Tour de Hainan – 2ª etapa


Foi completamente sozinho (sem a ajuda da equipa) com um centro de gravidade muito baixo, com a cabeça projectada para fora do guiador e com o tronco apoiado no mesmo para conferir estabilidade ao processo, naquela que é sem sombra para dúvidas a mais bizarra mas ao mesmo tempo a mais eficaz postura aerodinâmica que um ciclista pode utilizar na ponta final de uma etapa, que o sprinter italiano (de origem polaca) Jakub Mareczko rematou a vitória (disputada ao sprint) na 2ª etapa do Tour de Hainan, depois de ter “perdido” a primeira etapa para o sprinter basco da japonesa Ukyo Jon Aberasturi.

Como já pude referir noutra ocasião, a 1 de Agosto, a propósito de uma vitória do sprinter australiano Caleb Ewan na Volta à Polónia, com esta posição na bicicleta, qualquer corredor consegue reduzir a sua exposição a ventos frontais na ordem de 10% relativamente ao grau de exposição de outros ciclistas que utilizam uma postura aerodinâmica mais clássica, de tronco aberto. A redução da exposição a ventos frontais permite ao corredor que utiliza esta postura ganhar 3 metros (mantendo-se a potência utilizada por todos os ciclistas numa condição coeteris paribus) de vantagem sobre os adversários num sprint com a duração de 14 segundos (250 metros). Esta é portanto uma técnica muito válido para a tipologia de chegadas similares aquela que vimos, ou seja, em chegadas disputadas em zonas muito próximas do mar em situações conjunturais nas quais existe uma maior incidência (pressão e força) de ventos frontais. 

“Onde é que o sprinter ganhou a tirada?”

mareczko

Em primeiro lugar, creio o sprinter da Selle Italia conquistou a etapa em função da sua exímia colocação no acto de lançamento do sprint. Não tendo uma equipa capaz de o colocar na dianteira do pelotão (com unidades a bater-lhe o caminho) no acto do lançamento do sprint, facto que não invalida porém os esforços desenvolvidos pela formação italiana nos esforços de perseguição (partilhados ao longo dos quilómetros finais com a ucraniana Kolss e com a Isowhey) realizados relativamente ao galhardo duo que circulou na frente até à flame rouge (o último resistente da fuga, Jordan Cheyne foi um verdadeiro herói naquela ponta final, morrendo literalmente “junto à praia”; a sua missão não era porém fácil visto que estava sozinho numa conjuntura altamente desfavorável, provocada pelos ventos cruzados que se fizeram sentir nos derradeiros quilómetros) o jovem sprinter de 23 anos foi obrigado a imiscuir-se na linha da frente (nos quilómetros finais, o corredor esteve sempre bem posicionado nas primeiras 7 posições do pelotão, saltando de roda em roda no acto de lançamento até chegar à 2ª posição, momento em que conseguiu agarrar a roda do corredor que abriu as hostilidades no que diz respeito ao sprint final) no interior dos blocos formados pelos adversários (a Bardiani e a Delko Marseille decidiram poupar as suas melhores unidades para a ponta final, poupando-se na fase de perseguição; mesmo assim creio que a formação francesa peçou por tardia no acto de lançamento e a formação italiana, formação que até entrou bem no quilómetro final acabou por destruturar-se por manifesta falta de energia de Enrico Barbin) para conquistar a melhor posição possível na abordagem ao momento de finalização.

mareczko 2

Em segundo lugar, foi a postura aerodinâmica adoptada que lhe permitiu ganhar uma vantagem interessante sobre os adversários no climax do sprint  – como podemos ver na imagem, assim que Mareczko adoptou a postura aerodinâmica supra explicada, ganhou, em poucos metros, 1 bicicleta e meia sobre o homem que o seguia na traseira e sensivelmente 1 bicicleta sobre o primeiro lançador da Delko Marseille.

Em terceiro lugar, creio também que existiu algum demérito dos adversários, principalmente dos corredores da formação francesa. Como podemos ver na imagem suprapostada, os homens da Marseille ainda estavam, a 125 metros da linha de chegada, a tentar lançar (“desconchabadamente”, diga-se em abono da verdade) um sprint que já tinha sido lançado pelo atleta da Isowhey nos 50 metros anteriores. São este tipo de erros que evidenciam algum amadorismo, quando comparados com a perfeita sincronia que é demonstrada neste departamento pelas equipas de World Tour, pese embora esta formação seja uma formação totalmente profissional que milita no 2º escalão do ciclismo mundial. Este tipo de trabalho não se pode iniciar de forma alguma a 125 metros da meta (num espaço de terreno muito reduzido) quando o sprint já se encontra lançado, mas sim a 450\400 metros pelas razões que são facilmente inteligíveis: o controlo da dianteira no acto de lançamento (impedindo os lançadores e os sprinters rivais de obterem as melhores posições de lançamento; obrigando-os a gastar desnecessariamente energias na procura por um bom lugar no acto de lançamento) e o distanciamento existente em relação à linha de chegada, distanciamento que permite aos lançadores acelerar a corrida até ao ritmo desejado pelo sprinter para fazer a diferença em relação aos adversários.

Com esta vitória, Mareczko celebrou a sua 8ª vitória em etapas da presente temporada.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s