Tim Cahill – tão importante na selecção australiana aos 37 anos quanto era em 2006, aos 26


cahill

A história do percurso internacional do melhor jogador da história do futebol australiano é uma daquelas histórias que dá pano para mangas. Nascido em Sydney a 6 de Dezembro de 1979, filho de imigrantes no país (de mãe samoana e de pai de origem irlandesa, de 2ª geração) Cahill começou a dar os primeiros passos para o futebol no extinto Sydney Olimpic, o clube que ficava mais próximo do bairro onde morava. Em 1994, aos 14 anos, para efeitos desportivos, o jogador decidiu optar pela nacionalidade samoana para poder disputar com essa idade o campeonato do mundo de sub-17, prova para a qual aquela selecção austral se tinha qualificado no ano anterior na ronda de qualificação da Oceania. Volvidos 8 anos, em 2002, altura em que o jogador já actuava no Milwall, clube que na altura militava no Championship, Mick McCarthy considerou a hipótese do jogador vir a ser naturalizado irlandês para representar aquela selecção na fase final do Mundial de 2002. Como a FIFA proibiu determinantemente a possibilidade da Irlanda poder inscrever aquele jogador naturalizado à pressão, fazendo cumprir as regras que imperavam que um jogador que tivesse optado, para efeitos desportivos, por um país do qual era nacional, não podendo em momento algum tomar a decisão de mudar para outro país do qual pudesse ser nacional, o jogador foi obrigado a alinhar pela Samoa. Em 2004, a FIFA decidiu porém rever a essa lei, permitindo a jogadores que tinham actuado pelas selecções jovens de um país, mudar para outra selecção em idade sénior, desde que não tivessem alinhado numa partida pela selecção sénior do primeiro. Como Cahill só alinhou pelas selecções de sub-17 e sub-20 da Samoa (cumprindo 2 jogos nesta última), em 2004, a Austrália pode inscrever o jogador nesse ano. Cahill representou em Atenas a selecção australiana e pode iniciar, com a selecção sénior, a campanha para o campeonato do Mundo de 2006, campanha na qual, a selecção australiana, conseguiu um feito histórico que não havia conseguido nos últimos 32 anos: apurar-se novamente para um mundial por via da “complexa” ronda de qualificação da Oceania, a única zona de qualificação que ainda não possui o direito a qualificar directamente uma selecção para o Campeonato do Mundo. Em 2006, a Federação Australiana decidiu propor à Confederação Asiática de Futebol (AFC) a sua inscrição como membro. Tal decisão não foi somente motivada pelas questões intimamente ligadas ao processo de qualificação para o Mundial mas também pelas necessidades específicas de desenvolvimento que eram pretendidas pelos australianos, nação cujo estado de desenvolvimento do seu futebol era largamente superior ao estado de desenvolvimento das outras nações da zona geográfica – compreendendo que as provas por selecções daquele continente apresentavam selecções de nível de desenvolvimento superior às das selecções da Oceania, os australianos queriam efectivamente ter ali a possibilidade de participar em competições nas quais os seus jogadores pudessem travar combates contra selecções e equipas de países com um nível de desenvolvimento superior e de certo modo equiparado ao seu.

Em 2006, Tim Cahill já era um jogador que apresentava um estatuto muito apreciável no futebol europeu. Em 2004, após 6 anos no Milwall, o jogador transferia-se para o Everton de David Moyes, clube onde, nos anos seguintes seria, em conjunto com outros jogadores que passaram pelos toffies, como Marouane Fellaini, Mikel Arteta, Leon Osman, Yakubu, Victor Anichebe, Thomas Gravesen, Phil Nevile, uma das grandes vedetas senão a grande vedeta dos conjuntos do emblema da cidade de Liverpool. Para reforçar esta ideia basta referir que em 2006, o australiano foi, em 18 anos, o primeiro jogador do clube nomeado para os 50 candidatos ao Ballon D´or desse ano.

Na memória de qualquer adepto australiano ficarão para sempre gravados aqueles mágicos minutos finais da partida inaugural dos socceroos na competição que se jogou em 2006 na Alemanha. Saído do banco nos minutos finais da partida disputada frente ao Japão na qual, à entrada para os 10 minutos finais os japoneses venciam por 1-0, com 2 golos em 5 minutos (83 e 88″), o jogador operou a reviravolta no marcador, tornando-se a partir daí o jogador talismã (detentor de um grau de influência incrível – quer dentro do campo, quer fora dele) de todos os seleccionadores australianos que com ele trabalharam até à presente data. Decorridas várias dezenas de internacionalizações, e várias dezenas de golos apontados ao serviço da selecção australiana, o jogador de 37 anos, atleta que actualmente cumpre um certo período de pré-reforma ao serviço dos Melbourne City da principal divisão do futebol australiano, continua a ser tão decisivo quanto o era na década passada. Frente à Síria, no playoff de apuramento da zona de qualificação asiática, o veterano avançado, jogador que sempre ostentou um incrível faro para o golo e uma agilidade fora do comum, e cujo legado vai para além das 4 linhas – ensinou aos australianos que no futebol, não se devem sentir inferiores a ninguém – voltou a ser decisivo ao apontar os dois que permitiram aos australianos terminar com o colorido sonho dos “abalados” jogadores sírios.

O futebol da selecção australiana sob o comando técnico de Ange Postecoglu

postecoglu

Em traços largos, desde que o seleccionador de 52 anos, agente de origem grega, que construiu a sua carreira maioritariamente ao serviço de clubes e seleccões nacionais (à excepção de uma breve passagem de vários meses num clube grego) assumiu a selecção nacional daquele país em 2013, selecção que representou por 4 vezes enquanto jogador, decidiu instituir um modelo de jogo que é uma autêntica ruptura com o paradigma vigente e tradicional do futebol do país dos cangurus: o britânico kick and rush. As suas ideias de jogo demorarão obviamente muitos anos a reflectir-se no futebol australiano, não obstante os esforços que este veio a realizar nas últimas décadas nas equipas que orientou para romper com esse paradigma. No entanto, creio que serão precisos muitos mais anos, e a instauração de uma filosofia de base na formação do futebol daquele país para que as ideias de jogo do seleccionador australiano venham a surtir efeito no futuro. Isto é: de nada vale ao seleccionador neste momento ter um conjunto de jogadores com um mais amplo conhecimento do jogo se, desde tenras idades, estes ainda são ensinados a jogar de acordo com um padrão completamente antagónico (e anacrónico) às suas ideias de jogo que este visa operacionalizar. E a verdade aqui é somente uma: a formação australiana ainda é uma formação que ensina o jogo de forma entrecortada, sem grande participação dos jogadores de meio-campo, de pontapé para à frente sem critério à procura do poderio físico dos intervenientes na frente de ataque, física, muito musculada (futebol de batalha) e com pouco rigor táctico.

Postecoglu é amante de um futebol de posse, no qual indiferentemente do grau de adiantamento ou recuo das linhas do adversário e da intensidade\agressividade da pressão adversária, as suas equipas devem sair a jogar a partir de trás com confiança, num modelo apoiado de trocas de pé para pé para assumir o jogo, procurando progredir no terreno e encontrar espaços que possam servir para lançar em profundidade os homens da frente; neste aspecto em particular, a presença de Aaron Mooy, um jogador capaz de dar critério ao jogo e de desencantar espaços para jogar onde parece não os haver é muito importante; procurando alternar um futebol mais de posse no meio-campo adversário, com um futebol mais vertical no qual na primeira fase de construção, o aparecimento do veloz criativo Tom Rogic nos espaços entre linhas, permite à equipa queimar linhas adversárias; ou com lançamentos em profundidade para as desmarcações dos seus homens mais avançados, Juric, Robbie Kruse, Tim Cahill, para as costas da defesa adversária).

Vamos a vários exemplos captados no jogo contra a Síria:

rogic

Recebendo entre linhas, Rogic é um jogador que consegue através da sua velocidade, livrar-se da pressão adversária e acelerar a construção, queimando linhas e criando momentos de superioridade numérica.

rogic 2

Quando chega à zona de criação, o criativo médio de 24 anos que actualmente representa o Celtic de Glasgow procura servir a desmarcação de um dos homens da dianteira para as costas da defesa. Tal não veio a acontecer neste lance em particular.

Mais uma vez, Rogic é importante na aceleração da construção do ataque. Matthew Leckie é um extremo de origem adaptado por Postecoglu a ala direito. Em virtude do seu passado, o veloz fantasista é portanto um jogador que gosta de se projectar bem aberto junto às linhas quando a equipa tem a posse no meio-campo contrário para a receber e encarar o lateral adversário. Sendo um jogador que raramente teme o 1×1 contra o adversário quando recebe na sua ala, acrescenta sempre a estas acções uma fantástica capacidade de cruzamento.

Aaron Mooy, o estratega

O médio do Huddersfield Town não é um centrocampista na sua acepção operacional da posição ou seja, não é um daqueles médios que se distingue na primeira fase de construção pelo transporte ou pela construção das iniciativas ofensivas através do passe, podendo no entanto também desempenhar essas funções quando for necessário. Mooy é um médio cujo rendimento é superior quando é colocado estrategicamente nos corredores junto à área (na quina da área) podendo aí exercer uma função de ligação intersectorial (combinações, triangulações) com os alas e com o trio que aparece mais avançado no terreno. Com uma fantástica capacidade de contemporizar o jogo quando a bola chega aos seus pés para ler bem o cenário que aparece à sua frente de forma a decidir bem, de rodar para dar a entender ao adversário que vai procurar outra solução noutro corredor, voltando num ápice a rodar para a zona onde tem apoio para investir com passes para as costas do defensor para as movimentações do colega, Mooy é um jogador muito inteligente que arranja sempre espaços para a equipa progredir no terreno nas suas acções.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s