Os golos do dia (1ª parte)


Começo pela sensacional reviravolta operada pelos Hammers de Slaven Bilic (a imprensa britânica decidiu qualificar esta vitória como um glorioso momento no qual os jogadores londrinos foram buscar engenho e forças ao fundo do poço para resgatar o seu treinador; técnico que estaria certamente por horas em caso de derrota, em virtude dos maus resultados que a equipa tem averbado para a Premier; Bilic rejeitou no entanto a crítica que lhe foi feita pela imprensa em relação ao estado de forma física da equipa) no derby londrino realizado na quarta-feira à noite frente ao Tottenham de Pocchettino em jogo a contar para os oitavos-de-final da Taça da Liga Inglesa.

A coisa não começou manifestamente bem para os Hammers no capítulo da organização da pressão, e da organização defensiva. Nos primeiros minutos da partida Bilic mandou subiu o bloco, colocando a sua defesa apontada na linha divisória do meio-campo, de forma a fazer subir as duas linhas que jogam à sua frente no terreno para pressionar em terrenos adiantados a saída para o jogo do adversário, estratégia que visou sobretudo a prossecução de 3 objectivos muito básicos: em primeiro lugar, impedir impedir que a formação de Maurício Pocchetino pudesse dominar a partida através da posse no seu meio-campo. Em segundo lugar, a estratégia inicial traçada pelo croata visou impedir que a formação de Pocchettino pudesse sair no contra-ataque, transição na qual os Spurs se tem revelado muito eficazes nos últimos jogos. Em terceiro lugar, a pressão alta poderia permitir à sua formação recuperar bolas para manter viva a sua iniciativa no meio-campo adversário, obrigando o adversário a encolher-se nos seu último reduto.

O primeiro golo do Tottenham nasce de um conjunto de erros cometidos pelos jogadores de West Ham na pressão e no capítulo da transição e organização defensiva.

edmilson fernandes

No momento em que a bola chega aos pés a Danny Rose (forçado a ter que vir para uma zona interior para dar seguimento à saída de jogo) Edmilson Fernandes sai muito bem na pressão ao portador, mas a sua acção não é acompanhada (concertadamente) pelas movimentações dos seus colegas num esforço que visasse fechar as linhas de passe ao portador, comportamento obrigatório para obrigar o adversário a cometer um erro. Como podemos ver nas imagens (a vermelho) três jogadores preocupam-se em primeiro lugar, em recuperar posição no terreno descansadamente ao invés de procurar organizar-se rapidamente em torno do portador e das linhas de apoio que este tinha disponíveis para as fechar, montando portanto um cerco a Rose que o conduziria certamente ao erro e à recuperação.

west ham

Só no preciso momento em que Rose leu o posicionamento de Ben Davies é que Andy Carroll manifestou interesse em correr para Davies para ainda conseguir “cair-lhe em cima atempadamente” para evitar que este pudesse armar a investida para o contra-ataque. 

davies 2

Davies vislumbra um espaço na “muito mal amanhada” organização defensiva defensiva dos Hammers para progredir, colocando um passe para a antecipação que é realizada por Fernando Llorente para ligar o jogo com o coreano Heung-Min Son, jogador que cai para a ala esquerda aproveitando com inteligência o adiantamento do ala direito Sam Byram (assinalado a vermelho)

tottenham 2

Um dos centrais, Declan Rice é batido pelo movimento de antecipação de Llorente. O outro (Cheikou Kouyaté; uma adaptação promovida por Bilic) está demasiado recuado. O que é que poderia ter feito Kouyaté no momento do toque de Llorente?

llorente

O cenário oferecia duas opções de decisão ao avançado: 

  1. O espanhol poderia segurar o esférico para permitir a subida da equipa no terreno, tocando o esférico para um jogador que lhe oferecesse apoio nas imediações. Como podemos ver grande parte da equipa do West Ham ainda se encontra em recuperação defensiva. A escolha desta opção acarretaria um evidente senão: a recuperação defensiva dos Hammers seria passível de anular a investida em contra-ataque, facto que obrigaria os Spurs a reformular a sua acção.
  2.  O espanhol poderia soltar de imediato o esférico para Min. Esta era a opção mais credível porque, tendo fixado um defesa e estando o outro bastante longe do coreano, o espanhol criava ali uma situação de ruptura muito profícua para uma das maiores armas do jogo do atleta asiático: a sua velocidade.

O que é poderia ter feito Kouyaté, portanto?

Vendo que o coreano era a uma solução plausível de continuidade que se apresentava ao espanhol para manter a investida em contra-ataque, o jogador belga (um autêntico pulmão de meio-campo completamente fora-de-água) não conseguiu analisar bem a situação que lhe era apresentada. Se o belga tivesse entendido antecipadamente que aquela era a única opção para manter viva a transição, bastava-lhe ter dado uns passos em frente para colocar Son em fora-de-jogo no momento do passe de Llorente

moussa dembele

O belga até foi rápido a abordar o coreano mas, no corredor central, já aparecia, bem destacado, Moussa Sissoko. Son só precisou portanto de atrair Kouyaté para oferecer ao velocíssimo Sissoko (jogador que de facto adora este tipo de transições ofensivas para a aparecer em zona de finalização porque é um jogador muito veloz, capaz de ser mais rápido a adiantar-se no terreno do que a equipa adversária a recuperar) o tempo suficiente para papar toda a equipa dos Hammers em velocidade. O coreano criou assim uma situação de 1×0.

son 4

Fixa o defensor, e solta no timing correcto, isolando o colega. Sissoko não perdoou na cara de Adrian.

Um canto curto muitíssimo bem ensaiado pelos Spurs. 

Um dos aspectos que tenho vindo a observar ao longo dos últimos meses em Mauricio Pocchettino é o enfoque que este dá ao trabalho no capítulo das bolas paradas, apresentando soluções variáveis e até distintas (todas elas muito bem trabalhadas) em cada partida. Esse especial enfoque atribuído deve-se não só à quantidade de bons (bons? alguns são óptimos!) executantes técnico dispõe para este departamento do jogo (Christian Eriksen, Danny Rose, Kieran Trippier, Eric Dier, Harry Kane, o próprio Heung-Min Son) como ao potencial que esta equipa apresenta no jogo aéreo, dispondo para o efeito de vários jogadores (Dier, Alderweireld, Dele Alli, AHarry Kane, Davinson Sanchez) com um fantástico poder de impulsão e com um bom jogo de cabeça.

tottenham 3

Como se pode ver, neste jogo, Slaven Bilic optou pela defesa mista. 4 jogadores estão a defender à zona enquanto os outros 5 marcam individualmente.

No momento em que Kieran Trippier parte para a bola, Son entra pelo flanco para fixar o defensor que ali defende à zona, de maneira a permitir que a bola circule para trás, para op o local onde se encontrava Danny Rose (o ala cruza bem). A partir do momento em que o coreano entra no espaço, dois dos jogadores que estão a defender à zona (assinalados a azul) saem para eventualmente poderem fazer contenção ao colega que sai no encalce do coreano e uma aproximação a Rose para lhe limitar a acção de cruzamento, caso este venha a receber a bola para arrancar num veloz e fantasioso 1×1. Como o coreano é muito forte, pragmático e eficaz nestas acções, o jogador que está junto ao poste antevê o perigo que pode surgir, se hipoteticamente essa for essa a decisão do avançado asiático. Como tal creio que esse mesmo jogador deverá ter pensado na possibilidade de sair rapidamente de maneira colocar-se nas costas do seu colega para evitar que o coreano, pudesse eventualmente rematar se conseguisse passar pelo adversário.

falso alarme

Falso alarme. A bola vai para Danny Rose. Com a sua movimentação, o coreano faz mover os dois jogadores, situação que obviamente desmonta o sistema defensivo de Bilic para aquele lance específico. Com menos 2 jogadores na área, estando 5 jogadores a ser marcados individualmente, estes 5 jogadores podem eventualmente atacar o espaço que foi libertado pelos que saíram. Qualquer falha de marcação terá os seus custos.

rose

Como Aaron Cresswell consegue sair na pressão rapidamente, Rose não se sente à vontade para cruzar. Trippier recupera posição e recebe novamente o esférico. 

A defesa do West Ham sobe. Descuram-se algumas marcações. Uma das marcações que é descurada é a marcação que estava a ser realizada ao 2º poste a Marco Dele Alli.

dele alli

O médio ofensivo só não marca porque Adrian faz uma defesa gigante!

Por outro lado, o lance do primeiro golo dos Spurs resulta de um erro de primária para um treinador e para uma equipa com o nível das aspirações que possui este Tottenham.

A ausência de um jogador à entrada da área para conquistar a segunda bola. Estes é um erros básico que não jamais se deve cometer hodiernamente porque é um erro que concede ao adversário uma oportunidade dourada para concretizar.

Atrair o adversário para um flanco para promover uma variação que conquistará espaço para jogar no outro flanco – momento de bom futebol do West Ham.

O golo do empate deu à formação de Bilic a confiança necessária para esta se instalar no meio-campo adversário de maneira a trocar a bolinha com muita qualidade (sempre com a presença de um jogador entre a linha defensiva e a linha média do Tottenham; alguma mobilidade na abertura de linhas de passe) à espera da melhor ocasião para abordar a área ou visar a baliza adversária.

tottenham 4

tottenham 6

Povoando os flancos com várias unidades, sempre que circulavam para um dos corredores, a formação de Bilic tentava atrair o máximo número de jogadores do adversário para esse flanco, para variar o jogo para o outro flanco, de forma a criar espaço para se poder jogar\criar no outro. Deste canto conquistado por Cresswell nasceu o lance do golo da reviravolta, tento que foi apontado de cabeça por Angelo Ogbonna com um fantástico ataque ao primeiro poste no qual o central italiano escapou muito bem a vários adversários para atacar o espaço.

Andreas Christensen!

Reconheço que o jovem central dinamarquês é desde a temporada passada (época na qual esteve emprestado ao Borussia de Monchengladbach pelo segundo ano consecutivo) um dos meus centrais fetiche. Quando chegou ao clube em 2012, aos 16 anos, vindo da formação de juniores do Brondby, o internacional dinamarquês tornou-se o jogador mais bem pago de sempre do futebol jovem britânico, auferindo qualquer coisa como 1 milhão de euros por temporada. O investimento valeu a pena. Mourinho ainda chegou a utilizá-lo na temporada 2014\2015, preterindo-o apenas no defeso seguinte em função das opções que tinha à sua disposição para a posição (Terry, Cahill, Zouma). Nas últimas duas temporadas, na Bundesliga, o jogador cresceu imenso ao lado do seu compatriota Jannik Vestegaard. Christensen é hoje um central muito maduro que alia a um bom sentido posicional a uma excelente capacidade de leitura das intenções adversárias, característica que lhe permite antecipar-se sempre ao seu oponente pela certa e sair a construir (porque sair a construir, ou seja uma saída de jogo na qual um jogador gera benefícios à equipa, isto é, progressão, invasão do espaço adversário, é diferente de sair a jogar, acto onde um jogador consegue ganhar alguns metros com a bola mas não consegue gerar proveitos para a sua equipa) com muita qualidade. Para além destes atributos, o central nórdico é um jogador pouco faltoso, algo  que é sempre positivo para um central (nunca compromete as aspirações da equipa; não oferece ao adversário oportunidades para visar a sua baliza através de lances de bola parada) e detentor de enorme capacidade de impulsão que lhe permite ganhar muitas divididas pelo ar aos adversários, característica que lhe confere eficácia no momento de limpar o jogo que cai na área ou nas imediações desta.

Uma virtude que é ao meu tempo um enorme defeito – David Zappacosta

Pessoalmente eu gosto imenso de laterais do estilo do lateral italiano, ou seja, de jogadores velozes que dão muita largura e profundidade ao flanco, que se projectam bem no ataque, que gostam de progredir com a bola nos pés, queimando com algum pragmatismo as linhas adversárias com o intuito de fazer chegar a bola rapidamente ao último terço. Nas acções de contra-ataque este tipo de jogadores (como Zappacosta, Moses, Nagatomo, Marcelo, Raphael Guerreiro, entre outros) podem ser efectivamente muito valiosos para qualquer treinador porque a velocidade que imprimem na condução do esférico, impede naturalmente a equipa adversária de se reposicionar defensivamente.

No entanto, também gosto de laterais capazes de percepcionar a sua acção de forma a enquadrá-la com o colectivo. Aqui residem, a meu ver, as maiores virtudes e os maiores defeitos de Zappacosta. O italiano corre muito, chega muito rapidamente com bola ao último terço, é afoito nas acções 1×1, 1×2 mas depois por vezes é algo inconsequente (e muito individualista) nos lances que cria porque perde os timings para enquadrar a sua acção com os companheiros, não os deixando subir por exemplo para existir presença na área no momento do cruzamento ou não jogando com o interior quando a disposição adversária lhe é adversa para continuar a sua acção e\ou abre furos para a bola a entrar no jogo interior.

zappacosta 2

Neste lance de condução em velocidade pelo flanco, o italiano não deixa que a formação do Everton execute uma correcta transição defensiva. 

Como podemos ver, Willian apresenta-se muito perto do italiano pelo interior do terreno para lhe oferecer o seu apoio. 

zappacosta 3

A páginas tantas, Willian abranda a sua marcha com o intuito de criar uma plataforma para receber o jogo do italiano. O brasileiro equaciona duas acções:

  1. Com um 1×2 está em condições de suplantar a defesa adversária, colocando Zappacosta na carreira de cruzamento sem oposição.
  2. Existe uma ténue possibilidade de ligar o jogo com o corredor central, onde um colega terá espaço para criar. 

zappacosta 4

O italiano prossegue a sua marcha e até é capaz de tirar o adversário que vem no seu encalce com uma sensacional finta. No entanto, descura mais uma vez os benefícios que uma combinação com Willian poderia proporcionar. Uma acção 1×2 seria susceptível de criar ruptura na defesa do Everton. Se tivesse realizado ali uma combinação, Zappacosta poderia penetrar para ganhar a linha e servir tranquilamente (sem adversários por perto) uma aproximação de Batshuayi ao primeiro poste, por exemplo.

zappacosta 5

Com uma rotação sobre o adversário, o italiano ainda consegue ganhar a linha de fundo mas o cruzamento já sai em esforço com a bola a queimar a linha de fundo. As probabilidades do cruzamento vir a criar uma situação flagrante de golo são muito reduzidas. A bola acaba por transpor a linha de fundo na opinião do assistente do árbitro da partida.

Outra acção onde o ala não definiu bem e optou pela realização de um lance individual que acrescentou pouco à equipa.

zappacosta 6

O italiano volta a queimar linhas e a fixar muitos jogadores adversários na sua acção, acção que naturalmente cria espaços livres noutros sectores do terreno. No entanto, tendo o jogador italiano atraído 3 defensores à sua acção e havendo um certo distanciamento de um dos centrais do Everton em relação a Michy Batshuayi, imaginem o lance de perigo que não poderia ter sido causado se o italiano tivesse libertado a bola para o belga no timing correcto. Dada a distância existente, pegando a bola no espaço livre, Batshuayi, jogador que é dotado de alguma velocidade teria certamente arrancado para a área para finalizar a jogada. 

Grande acção de cruzamento (com conta, peso e medida) de Musonda acompanhada por uma fantástica finalização por parte de Antonio Rudiger

O médio ofensivo belga de 21 anos Charly Musonda Jr  é um jogador para seguir com alguma atenção nos próximos tempos dada a sua inegável qualidade técnica e velocidade, atributos que pude conferir na época passada nos 2 ou 3 jogos em que vi jogar ao serviço do Betis de Sevilla. O cruzamento do belga, produto das escolas de formação do Anderlecht é meio golo, não obstante o facto de Antonio Rudiger ter sido obrigado a esticar-se para conseguir chegar aquela bola. O cabeceamento é pura e simplesmente mortífero e indefensável para qualquer guarda-redes.

 

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