Keita e Forsberg – as chaves do sucesso do Leipzig. Um conjunto de notas sobre a derrota do FC Porto na Alemanha


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A deslocação do FC Porto ao reduto do Leipzig antevia-se naturalmente difícil, não obstantes as boas (e sólidas) exibições protagonizadas pelos portistas nos dois anteriores testes de exigência máxima realizados frente ao Mónaco e Sporting, partidas nas quais Sérgio Conceição conseguiu arranjar uma forma de suplantar o descarrilamento verificado frente ao Besiktas no Dragão, com uma profícua mudança no onze (a colocação de Herrera perto de Aboubakar) que tem permitido à formação da Invicta uma maior acutilância no capítulo da pressão à saída de jogo adversária e uma maior eficácia defensiva a meio-campo. A deslocação dos portistas ao terreno do 2º classificado da Bundesliga 2016\2017 e actual 3º classificado (a 3 pontos da liderança) da actual edição do principal escalão do futebol alemão, antevia-se difícil por várias razões: a primeira e mais destacável reside na qualidade dos processos de jogo da equipa orientada pelo austríaco Ralph Hasenhuttl. A segunda e não menos importante era ditada pela necessidade de somar pontos. As duas derrotas somadas frente ao Mónaco e ao Besiktas, obrigavam os alemães a vencer para acalentar o sonho de ainda poderem vir a discutir o apuramento para os oitavos-de-final. A terceira e também não menos importante, reside na qualidade individual de alguns dos seus artistas. 

A equipa alemã é de facto, pelo que tenho visto desde a temporada passada, uma equipa extraordinariamente bem trabalhada nas 4 fases do jogo. Nas 2 fases ofensivas, é uma equipa que consegue, quer em ataque organizado quer no capítulo da transição do contra-ataque colocar muita objectividade, velocidade, vertigem, mobilidade sem bola, verticalidade e pragmatismo nas suas acções de circulação. A ideia de jogo ofensiva dos alemães inicia-se sempre no critério que é dado à circulação pelos seus centrocampistas Naby Keita e Kevin Kampl. Tanto Keita como Kampl são em primeiro lugar, dois jogadores com uma extraordinária capacidade para retirar a bola das zonas de pressão adversária e\ou progredir com a bola pelo meio-campo adversário, de forma a procurar à sua frente a sistematica mobilidade que é oferecida, para os espaços livres entre linhas, pelos dois criativos Emil Forsberg e Marcel Sabitzer, jogadores que na primeira fase de construção tendem a posicionar-se junto às faixas para procurar imiscuir-se constantemente numa segunda fase entre linhas, no interior do bloco adversário, através de movimentações em diagonal para os espaços livres que vão perscrutando (as suas movimentações e o seu carácter combinado têm efectivamente o condão de baralhar quem defende porque ao entrar nos espaços livres, obrigam a defesa adversária a ter literalmente tapar de um lado para acorrer no outro, libertando portanto o anterior espaço ocupado; visso notou-se no jogo ontem; tanto Danilo como Sérgio Oliveira tiveram muitas dificuldades para lidar com as movimentações interiores sem bola dos criativos do Leipzig porque nem sempre apareciam bem posicionados para intervir rapidamente quando estes conseguiam receber entre linhas nos espaços livres; assim que os dois médios caiam em cima para pressionar, veio ao de cima a capacidade técnica, a visão de jogo e a tomada de decisão do sueco e do austríaco). Assim que recebem entre linhas, os dois jogadores tentam imediatamente procurar o ataque à profundidade, profundidade essa que é sempre garantida pelas desmarcações que são realizadas junto aos centrais por Bruma e Kevin Augustin. Tanto Marcano como Felipe tiveram uma noite algo atípica nas divididas (diversos foram os lances nos quais se os centrais portistas foram à queima; há um lance no qual, apertado por Layún, Bruma conseguiu passar pelo meio do mexicano e de Marcano porque a abordagem do espanhol num carrinho foi completamente descabida) e no controlo à profundidade.

Nas acções contra-ataque, Bruma e Sabitzer são jogadores que garantem pragmatismo aos processos de jogo através da condução da bola até à última linha adversária, partindo aí para rápidas rentáveis acções 1×1 contra os defesas adversários, acções nas quais os extremos conseguem quase sempre criar lances de perigo. Frente ao Porto, o internacional português beneficiou da suavidade de Miguel Layún (num flanco onde a ajuda defensiva de Marega foi nula; tão nula quanto a prestação ofensiva do maliano no ataque) na abordagem às suas acções 1×1.

No capítulo defensivo, esta equipa alemã é muito proeficiente no capítulo da pressão (organização defensiva) e da contra-pressão no momento da perda (transição defensiva). Quando a equipa perde a posse, o jogador que a perde, trata de reagir rapidamente através da pressão ao portador enquanto todos os outros tentam posicionar-se de forma a fechar as linhas de passe que este tem disponíveis para dar continuidade ou a cobrir as referências ofensivas da equipa adversária. Em termos de organização defensiva e organização da pressão, no jogo de ontem, notou-se que Husenhuttl tinha a lição muito bem estudada. Pressionando alto a saída de jogo adversária para tentar fechar o canal de comunicação entre a defesa ou entre os médios portistas e Brahimi e Herrera, nos momentos em que estes desciam até ao meio-campo para pegar no jogo, várias foram as situações em que os jogadores da formação alemã advinhavam as intenções dos médios portistas ou simplesmente rodeavam os dois “construtores” do Porto para lhes limitar o tempo e o espaço para criar e para lhes sacar o esférico. Sem capacidade para sair a jogar com qualidade e para implantar o jogo em definitivo no meio-campo adversário (uma das virtudes alcançadas pela formação da Invicta no primeiro tempo da partida de Alvalade), os portistas responderam aos golos através de dois lances de bola parada, aspecto que me parece ser o tendão de aquiles desta formação.

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Condução de Sabitzer no lance do segundo golo. O austríaco transporta a bola em velocidade até ao último terço. Sérgio Oliveira está batido. Danilo não está em posição de intervir rapidamente no lance. Felipe é obrigado a sair na pressão para fechar a linha de passe para Bruma, jogador que já está a comer Layún em velocidade para lhe ganhar a frente. Forsberg a vermelho já está inserido entre linhas para receber no espaço livre.

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O espaço que o sueco tem para receber e criar é gigantesco e beneficia da ausência em terrenos naturais de um dos centrais, situação que lhe abre um furo para entrar

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Ao aperceber-se do furo existente, em vez de receber, girar e enfrentar Marcano no 1×1, o sueco deixa inteligentemente a bola para um colega na combinação (obrigando Marcano a fazer um ligeiro deslocamento para a direita, visível no vídeo suprapostado, para entrar para o espaço que o vai deixar na cara do infeliz (no lance do primeiro golo) José Sá, finalizando a jogada com a frieza característica dos jogadores nórdicos. 

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Alex Telles foi lesto a sair. Se o lateral brasileiro tivesse depreendido mais rapidamente as intenções do sueco, bastaria uma saída rápida para o deixar em fora-de-jogo.

No lance do 3º golo…

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O lance começa a desenhar-se na intensa pressão realizada por Keita sobre Danilo no momento da transição. Apertado, o internacional português procura, creio, lançar, em profundidade, algo desconchabadamente a velocidade de Aboubakar.

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No momento do passe, tanto Aboubakar como Brahimi estão devidamente marcados por jogadores da formação alemã. 

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Note-se como, no momento do alívio, Emil Forsberg é rápido o suficiente a perceber que a bola vai cair numa zona onde terá algum espaço para receber e criar.

O lance termina com uma enorme infelicidade de Danilo, Felipe e Marcano nos sucessivos ressaltos feitos pelo esférico, ressaltos que irão permitir a Augustin usar de todo o seu poder de aceleração para conquistar a bola e finalizar na cara de Sá. 

Da Redbull Arena destaco obviamente duas grandes exibições, a de Naby Sarr e a de Emil Forsberg. O médio guineense, jogador que já se encontra contratado pelo Liverpool (os reds pagaram 60 milhões de euros pelo seu passe) foi, como referi, esclarecido e criterioso na 1ª fase de construção e incansável na pressão nos momentos de transição adversária, facto que lhe valeu muitas recuperações. Já o internacional sueco é um jogador por demais incrível. Prodigioso em tudo. Na sua leitura de jogo, leitura que lhe permite sempre encontrar, a toda a largura do terreno, espaços vazios, em especial entre as linhas adversárias para receber e para criar, quer através de combinações com Sabitzer, quer através de uma escorreita capacidade de (último) passe para as desmarcações que lhe são oferecids pelos homens da frente

 

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