O futebol de altíssimo quilate praticado pelo Manchester City frente ao Burnley


Para preencher as horas mortas dos aficionados que visitam diariamente este blog, (o meu obrigado!) deixo-vos aqui alguns momentos do meu “atípico” sábado (confesso que neste sábado só vi “partida e meia”; felizmente, pude ver, na íntegra, os 90 minutos da partida disputada entre o Manchester City e o Burnley e a primeira parte do FC Porto frente ao Paços de Ferreira) pouco desportivo:

Jogada 1

No meu humilde entendimento esta foi a jogada que melhor resume a filosofia de jogo  operacionalizada por Pep Guardiola nos Citizens. Em 22 segundos, 4 passes e 16 toques na bola (contando com os 9 toques dados por Bernardo Silva naquela admirável arrancada na qual o internacional português meteu a linha média do Burnley no bolso) os citizens fizeram chegar a bola da entrada da sua área à área adversária? Futebol minimalista? Não. Este futebol muito que se lhe diga ao nível de dinâmicas: 

yaya

A saída de Jogo a partir do sector mais recuado. 

A descida\presença de Yayá Touré (assinalado a vermelho) junto aos centrais (bem abertos) no início da construção. Yayá e os dois centrais trocam a bola entre si, chamando a equipa adversária à pressão. O lateral esquerdo (adaptado) Fabian Delph entra ao centro (a teoria dos laterais invertidos) para auxiliar o processo de transição para o meio-campo adversário, funcionando como um verdadeiro médio. Frente a equipas capazes de executar um bom sistema de pressão alta à saída de jogo, Pep contraria este sistema com a entrada dos dois laterais ou somente de um dos laterais ao meio, no corredor central, descendo até aos centrais o médio (Yayá) que joga à frente da defesa. Assim sendo, o City pode passar a assumir esta disposição no seu eixo recuado, solução que lhe permite ter sempre mais uma unidade livre relativamente ao número de jogadores colocados pelo adversário nas zonas onde estes tencionam pressionar com maior intensidade e agressividade.

de bruyne.PNG

Com uma movimentação sem bola para o flanco direito, Kevin De Bruyne arrasta o homem que o está a perseguir para impedir que este receba a bola ou para intervir rapidamente logo que o médio ofensivo belga receba a bola.

interior

Com a sua movimentação, o belga abre espaço para Stones circular para o corredor central, espaço que vai ser aproveitado por Bernardo Silva para entrar de forma a vir atrás pegar no jogo.

bernardo silva 3

Acossado por um jogador nas suas costas e por um jogador ainda mais atrás que sai na contenção, Bernardo é obrigado a ter que pensar e executar rapidamente, numa “curtíssima” fracção de segundo, sob o risco de perder a bola. Se perdesse a bola, o português daria azo a uma situação algo comprometedora para a equipa porque, como podemos ver na imagem, existia a franca possibilidade do “recuperador” poder vir a isolar o colega que se encontrava adiantado no terreno. Os dois centrais do City não estariam em condições de fechar rapidamente o espaço para intervir em caso de perda do português

O português livra-se do primeiro adversário com alguma sorte (ganhando a dividida) e tira o segundo com uma enorme pinta. Com um corte pelas costas do jogador que sai para fazer contenção, Yayá vai dar linha de passe à frente ao português.

A linha média do Burnley está (sublinhado a azul) como se pode ver totalmente adiantada. Há portanto muito espaço para explorar nas suas costas porque a linha defensiva está a sensivelmente 30 metros.

bernardo silva 4

Quando o português sai do drible, tem em Yayá uma linha de passe que lhe permitirá tirar a bola da zona de maior pressão adversária e acelerar a transição, capitalizando o espaço que é concedido pelo adiantamento da linha média adversária. O português quer mais… Eu adoro os jogadores que almejam sempre mais e melhor…

Bernardo usa toda a sua velocidade e toda a sua técnica de drible para passar por um terceiro, entrando pelo meio-campo adversário, antes de libertar a bola para Leroy Sane na esquerda.

Jogada 2: 

bernardo silva 5

Bernardo avança lentamente pela direita. O inteligente jogador português apercebe-se que o posicionamento da defesa adversária e que a “acção de bloqueio” que está a ser realizada pelo lateral direito Kyle Walker junto de um dos adversários que se apresenta no flanco, lhe conferem uma oportunidade muito vantajosa (dada a qualidade de remate de meia distância de DeBruyne e\ou a forma eficaz com que este, devidamente embalado em velocidade penetra em drible) para dar continuidade ao lance, se De Bruyne realizar a aproximação ao espaço através de um corte pelas costas do jogador adversário que corre a par. O belga foi rápido a reconhecer as intenções do companheiro, entrando no dito espaço, assinalado a preto.

Jogada 3

Estão 3 jogadores a povoar a quina da área? Não há qualquer problema para David Silva e Leroy Sané. Nada que um clássico 1×2 não resolva para o espanhol colocar o colega em posição privilegiada para assistir. Sane brinda-nos com um fantástico pormenor técnico. Num espaço ultra reduzido para dominar e contornar o adversário que se apresenta, um curtinho toque é o suficiente para não deixar a bola sair pela linha de fundo e servir a entrada de Bernardo Silva na zona de penalty. O guardião do Burnley Nick Pope impede o business, atacando aquela “bola rápida” com o mais tradicional dos métodos: a punhos.

Jogada 4: David Silva o arquitecto do jogo moderno

silva 3

Está um jogador à frente a tentar fechar a linha de passe? Um dos centrais está a correr rapidamente para interceptar? Paciência! Nada que o Doutor Silva, o verdadeiro arquitecto do futebol, não resolva com distinção e louvor, colocando um passe tenso para a desmarcação de De Bruyne. A bola, como sempre, sorri nos pés de Silva, chegando redondinha e jogável aos pés do belga, não obstante a força imprimida pelo espanhol no esférico e a subita presença (má abordagem; totalmente à queima) de um jogador do Burnley no momento em que o belga o recebe.

O lance termina com aquela grande penalidade bem cavada por Bernardo, num gesto que habitualmente não passa despercebido aos árbitros britânicos. Tanto eu como o nosso amigo e autor regular deste blog, Miguel Condessa, acreditamos que o português deverá ser punido pela FA nos próximos dias. 

Jogada 5: Frente a uma equipa com uma taxa de sucesso interessante no capítulo das bolas paradas, Pep…

(…) mandou subir a linha defensiva. No preciso momento em que sai o cruzamento, apercebendo-se das falhas de marcação, atento, Ederson é rápido a sair dos postes para socar a bola.

Jogada 6 – Aproveitar a compressão do adversário no corredor central para procurar a largura e profundidade oferecida pela subida do lateral até ao último terço.

Jogada 7: 

David Silva avança no terreno até às proximidade dos centrais para ali se atarrachar. A situação não é de todo desconhecia do arquitecto porque na selecção espanhola Silva tem sido colocado várias vezes por Lopetegui a falso 9. Fernandinho procura o seu “apoio frontal”, ficando Aguero próximo para o receber. A acção de Silva não se esgota no apoio cedido. Logo que faz sair o apoio movimenta-se para receber o passe de Aguero e, no término do lance, ainda vai ombrear pela disputa do ressalto com um dos centrais, ganhando-lhe em velocidade. O argentino tem outra solução na manga. Deixando sair a pressão até à proximidade desejável, coloca a bola por debaixo das pernas do adversário para a desmarcação de Sané.

Nick Pope volta a fazer uma inacreditável defesa, de puros reflexos instintivos. O lance resulta na conquista do pontapé de canto no qual Otamendi no coração da área, cabeceia para o 2º golo dos citizens no jogo.

Jogada  8 – De Bruyne oferece uma cremosa e açucarada bola de berlim a Sane.

 

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