Volta à Turquia – Sam Bennett conquista a sua 3ª vitória de etapa


Os últimos quilómetros da curta tirada de 128 km que ligou Fethiye a Marmaris foram deveras interessantes de seguir. Constando no perfil geral da prova como a última oportunidade que esta oferecia para os sprinters que se apresentaram na prova turca antes das 3 etapas de média montanha que se seguirão, à partida, não era 100% líquida a possibilidade desta vir a ser disputada na sua ponta final em sprint massivo ou até com a presença de sprinters na frente. Os dois obstáculos montanhosos não categorizados (na minha humilde opinião, a não categorização daquelas subidas por parte da organização foi um verdadeiro crime que tirou alguma espectacularidade à prova – a primeira merecia talvez uma 3ª categoria e a última uma 2ª – dada a sua extensão de aproximadamente 4 km e a sua pendente média de 6,5%) desenhados pela organização nos últimos 30 km poderiam efectivamente vir a retirar de combate os vários sprinters em prova da discussão se a corrida fosse atacada pelos corredores que irão lutar pela vitória na geral individual nas montanhas nos próximos dias. Nos últimos 10 km, fiquei com a impressão de que o cenário final acima conjecturado poderia concretizar-se quando vi Darwin Atapuma e Diego Ulissi ao ataque e David Arroyo a rondar a frente do pelotão.

Várias mudanças de estratégia não retiraram discernimento à Bora.

Bora 2

As duas vitórias de Sam Bennett nas etapas anteriores provocaram muita comichão no seio das outras equipas, em especial nas formações da Trek de Edward Theuns, na Bardiani de Vincenzo Albanese e Enrico Barbin e na Androni de Manuel Ballerini e Francesco Gavazzi. Como nessas duas etapas estas foram as 3 formações que mais assumiram as despesas da corrida (colocando homens na frente em fuga ou ciclistas na dianteira em perseguição a essas fugas) e que mais arriscaram na parte final, projectando para a dianteira da prova a grossa fatia dos seus números com o intuito de lançar bem os seus sprinters, e vendo por outro lado, a Bora, a assumir uma postura muito cautelosa nas fases de perseguição para atacar em força a dianteira do pelotão na fase de lançamento, as ditas trataram naturalmente de alterar as suas estratégias de corrida para tentar obrigar a formação alema a colocar mais unidades nas fases de perseguição.

daniel

A Trek tratou portanto de virar agulhas na sua estratégia. Ao invés de incumbir novamente Eugenio Alafaci (poupando-o para a aceleração final) a um árduo e penoso esforço de condução do pelotão e controlo das fugas, a formação de Edward Theuns decidiu encetar a fuga do dia, fazendo sair do pelotão nos primeiros quilómetros o seu jovem estagiário Gregory Daniel, corredor norte-americano de 22 anos que na temporada de 2016 se sagrou o mais jovem campeão nacional de estrada daquele país. Acompanhado por Ferit Can Samli da Selecção Turca e Thomas Deruette da Veranclassic, Daniel, o último resistente da investida, cumpriu a missão para a qual tinha sido enviado pelo seu director desportivo com muita qualidade. A estratégia subjacente à escapada do norte-americano visava sobretudo criar na frente da corrida uma ameaça que obrigasse a Bora a desgastar o máximo número de unidades na trabalhosa aproximação à meta, aproximação na qual os ciclistas teriam que ultrapassar duas inclinações relativamente curtas (um de 2 km a 6% e outra de 4 km a 6,5% de pendente média de inclinação) para que Benett chegasse à meta sem grandes apoios para o lançar devidamente. A ideia da Trek visava portanto obrigar o neozelandês Steve Archbold e Muhlberger a terem que se desgastar mais rapidamente para efectivamente tornar o caminho mais fácil para o seu sprinter Edward Theuns.

Tanto a Bardiani como a Androni também optaram por uma estratégia similar. Apesar destas duas formações não terem colocado qualquer corredor na fuga inicial, tentaram, nas duas subidas provocar tumultos na corrida através do ataque de algumas das suas unidades de maior valia para terrenos montanhos como é o caso de Edoardo Zardini. A saída de Zardini na última ascensão do dia fez soar os alarmes junto aos homens que tencionam vir a disputar a geral nos próximos dias. Pelo sim pelo não, para salvaguardar a hipótese de vir a ter um homem junto ao trepador da Bardiani, sem ter que obrigar Ulissi a desgastar-se à toa, a formação Emir lançou o colombiano Darwin Atapuma. Diego Ulissi e David Arroyo (Caja Rural) foram obrigados a vir para a frente da corrida para poderem controlar de perto as incidências, não fosse o diabo Zardini tecê-las. Como Zardini é um razoável trepador, a UAE não decidiu arriscar.

Voltemos à investida a solo de Daniels: o norte-americano foi o último a resistir da fuga. Numa fase em que o pelotão era comandado a meias pela UAE e CCC (a trabalhar para o seu sprinter Frontisek Sisr) com a Trek a assumir com o seu bloco o outro lado da estrada para entrar ao serviço mal o norte-americano fosse alcançado, Daniel provou ser um osso duro de roer. As duas equipas que seguiram na frente (com a Bora na sua roda a adoptar mais uma vez uma postura algo expectante; no fundo, a equipa alemã estava novamente pronta para fazer, nos quilómetros finais, o “servicinho” de lançamento que já havia feito nas últimas etapas) só conseguiram efectiva anular a vantagem de minuto e 15 que este logrou alcançar a sensivelmente 22 km da meta quando começaram a dispor mais unidades ao trabalho.

Na parte final do último obstáculo do dia, a sensivelmenter 7 km da meta, a Androni tentou lançar Francesco Gavazzi ao ataque. O ataque protagonizado pelo seu experiente corredor, acabou por criar uma situação insólita: a Bardiani era vítima do seu próprio veneno. Até então a formação italiana tinha colocado várias unidades ao ataque, enquanto o seu bloco continuava muito compacto a seguir a roda dos homens da Trek. De um momento para o outro, Gavazzi tinha o dom de dividir o pelotão em 3 grupos, estando os Bardiani todos inseridos no 2º grupo. Tanto Edward Theuns como Sam Bennett conseguiram passar bem a subida, estando ambos bem posicionados na dianteira da corrida. A descida acabou por reagrupar novamente grande parte do pelotão.

Foi aí que a Bora pôs em marcha o seu habitual plano de sucesso. Com uma fantástica aproximação à frente da corrida, os lançadores de Bennett (com o sprinter irlandês na sua roda), Archbold e Muhlberger trataram de assaltar a grande velocidade a frente da corrida de forma a poderem entrar na dianteira na complicada parte final da tirada, aproximação que teria, para além de uma acentuada curva de 75º, um sector muito estreito pavimentado com blocos de cimento sulcado. Bennett foi portanto “levado de cadeirinha” até aos metros finais. A Manuel Belletti, ciclista que apareceu muito bem posicionado na frente do pelotão (5\6ª posição) coube a honra de lançar o sprint bem de trás, apanhando de surpresa toda a gente. Belletti bem tentou pedalar para vencer o sprint, mas Bennett viria novamente a ser mais potente nos metros finais, batendo novamente Edward Theuns em cima da linha de meta.

Com esta vitória, o sprinter irlandês reforçou a liderança (14 segundos para Theuns\26 segundos para Simone Consonni da UAE) que irá decerto perder nas montanhas. Nos próximos dias, a corrida entrará nas suas etapas decisivas.

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