Um mero e modesto apontamento sobre o invencível Inter de Spalletti


Entre o “Michaelangelismo” de Maurizio Sarri, pintura criativa da maior fineza estética que se pode ver por esses relvados mundo fora, estilo de jogo nada transalpino, e o pensamento clássico da história do futebol italiano (de Helenio Herrera, de Enzo Bearzot,  de old Trap, de Marcelo Lippi, entre outros que ajudaram a sedimentar a clássica forma de jogar italiana ao longo da história) Luciano Spalletti vai conseguindo levar a água ao seu moínho, ressuscitando o Inter de um percurso errático marcado por “anos de más escolhas directivas “- quer ao nível dos pseudo-treinadores passaram nos últimos anos pelo clube, quer ao nível das apostas realizadas no preenchimento de planteis, desde as apostas totalmente erradas que foram realizadas na contratação de veteranos que nada acrescentaram (foram dezenas os que lá passaram nas últimas 5 temporadas), apostas que revelaram algum desnorte e pura falta de estratégia de futuro, às apostas precoces (jogadores que se vieram a despontar noutros clubes como foram os casos Phillippe Coutinho, Diego Laxalt, Yann M´Vila, Alex Telles, Alfred Duncan) em jogadores que só explodiram após sua passagem pelo clube – e lançando novamente os nerazzurri na luta por qualquer coisa cuja forma ainda não é totalmente conhecida por ora, porque Spalletti continua a considerar que a equipa “ainda não está em condições de lutar pelo título” (o discurso interno do treinador poderá ser outro , conforme, claro está, o andar da carruagem) pese embora o facto de ter declarado, no dia da sua apresentação, que o seu “Inter” irá fazer bater muitos corações. 

Luciano Spalletti é hoje, mais do que nunca, um treinador capaz de modificar algumas das suas ideias de desafio em desafio, ou seja,um treinador moldável em relação à qualidade, nas diferentes dimensões do jogo, dos artistas que vai encontrando pelos planteis que orienta. Está claro que o treinador italiano não vive nem trabalha exclusivamente com o que vai encontrando no momento da sua chegada. Quando lhe aparece aquela janela de oportunidade para trazer para o seu plantel um ou outro jogador cuja qualidade que lhe permite acreditar com assertividade que esse jogador irá constituir-se como uma mais valia para o modelo que este visa operacionalizar, porque dominará facilmente as suas ideias, Spalletti não hesita em pedi-lo. Na presente temporada, o toscano aproveitou por exemplo a confusão reinante na pré-temporada do maior clube da região da qual é natural, a Fiorentina, para trazer dois jogadores que tem encaixado que nem luvas nas suas ideias: Matias Vecino e o sensacional veterano Borja Valero, jogador que na minha opinião, é só e somente, o melhor centrocampista da Serie A e já não é de hoje, pela excelência do seu conhecimento táctico, pela sua leitura de jogo, pelo aveludado toque de bola, pelo quadrante ofensivo que é para qualquer equipa (entrando e colocando a bola nos espaços vazios deixados pelo adversário; tomando sempre as melhores decisões), pela sua qualidade de passe, pela sua capacidade de remate de meia-distância e pelas bolas que recupera a meio-campo.

Ideia que tem acompanhado Spalletti desde os primórdios da sua carreira como treinador é a ideia de verticalidade e vertigem dos processos ofensivos. Spalletti é um treinador que gosta de incutir processos pragmáticos de jogo nas fases ofensivas deste. Quero dizer com isto especificamente o quê: para Spalletti, a equipa corresponderá parcialmente às suas se conseguir fazer chegar a bola de uma extremidade à outra do campo (com sentido; não o feio chutão para a frente ao calhas) em poucas acções, procurando explorar algum jogo directo, a profundidade e por conseguinte a velocidade de alguns dos seus jogadores.

https://dailymotion.com/video/x661nxv – mais directo, em profundidade.

Poucas acções: verticalidade. Usando os corredores para fazer chegar a bola em poucas acções ao último terço adversário.

No entanto, o próprio treinador tem vindo a alterar essa ideia chave do seu jogo, alternando os processos em que a equipa procura jogar em profundidade (para a velocidade de um Salah, para a velocidade de um Candreva, para a velocidade de um Perisic) com fases de maior domínio sobre a posse, como a forma mais correcta de minimizar as acções adversárias, em especial, a criação de lances de perigo no seu último terço.

A contratação da dupla Vecino\Borja para o seu sistema 4x2x3x1 permitiu ao treinador ter, no meio-campo, na 1ª fase de construção, em ataque posicional, dois grandes construtores capazes de jogar à frente da defesa (trancando os espaços centrais quando a equipa recua o seu bloco). A combinação de um futebol que procura a profundidade nas acções de contra-ataque (a velocidade dos extremos, que se projectam sempre bem abertos juntos às linhas no momento da transição) e um futebol mais de posse, paciente, no meio-campo adversário (para o qual não sobem apenas os centrais) no qual os construtores procuram em primeiro lugar procurar a superioridade que é criada pelo jogador que joga nas costas do ponta-de-lança e por um dos extremos (mais Candreva do que Perisic) entre linhas. O extremo insere-se em zona interior.

inter 6

Exemplo prático já aqui retratado noutra ocasião – Ei-los, João Mário e Perisic no corredor central, entre linhas, à frente da defesa adversária. Valero procura-os com o passe vertical.

Outro processo de criação, se assim posso dizer muito utilizado pelo italiano é o processo no qual, um dos extremos procura cair na outra ala…

para tentar dar superioridade ou igualdade na zona, de forma a permitir através de um conjunto de acções de drible, de passe e de movimentações, criar o cenário perfeito para atacar a área.

fiorentina 1

A Fiorentina tem como se pode ver, o flanco bem preenchido, numa tentativa clara de encurtar os espaços para o Inter jogar naquele flanco. Perisic entra no flanco para receber o lançamento.

fiorentina 2

O croata recebe e segura o esférico, fixando 2 defesas. Ao fixar estes dois defesas, como podemos ver, desbloqueia o cerco feito pelos viola, observável no primeiro frame, e dá espaço aos colegas para manobrar um cruzamento p.e. Com espaço para cruzar, o seu compatriota Brozovic decide não o fazer porque efectivamente não é forte nesse capítulo. O croata é obrigado a procurar o especialista deste gesto técnico: Candreva. Perde-se portanto o espaço que foi conquistado por Perisic. A iniciativa volta praticamente à estaca zero (a Fiorentina continua a concentrar ali 3 unidades) mas o extremo croata continua por ali.

candreva 3

O mago da actualidade do futebol italiano é obrigado a ter que driblar para escapar à pressão adversária e para fixar novamente os jogadores viola na sua acção, libertando espaço para Perisic cruzar para Icardi.

candreva 4

 

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