Juventus 2-1 Sporting – A deusa Fortuna voltou a trocar-nos as sortes


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Madrid e Lisboa, 1994. Milão e Lisboa, 1991 e 2001 (AC Milan) e 2002 (naquele empate sensaboroso obtido contra o Inter para a pré-eliminatória da Liga dos Campeões). Lisboa 2001, naquela partida de inglória euforia realizada frente ao Real Madrid. Lisboa, 2005, frente ao CSKA. Lisboa, 2008, frente ao Rangers. Lisboa e Bilbao, 2012. Madrid e Lisboa, 2016. Lisboa e Turim, 2017. O que é que tem faltado ao nosso Sporting para ser feliz nas competições europeias? O que é que devemos começar a trabalhar incansavelmente já a partir de amanhã ou que novenas deveremos todos, sem excepção, começar a rezar ininterruptamente para que o nosso Sporting seja feliz nos minutos finais das partidas que disputa contra os tubarões europeus? Que mal fizemos nós ao mundo para merecer tamanha falta de sorte?

Em Turim, voltámos a não ser fomos felizes e a verdade é que no futebol não existem vitórias morais. Existe sim o contentamento de termos visto o nosso Sporting a ombrear mano-a-mano contra o campeão e contra o vice-campeão europeu, mas esse contentamento per se não chega, não nos vale de nada, não nos traz benefícios. Dá-nos um certo conforto moral e aumenta as nossas expectativas em relação ao nosso principal objectivo doméstico (hoje acredito ainda mais que é possível quebrar em Maio de 2018 a longa travessia do deserto a que temos vindo a ser submetidos nos últimos 15 anos) mas, de facto não marcámos os pontos que deveríamos ter marcado nestas duas jornadas. O esforço e a entrega dos nossos jogadores nestes dois desafios não foram suficientemente recompensados, ficando portanto no ar aquele sentimento de injustiça, sentimento que no seio dos jogadores deverá ser esquecido o mais rapidamente possível porque a exibição compensou o resultado negativo averbado. Este resultado tem que dar ânimo a todo o grupo de trabalho. Com um bocadinho mais de esforço, creio que é possível corrigir este resultado em Alvalade. 

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O que é que nos faltou verdadeiramente em Turim? Da exibição leonina naquela cidade faltou-nos “coisa pouca”, mas essa “coisa pouca” foi o suficiente para nos barrar o acesso aos tão desejados pontos que queríamos levar de Turim.

  • Faltou um maior controlo sobre o meio-campo nos minutos que se sucederam ao nosso golo, quando permitimos que Pjanic se soltasse no jogo.
  • Faltou um maior controlo sobre as investidas de Higuaín, quando, em situações de pressão alta, os centrais permitiram que o argentino se pudesse libertar da marcação para receber e para jogar entre linhas.
  • Faltou alguma sorte nas divididas a meio-campo e nas segundas bolas que os nossos irrepreensíveis centrais iam aliviando para a entrada da área  – o primeiro golo dos bianconeri haveria de nascer precisamente na sequência de uma falta cometida por Battaglia na disputa de uma dividida resultante de uma segunda bola caída à entrada da área após alívio de um dos centrais.
  • Faltou perceber, no primeiro tempo, de onde é que vinha o principal perigo dos bianconeri – Na primeira parte, em função de alguma falta de rigidez na transição defensiva, Gelson ofereceu alguma liberdade no seu flanco a Alex Sandro. O brasileiro aproveitou o espaço concedido e a falta de pressão para colocar mortíferos cruzamentos para a área e para variar sistematicamente o centro de jogo entre flancos de forma a poder encontrar Cuadrado bem aberto na direita.
  • Faltou-nos maior presença na área no 2º tempo, em especial, naquela meia-hora em que estivemos completamente por cima do adversário (atacando calmamente no seu meio-campo; obrigando-o a cometer sucessivos erros na saída de jogo com aquela pressão “altissima” asfixiante; nesse período Jorge Jesus poderia ter arriscado qualquer coisita, fazendo sair Gelson para a entrada de Podence; embora tenha compreendido a entrada de Palhinha para fazer avançar novamente Battaglia no terreno, sem comprometer a presença de uma unidade à frente dos centrais para continuar a fechar com exito o jogo interior, neutralizando Paulo Dybala, numa fase em que os médios da Juve, com Matuidi em campo, voltavam a conquistar o controlo das operações do meio-campo, creio que mesmo a partir da direita, Podence poderia ter dado mais área com a sua criatividade e com o seu constante dinamismo e poderia ter sido um bom apoio para Bas Dost nos lances em que o ponta-de-lança holandês conseguia conquistar a bola junto aos centrais mas optava por tocar para trás à espera do surgimento de alguém na carreira de tiro).
  • Faltou-nos rematar mais à baliza. Falo de remates espontâneos. Este Sporting é uma equipa que consegue chegar com facilidade ao último terço adversário, não sendo todavia capaz de definir as jogadas que constrói para além do clássico processo de cruzamento.

Acabámos por sofrer o 2º golo num lance em que Jesus pagou caro a colocação de Bruno na direita (muito embora me pareça que no decurso da jogada há um jogador da Juve faz um bloqueio completamente ilegal sobre o jogador quando a bola é circulada para o flanco, impedindo-o portanto o jogador de sair na pressão) Jonathan (entretanto entrado para o lugar do extenuado Coentrão) voltou a demonstrar as suas enorme fragilidades na marcação ao adversário, na cobertura ao 2º poste. Jonathan é na minha opinião, o jogador que deve ser forçado a trabalhar mais nos próximos 15 dias para finalmente corrigir esta enorme falha que já nos havia custado 2 golos na Grécia e uma data de momentos de frissom em algumas das partidas já disputadas para a Liga Portuguesa.

De resto só podemos efectivamente dizer coisas boas da performance da formação leonina neste jogo.

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Em primeiro lugar, porque os nossos bravos leões cumpiraram à risca o sui-géneris plano de jogo idealizado por Jorge Jesus para a partida. Nos primeiros minutos, vimos, perante a equipa do advogado Agnelli, formação que no sábado levou um banho de cultura táctica defensiva e de contra-ataque da Lazio em jogo a contar para a Liga Italiana, um Sporting muito mas mesmo muito atrevido, de voltas trocadas (tenho a certeza que Massimiliano Allegri estaria à espera de um Sporting mais confinado ao seu meio-campo, cumprindo decerto um plano de jogo similar ao que foi cumprido pela formação leonina frente ao Barcelona) assente numa estratégia de bloco bem subido, altamente pressionante à entrada da área bianconeri, complicativo q.b, recuperador, sem medo de assumir as despesas do jogo no meio-campo adversário, pausado e muito seguro nos momentos de circulação no meio-campo adversário (em igualdade numérica a meio-campo, tanto William como Battaglia preocuparam-se em retirar a bola da zona de pressão mais intensa dos bianconeri naquele sector do terreno, fazendo-o sempre com muita segurança pela certa; nos primeiros minutos, o argentino chegou inclusivamente a compreender que à falta de linhas de passe seguras para circular ou para gerar progressão, a melhor opção que poderia tomar seria a opção de ele própria conduzir o esférico pelo meio-campo adversário para suplantar a pressão exercida pelos seus oponentes directos, procurando progredir, criar desequilíbrios e incentivar os seus companheiros a desmarcar-se para vir buscar o jogo) com os seus laterais comprometidos no processo ofensivo (os primeiros minutos foram de autêntica batalha para os homens do corredor esquerdo), movimentado (com os extremos a procurar entrar em zonas interiores para oferecer linha de passe aos médios na 1ª fase de construção, obrigando a defensiva italiana a colocar mais unidades no corredor central para libertar espaço nos corredores e, com Bruno Fernandes a cair de vez em quando nas faixas para oferecer uma linha de passe passível de estender o jogo ou para apoiar as investidas de Piccini, Coentrão e Acuña) 

O primeiro golo surgiu num lance no qual, aproveitando numa acção de contra-ataque o espaço existente entre a linha média e a linha defensiva da Juve, Bruno Fernandes procurou a sua principal referência para as saídas rápidas para o contra-ataque: Gelson Martins. Apesar do extremo ter “vacilado” na cara de Buffon, o Sporting acabaria por ser muito feliz.

Algo inerte, quer ofensivamente, quer defensivamente, a equipa italiana foi obrigada a endurecer a coisa na resposta ao golo sofrido. Subindo as suas linhas pressão até ao meio-campo leonino, a formação transalpina começou logo por impedir que o Sporting chegasse tão confortavelmente, em posse, até ao seu meio-campo. Até ao final do primeiro tempo seriam várias as ocasiões nas quais, face ao adiantamento dos transalpinos no terreno, Rui Patrício foi obrigado a cobrar os pontapés de baliza com longos pontapés à procura do jogo aéreo de Bas Dost frente aos centrais bianconeri. A cada dividida conquistada por Dost, o Sporting conseguia aliviar alguma pressão exercida sobre a sua área mas a verdade é que neste período, a Juventus já tinha conquistado o comando das operações a meio-campo e o recuo de linhas por parte dos leões era quase inevitável.

A organização defensiva do Sporting não permitia porém à Juventus explorar o jogo interior, ou seja, procurar directamente Paulo Dybala. Durante o primeiro tempo, os bianconeri optaram portanto por realizar um misto de processos ofensivos que incluiam a rotação do centro de jogo na primeira fase de construção para a esquerda, ala onde Alex Sandro, apoiando por dentro por Pjanic e por Mandzukic, homem que foi autenticamente perseguido por Piccini no primeiro tempo, conseguiam colocar alguns cruzamentos para a área à procura de Higuaín e de Sami Khedira (marcado à risca por William), a rotação de jogo para a esquerda numa primeira fase, seguinda de longas variações de flanco promovidas por Alex Sandro e Pjanic para a largura e profundidade que era oferecida por Cuadrado, e a exploração de um futebol mais vertical na saída de jogo na qual os centrais procuravam as saídas esporádicas da marcação de Gonzalo Higuaín para que o argentino pudesse ensaiar um jogo mais combinativo com Dybala ou até as desmarcações em profundidade realizadas pelo argentino.

Aos 27″, Pjanic castigava de forma sublime (arco perfeito) o excesso de vontade revelado por Battaglia na disputa daquela segunda bola aliviada pelos centrais leoninos. Tanto Coátes como Mathieu não cometeram erros de maior no “trabalho de área” – com maior ou menor dificuldade, os centrais leoninos ganhavam alguns dos lances aéreos, pecando apenas no alívio porque, numa ou noutra situação, a bola era colocada à entrada da área nos mortíferos pés de Dybala. Por outro lado, sempre que Dybala ou Cuadrado procuravam servir as entradas ao 2º poste de Mandzukic, Piccini foi efectivamente decisivo para assegurar o empate. O lateral italiano viria a tirar o “pão da boca” do croata em 3 ocasiões. Higuaín também teria a sua oportunidade para molhar a sopa frente a Rui Patrício. Aproveitando uma falha de Coentrão na abordagem a um canto, Chiellini amortecer a bola para o remate de Higuaín. Patrício correspondeu com uma excelente estirada junto ao poste.

O Sporting respondia através de uma bola parada muito bem trabalhada:

Bruno falhou o cálculo da força que deveria ter empregue naquele passe para Marcos Acuña mas o argentino ainda chegou a tempo de salvar a jogada com um cruzamento que pecou por ter saído um nadinha alto.

Na 2ª parte, o Sporting voltou a entrar bem, Voltando a subir as linhas para pressionar bem o adversário na sua saída, várias foram as vezes em que os leões obrigaram Chiellini a bater longo para a frente e Stefano Sturaro, centrocampista de raiz que tem vindo a ser utilizado por Allegri a lateral direito por manifesta falta de opções para a posição (Stephan Lichsteiner foi a principal ausência do lado da Juve) juntava ao calculismo que tinha até então sido a sua postura no terreno (o italiano raramente não só subiu para apoiar as investidas de Cuadrado como necessitou do excessivo recuo do colombiano no terreno em diversas situações para anular o batalhador duo Coentrão\Acuña) muito nervosismo no capítulo da saída de jogo. O Sporting voltava portanto a assenhoriar-se do controlo a meio-campo (William alternava entre a marcação a Khedira e um posicionamento muito próximo da área nos momentos de pressão alta; Battaglia mais recuado alternava entre a marcação a Pjanic e o fecho da linha de passe para Dybala) No entanto, o Sporting não conseguia traduzir em lances de perigo. as várias recuperações de bola resultado dos erros cometidos pelos italianos na saída de jogo. Faltou, no meio de todo aquele jogo combinativo, rematar mais à baliza defendida por Gigi Buffon. Faltou também, em certa medida, um treinador menos conservador que Jorge Jesus.

Enquanto Jorge Jesus se retraía nas substituições Allegri decidiu apostar na colocação de Matuidi e Douglas Costa. O primeiro acrescentou músculo ao meio-campo, músculo bastante precioso se atendermos à quebra física sofrida pela formação leonina nos últimos 10 minutos O segundo acrescentou qualidade no cruzamento. Aos 84″, foi o antigo jogador do Bayern quem foi à esquerda cruzar com conta peso e medida para a entrada (a todo o vapor) de Mandzukic ao 2º poste, num lance em que Jonathan voltou a sair muito mal na fotografia instantânea.

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Mesmo apesar dos 2 bloqueios que existiram (um que me pareceu ilegal e outro, na imagem, completamente legal), a jogada é bem defendida por todos excepto por Jonathan.

Dois jogadores (a vermelho) fazem a contenção e a cobertura (à diagonal ou ao movimento para a linha de fundo que poderia ser feito pelo jogador que está ali a tentar executar um pequeno bloqueio.

A preto: Se o cruzamento saísse para o raio de acção de Higuaín, Cóates muito dificilmente deixaria passar a bola porque estava bem posicionado. Mathieu defende a sua zona. William fecha a linha de passe interior para Matuidi e mesmo que pudesse eventualmente haver um cabeceamento de Coátes para a entrada da área, João Palhinha está suficientemente perto para proteger o espaço à frente dos centrais ou atacar a segunda bola.

A azul: Jonathan, de costas para a baliza e até para o local onde está a bola, está tão obcecado com a marcação a Mandzukic, que se esquece que a bola (a referência pela qual se devem guiar todas as movimentações) não vai ser cruzada para aquele ponto espefícico mas sim para um ponto em que é possível ao croata ganhar-lhe a frente do lance porque efectivamente este está de frente para a baliza. Se estivesse de perfil (atento ao que se estava a passar na esquerda e ao seu jogador), o argentino jamais teria perdido a frente do lance. Com um movimento de antecipação ao adversário no ataque ao cruzamento, Mandzukic nem sequer teria cheirado o esférico. 

O Sporting ainda respondeu. Na direita, Bruno tirou um excelente cruzamento para a pequena área à procura de Doumbia. O marfinense chegou porém um nadinha atrasado.

Daqui a 15 dias em Alvalade, veremos se ainda podemos sonhar. Eu creio que esta Juve está ao nosso alcance. Vamos acreditar que podemos, com um esforço adicional, puxar a Deusa Romana da Sorte (Fortuna) para o nosso lado.

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