobre os centrais) assim que Iniesta tem a posse entre linhas ou assim que saia um passe de ruptura para as desmarcações de Alba pela ala.

Outro exemplo: 

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Tendo recebido sobre pressão de um opositor, para dar sequência à jogada, o argentino precisa de o passar em velocidade. Assim que o passa, Messi procura o apoio de Dario Benedetto. Hesitante, como se pode ver na imagem, o jogador não sabe se deve desmarcar ou se deve ficar para receber o passe e tabelar. A hesitação é motivada obviamente por inexistência de rotinas consolidadas entre jogadores. Messi queria decerto que o avançado saísse da marcação para vir buscar o jogo e tabelar (arrastando consigo o defesa) para lhe abrir espaço no corredor central para entrar na área). 

argentina

Como podemos ver, o espaço existente entre os centrais assim indicava a ideia que o jogador tinha para a definição da jogada. Benedetto saía da marcação (arrastava; inutilizando um central) e tabelava com um toque miudinho para Messi poder entrar na área pelo corredor central, dada a distância do outro central. Se assim fizesse, face à velocidade do argentino, muito difícil conseguiria chegar a tempo para intervir convenientemente na jogada.

 

 

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