Giannis, o “grego anormal”


“Greak Freak” é a sua alcunha, cognome adquirido nos primeiros da sua temporada de estreia na Liga à conta de umas acrobacias um tanto ou quanto estranhas que levaram o mítico e exigente Greg Popovich, o mais consagrado dos treinadores em actividade, uma verdadeira Instituição viva de acolhimento e desenvolvimento de jogadores não-americanos nos San Antonio Spurs (responsável pela prospecção e pelo desenvolvimento de tantos atletas não-americanos que jogaram vários anos ou jogam há vários anos na principal Liga Norte-Americana como Tony Parker, Manu Ginobili, Hedo Turkoglu, Beno Udrih, Rasho Nesterovic, Fabricio Oberto, Boris Diaw, Pat Mills, Aron Baynes) agente que não é de elogios fáceis ou até de falas politicamente correctas a declarar-se rendido quando afirmou: “Giannis já não é só um mero atleta, é um fenómeno físico anormal. Ele aprendeu a jogar este jogo.” Antetokounmpo é o seu quase impronunciável (impronunciável para muitos) apelido grego. À primeira vista, sem ter visto uma única imagem do jogador, qualquer pessoa é induzida a crer que estamos perante um clássico jogador de basquetebol helénico: alto, de tez morena, queimada do intenso sol de Atenas. Desenganem-se. Da Grécia, o exuberante negro de 2,11m só guarda as recordações de adolescência dura, passada no Pireu, de tapetes ao ombro e relógios e carteiras encinturadas na bacia à procura de fregueses para conseguir prover ao sustento da sua numerosa família. De uma família que passou mais de duas décadas na mais pura das clandestinidades em território grego, acabando efectivamente apenas por se legalizar quando o jovem foi incentivado a rumar aos Estados Unidos da América para participar na anual reunião de draft, o acontecimento onde as 30 franquias da NBA elegem 60 jogadores vindos das mais diversas proveniências do território americano e dos seus protectorados e dos mais variados pontos do planeta. A dureza dos seus primeiros 17 anos de vida moldaram-lhe irremediavelmente o carácter: Giannis é um tipo que leva o seu trabalho muito a sério. Essa é individualmente a sua maior força.

giannis

Nascido em 1994 em solo grego, este filho de imigrantes ilegais de nacionalidade nigeriana, residentes na Grécia desde o ano de 1991, ano em que abandonaram a capital Lagos (deixando por lá o seu filho primogénito) para fugir da miséria e ambicionar uma qualidade de vida melhor, Giannis tem uma daquelas histórias apaixonantes que só o desporto consegue proporcionar. Da sua adolescência pouco ou nada se sabe a não ser o facto, de a ter passado nas artérias históricas do Pireu e da Acrópole a vender aos turistas estrangeiros as bugigangas (tapetes, óculos de sol, carteiras, cintos, relógios, perfumes) que os seus pais adquiriam no mercado negro da contrafacção para prover ao sustento familiar. O próprio Giannis confesso que muitos eram os negros dias em que a frigideira lá de casa não funcionava por falta de alimentos. A vida não sorria aos emigrantes, mas entre “as poucas vendas que fazia nas ruas” ainda ia sobrando algum tempo e alguma energia para dar um toques nos ringues do bairro onde morava e para ir treinar ao clube local do seu bairro: o Filathilikos, clube milita desde há várias décadas no segundo escalão do basquetebol grego.

A história, bem, a história não, o verdadeiro destino cósmico do jovem acabou graciosa e ironicamente por mudar quando em 2013, John Hammond, o actual General Manager dos Orlando Magic, à era, General Manager (uma espécie de director desportivo) da formação dos Milwaukee Bucks, acossado pelos resultados da equipa nessa temporada e pelas probabilidades (tiradas à sorte na draft lottery) que atribuíam à formação do estado homónimo 1,8% de probabilidades de ir buscar o número 1 do draft desse ano, foi obrigado a procurar um bom jogador (leia-se um jogador capaz de se constituir como o centro de uma acção de reconstrução da formação; em linguagem basquetebolística esta acção é denominada de rebuild the team) fora do território americano. Aconselhado por um agente que tinha ficado maravilhado com o porte atlético, com a agilidade e com a técnica individual (passe, drible, lançamento) e com a eficácia dos seus lançamentos quer no tiro exterior quer no tiro interior, quer ao nível de penetrações até ao seu cesto, Hammond foi a Grécia encontrar “literalmente ouro” – sim, verdadeiro e puro ouro! Hammond viria a satisfazer na altura a curiosidade local quando referiu que “Havia escolhas mais seguras neste draft, sim, bem talvez, mas nenhuma outra com tanto potencial quanto o deste miúdo”,

O ano de estreia na Liga não foi o melhor mas também não foi o pior imaginável. Ao longo destes 71 anos de existência da NBA, vários foram os jogadores europeus que chegaram aos EUA rotulados de craques que sairam pela porta mais pequena do pavilhão. Um deles foi precisa e curiosamente o grande ídolo do basquetebol grego: o mágico Theodoros Papaloukas. Em 1999, no fatídico draft (para a equipa que apoio, os Chicago Bulls; com duas picks na primeira ronda de 30, a primeira e a décima sexta, os Bulls não pescaram nenhum jogador capaz de os conduzir ao título nas épocas seguintes) que viria a eleger para a liga um verdadeiro conjunto de estrelas como Elton Brand (#1-Chicago; viria a destacar-se ao serviço de outras formações), Steve Francis, Lamar Odom (campeão pelos Lakers), Baron Davis, Richard Hamilton (campeão pelos Pistons) Andre Miller, Shawn Marion e Jason Terry (campeões ao serviço dos Dallas Mavericks), Ron Artest (entretanto autonomeado Metta World Peace, campeão pelos Lakers), James Posey (campeão ao serviço dos Miami Heat e dos Boston Celtics), Andrei Kirilenko (um dos melhores defensores da história da Liga) e Manu Ginobili, numa inacreditável 58ª posição, na segunda ronda, Papaloukas, jogador que viria a conquistar à posteriori 2 Euroligas europeias, 3 taças da Grécia, 7 campeonatos russos, 3 taças da Rússia, um campeonato israelita, uma Taça de Israel, uma Liga Adriática, 1 Eurobasket, 1 medalha de prata no Mundial nem sequer foi escolhido. A verdade é que os tempos eram outros. Pese embora o facto de terem brilhado na Liga estrangeiros como Vladi Divac, Luc Longley, ou Hakeem Olajuwon, os americanos ainda olhavam com alguma desconfiança para os jogadores provenientes de outras paragens e a verdade é que à semelhança de Giannis, Papaloukas também tinha sido observado quando jogava numa equipa da 2ª divisão grega. O 2º melhor jogador da história do basquetebol grego, Vassilis Spanoulis, apenas passou 1 temporada na NBA ao serviço dos rockets. Na América, Spanoulis, atleta que ainda representa, aos 35 anos, o Olympiacos, vencedor de 3 Euroligas, de 7 Ligas Gregas, de 4 Taças da Grécia, de um título intercontinental da FIBA e de um Eurobasket ao serviço da Selecção Grega, nunca se conseguiu verdadeiramente adaptar à rapidez do basquetebol norte-americano.

Apanhado no meio de uma temporada muito difícil (os Bucks terminaram no penúltimo lugar da conferência este com apenas 15 vitórias em 82 partidas) na qual Jason Kidd entrou a meio da temporada para substituir Larry Drew, nem tudo foi prejuízo para o jovem atleta. Depois de um início algo marcante no qual o jogador foi ganhando o seu espaço através de espantosos flashes…

… que indiciavam uma alta propensão (muito exuberante por vezes; que revelava enormes falhas na tomada de decisão) quer para o jogo interior, quer para o jogo exterior, Kidd decidiu encostá-lo no banco em alguns jogos (dando-lhe uns minutos no final dessas partidas) para o obrigar a reflectir de forma a tornar-se um jogador mais objectivo. Do banco Giannis, pensava, como veio a admitir mais tarde: “eu olhava para aquele gajo e só me apetecia… bem! Mas quem é o que gajo pensa que é? O tipo foi um dos melhores da história, segundo em assistências e roubos de bola quando se retirou, o terceiro com mais triplos-duplos (107) realizados… Quem sou eu para desconfiar das intenções deste gajo?”

Um grande base reconhece porém um base à distância, até mesmo nas situações em que a ficha do jogador diz que este é um extremo (small forward) ou poste-baixo (power forward). Com 2,11m de altura, terão certamente passado, nestes 71 anos de vida, poucos bases pela NBA pela destreza física (agilidade, flexibilidade, rapidez de movimentos) e pela qualidade técnica a que a posição obriga. Jason Kidd por exemplo mede 1,93m. Oscar Robertson, Doc Rivers e John Wall, 1,96m. Penny Hardaway e Ron Harper 2,01m. Magic, um base adaptado pela grandeza da sua qualidade técnica, mede 2,06m. O pequenino furão Steve Nash mede 1,91m. Kidd viu em Giannis um jogador capaz de se constituir como alternativa a todas as posições em função do seu potencial atlético e um jogador capaz de organizar as fases ofensivas da equipa em função da sua capacidade de drible, da sua rapidez de movimentos, da sua imprevisibilidade, da sua qualidade de passe e da forma em como começou a ler o jogo a partir do momento em que começou a trabalhar (a partir da pré-temporada de 2016\2017) as rotinas da posição com o treinador. No entanto, Kidd foi obrigado a cortar-lhe a iniciativa no lançamento de 3 pontos para o poder moldar ao sabor da sua vontade.

O que é que o futuro lhe reserva, não sei. Neste momento, os números apontados nos primeiros jogos da temporada (36,8 pontos por jogo\média; 65% de eficácia de lançamento, 10,8 ressaltos por jogo; 5,3 assistências e 1,8 roubos de bola) garantirão-lhe certamente um lugar no All-Star Game, uma candidatura mais ou menos séria, se entretanto não existirem lesões pelo meio, ao prémio de MVP da fase regular, e um lugar para a equipa nos playoffs que se irão disputar na primavera. Os Bucks construiram em seu redor uma equipa interessante, na qual sobressaem outros jogadores como o base (lançador) Khris Middleton ou o base (lançador)\extremo Tony Snell. Pode-se dizer que Milwaukee ainda estão a construir uma equipa que lhes permita dentro de um ou dois anos lutar por qualquer coisa. Apesarem de ter no seu rooster um center que já se destacou no passado (Greg Munroe), o seu jogo interior ainda está a milhas do jogo interior de outras equipas na conferência este como é o caso dos Washington Wizards (Marcin Gortat e Markieff Morris) ou dos Detroit Pistons, com a dupla maravilha Andre Drummond e Tobias Harris. Por outro lado, esta liga parece-me mais inquinada que nunca para o lado de três ou quatro formaçõe, mas só o tempo me desmentirá ou me dá razão. Se tudo correr dentro dos carris, Cleveland e Golden State Warriors disputarão novamente a final da competição em Junho do próximo ano. Boston ou Washington, San Antonio (do enorme Kawhi Leonard), Houston (do barbas James Harden) e Oklahoma tentarão dificultar a vida às duas formações. Os meus Bulls certamente ficarão em último da sua conferência. Ainda bem. Para andar a atirar dinheiro à rua, mais vale não aspirar a nada.

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