Os golos da jornada (1ª parte)


Começo este post pela derrota do Real Madrid na deslocação à Catalunha, mais concretamente ao terreno do recém-promovido Girona, emblema que é actualmente presidido pelo antigo lateral direito internacional Delfi Geli (jogador que se celebrizou nos anos 90 ao serviço do Atlético de Madrid de Radomir Antic) e que como se sabe foi adquirido recentemente pelos emires do City Football Group, a holding que controla, entre outros clubes, o Manchester City. Frente ao actual campeão espanhol e bicampeão europeu, a formação catalã fez um “partidazo” incrível (em suma, o jogo foi provavelmente um dos melhores jogos de 2017 da Liga Espanhola) no qual, no frenético (disputado a uma velocidade altíssima que me levou sinceramente a crer, in loco, que os catalães não teriam pernas para mais de 60 minutos; enganei-me redondamente; foi precisamente a partir dos 60 minutos que os merengues não tiveram pernas para aguentar o verdadeiro rolo compressor exercido pela formação da casa) e entrecortado carácter que o jogo foi proporcionando (de bola cá, bola lá) criou várias situações de perigo (enviando inclusive duas bolas aos ferros da baliza defendida por Kiko Casilla, titular em função da ausência de Keylor Navas) e beneficiou de uma rara (nada normal) falta de compostura de Ronaldo no capítulo da finalização. 

zidane

Zinedine Zidane deverá ser certamente, durante o dia de hoje, um homem bastante apreensivo com o rendimento da equipa. Bastante apreensivo porque, em primeiro lugar, a equipa tem vindo a revelar alguma falta de eficácia, não concretizando as múltiplas oportundades flagrantes que vai construíndo (maioritariamente em acções de contra-ataque). O insucesso neste parâmetro abre as portas para a realização de duas pequenas discussões: como se sabe, a formação madrilena é uma formação que nos últimos anos tem vivido muito mais da qualidade individual dos seus artistas do que propriamente das dinâmicas colectivas trabalhadas pelos treinadores que por lá tem passado. Neste Real (leia-se no Consolado de Zidane) eu não reconheço (salvo maior influência de Isco a meio-campo, em particular, nos jogos em que Ronaldo cumpriu castigo e a enorme sincronia existente entre Carvajal e Modric no flanco direito) muitas ideias de jogo que não a ideia de correr muito com a bola nos pés, de usar a velocidade (de facto; de execução) de todos os intervenientes na saída para o contra-ataque para aproveitar o balancamento adversário no terreno, de utilizar abundantemente os corredores para servir Ronaldo na área. A gestão dos ritmos de jogo e da própria vantagem é outra das pechas desta equipa. Quando se encontra em vantagem, esta formação não sabe gerir a posse no meio-campo adversário. Qualquer bola é atacada desnecessariamente como se fosse a última de uma vida… Bastará referir, para reforçar estas ideias, que são raros os jogos em que a equipa dá importância ao jogo interior, à possibilidade de desmontar os blocos defensivos adversários através da colocação de jogadores entre as linhas adversárias (Isco é efectivamente o único jogador que a formação madrilena possui para o efeito; quando o faz a equipa colhe benefícios e vantagens), de circular pacientemente para obrigar a formação adversária a ter adiantar linhas (abrindo espaços para jogar entre linhas se a subida for descoordenada) e ter que vascular para abrir espaços para jogar… As peças são efectivamente tão boas que todas, juntas, e devidamente geridas ao nível de ego, possuem futebol para dar e vender. Veja-se por exemplo o futebol de Toni Kroos ou Luka Modric, dois verdadeiros autómatos que sabem tudo o que fazer em campo. Por outro lado não nos podemos esquecer que esta é uma equipa bastante acomodada aos resultados que tem vindo a obter nos últimos anos (embora hajam jogadores, como efectivamente é o caso de Ronaldo que pretendem sempre mais) e que está excessivamente formatada para atacar e para resolver bastante cedo as partidas.  Quando o individual não consegue resolver, vem ao de cima as fragilidades do colectivo.

Um segundo aspecto que certamente estará a gravitar pela cabeça do francês é o comportamento defensivo da equipa. Porém, até neste departamento, o francês não tem efectivamente muita obra construída. Em primeiro lugar porque a equipa tem pouca solidariedade defensiva. Este Real é uma equipa partida em 2 blocos, 2 blocos que nem sempre tem a correcta articulação entre si nas diversas fases do jogo: a equipa ataca em bloco mas não defende em bloco. Os jogadores da frente raramente baixam para defender. A equipa tem por outro lado muita dificuldade para estabelecer zonas de pressão sobre o adversário (ou seja a coordenação da pressão numa determinada zona do terreno na qual o adversário sente mais dificuldades, para conduzi-lo ao erro) e é algo descoordenada (errática) a pressionar e a fechar espaços. No seu quarteto defensivo, vai acumulando erros de palmatória (no posicionamento, na abordagem às acções individuais) como aquele (de Varane) que pude descrever aqui há algumas semanas. 

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Primeira questão: como é que um jogador passa pelo meio de 4 sem que haja um que lhe ponha uma “pézada” para desarmar?

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Que raio de abordagem é esta?

Apesar de ter sido obtido em fora-de-jogo, o lance do 2º golo do Girona é um exemplo bastante concreto do que acabei de escrever:

Repare-se em alguns dos detalhes da jogada:

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Um autêntico convite à penetração adversária. A equipa está a defender de forma desorganizada. Prova disso é o distanciamento existente entre unidades, o distanciamento de cada jogador em relação ao adversário mais próximo (abrindo espaços para jogar; nenhum dos jogadores está em condições de cair rapidamente sobre o portador), a linha média está descoordenada deixando Kroos literalmente ao abandono nos espaços centrais (Isco ainda está a recuperar no terreno para se posicionar no esforço defensivo; Casemiro está literalmente colado aos centrais ao invés de se posicionar à frente destes) e a existência um espaço enorme entre Kroos, Isco e os centrais que Christian Stuani pode aproveitar para entrar de forma a poder receber entre linhas. Pressão diminuta sobre o portador.

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Quando Casemiro sai na pressão já é tarde visto que o jogador que recebe tem tempo suficiente para receber e colocar o passe (aproveitando o distanciamento existente entre Modric e o brasileiro) para a desmarcação que Stuani faz nas costas de Nacho. 

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Assim que a bola entra na área, a linha média desiste literalmente do lance. Nenhum destes jogadores equaciona sequer a possibilidade de Casilla poder vir a defender para a frente, para a zona de penalty. Creio até que estes não recuam porque acreditam piamente que a coisa será resolvida facilmente e que a situação até poderá dar azo ao rápido lançamento de uma transição para o contra-ataque.

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Mas não, cria-se uma situação muito peculiar. A defesa acompanha o movimento e o ressalto da defesa de Casilla salta para a frente, impedindo-os de ganhar a segunda bola. Se Kroos ou Isco tivessem acompanhado a jogada até ao final, estariam certamente em condições de disputar aquela segunda bola.

Extraordinária recuperação defensiva e desarme de Stefan Savic

Eis uma daquelas situações em que as características de uma e de outra equipa se equivalem: o Villareal é, em virtude dos argumentos de alguns dos seus jogadores (da capacidade e qualidade de passe dos seus médios Bruno Soriano e Manu Trigueros) e da rapidez do seu ponta-de-lança Cedric Bakambu, uma equipa muito forte nas transições ofensivas para o contra-ataque porque por norma os dois médios procuram servir, com um certo pragmatismo, em profundidade as arrancadas do ponta-de-lança congolês. Por outro lado, o Atlético de Simeone é por sua vez uma formação muito rápida a reagir à perda do esférico, organizando-se convenientemente num curtíssimo espaço de tempo para exercer um eficaz contra-pressing.

Neste lance, Trigueros não é especialmente rápido a sair com a bola da sua área porque se apercebe que tem uma parede à sua frente. No entanto, a defesa do Atlético está muito subida no terreno.

trigueros

O médio precisa de contemporizar para perceber os apoios disponíveis, em suma, para ler bem o contexto no qual está inserido e o contexto que se está à sua frente para tomar uma decisão que acrescente progressão à acção. A contemporização do médio é fulcral para o desfecho da sua decisão porque é a contemporização que faz despertar um clique em Cedric Bakambu.

bakambu

Bakambu entende que precisa de se mover, desmarcando-se para dar sequência (progressão) à acção do colega.

Como podemos ver também neste frame, Savic está a ler o jogo correctamente. Apercebendo-se da ideia e do posicionamento de Godin, o montenegrino interrompe bruscamente a marcha que estava a realizar para compensar o colega.

O central ganha metros e fracções de segundo que vão ser importantíssimos para o desfecho da jogada.

savic

Bakambu é mais veloz, mas Savic já vai em recuperação.

Bakambu 2

Na cara de Oblak, o avançado congolês perde tempo naqueles dois passos de mambo que todos os avançados tentam fazer antes de finalizar para ver se conseguem fazer o guarda-redes tombar previamente para um dos lados. É essa dança que o trama pois dá tempo a Savic de se aproximar e de o desarmar com toda a classe deste mundo e do outro.

O Villareal em bloco defensivo recuado. 

villareal

Vicissitudes defensivas criadas pelas movimentações dos falsos alas do Atlético para o corredor central, entrando entre linhas. Partey está à vontade para receber, podendo penetrar no interior do bloco se Saúl entrar no espaço disponibilizado entre a 2ª e a 3ª linha de pressão. Também pode, como efectivamente fez, explorar a largura e a profundidade que Juanfran vai oferecer na ala direita, depois de receber, girar e fixar um adversário…

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Este lance termina com um importante corte realizado por Mario em cima da linha de golo a remate de Saúl Ñiguez.

Griezmann: contemporizar é facilitar o sucesso da acção!

Tantas são as vezes em que havendo falta de esclarecimento na transição para o ataque, os defesas e médios do Atlético vão despejando bolas para a frente à procura de Antoine Griezmann, na expectativa que este possa sacar o coelho de uma cartola. Estes processos são na sua génese defeituosos mas o francês acrescenta sempre algo, mesmo rodeado de 3 adversários. A forma em como recebe (rodeado por 3 adversários), tricota a bola (esperando a chegada de um apoio, enquanto atrai os jogadores) e liberta quando o apoio chega (criando uma efectiva situação de continuidade e progressão a uma jogada aparentemente perdida) é de cracalhão da bola.

Maravilhoso voo de Mariano Barbosa a cabeceamento de Godin

Mais uma vez o génio de Griezmann!

O francês não tem olhos nas costas. Há um momento prévio que o ajuda a perceber o que é que vai fazer antes de ter a bola nos pés. Vejam:

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Neste recorte não é nítido mas se observarem aqui no video (com maior definição) que criei no streamable, perceberão que, antes de receber, em marcha, Griezmann olha para a direita para conferir a localização de Correa.

Uma expressão engraçada captada nas bancadas do San Mamés.

Qualquer bola que chegue ao argentino à entrada da área (seja através de uma lance de bola corrida, seja através de um erro forçado ou não-forçado de um adversário) constitui-se, pelas razões que são amplamente conhecidas do público, um verdadeiro momento de pânico para qualquer adepto do clube adversário. Logo aos 5″, vejam a expressão de um adepto do clube basco no momento em que um dos seus centrais oferece um matchpoint ao argentino.

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Suárez, o co-piloto de Messi. 

Uma jogada que me deixou, por vários motivos, boquiaberto.

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A organização da defensiva basca neste lance é ambígua. Enquanto um conjunto de jogadores (que bascularam para a esquerda, seguindo o sentido de jogo criteriosamente escolhido pelos catalães na fase de construção da jogada) tentam fechar as linhas de passe para Messi numa primeira fase da jogada, encurtar-lhe o espaço e aproximar-se do argentino para o atacar logo que este receba o esférico (Iturraspe), no flanco oposto, Inaki Williams não acompanha esta sistematização, não fechando o canal de comunicação entre Messi e Paulinho.

Reparem no que Suárez comunica ao argentino. O uruguaio realiza o tradicional movimento para a frente do argentino para fazer a clássica parede (arrastando consigo um dos centrais) mas, com o braço aberto indica ao argentino que deve procurar Paulinho visto que o brasileiro está solto e com muito espaço.

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O argentino segue o conselho e procura Paulinho, iniciando o tradicional corte para o espaço livre. O jogador que marca Suárez trata de largar o controlo defensivo que estava a realizar ao uruguaio para acorrer ao fogo que se abriu. Para acorrer a esse fogo, abre outro, ou seja, um canal de comunicação entre o brasileiro e o uruguaio.

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Paulinho é expedito a dominar e a procurar Suárez. Como podemos ver, Messi continua a correr em direcção à área porque sabe a bola ainda lhe vai chegar aos pés para finalizar.

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Chega e só não dá golo porque o argentino teve manifesto azar na finalização, após ter driblado o guardião Kepa.

Suárez, o sábio.

Face a uma equipa que a partir dos 20 minutos recuou ostensivamente as suas linhas até à entrada da área e tentou, através da proximidade entre as duas mais recuadas impedir o habitual jogo combinativo entre linhas existente entre Suárez e Messi, o Barcelona foi obrigado a procurar novas formas de circulação para chegar à baliza de Kepa.

Uma delas foi este lance no qual Suárez veio ao exterior, ligar o jogo com Jordi Alba numa primeira fase. Ficando à entrada da área, o uruguaio utilizou em seu proveito o natural conhecimento que possui do comportamento natural dos adversários face à situação criada. O que é que quero dizer com isto? É perfeitamente natural que os jogadores de uma determinada equipa se encaminhem para a área assim que um jogador faça sair a bola do interior do terreno para o exterior, mais concretamente para a subida de um lateral porque por norma qualquer jogador acredita que vai sair cruzamento. Ao ter ficado à entrada da área, Suárez enganou a defesa basca mas não foi feliz no remate.

A densidade criada pelos bascos no corredor central, levou o argentino a procurar mais as subidas de Alba até ao último terço ou a largura oferecida no flanco direito por Rakitic para obrigar o adversário a ter que se estender mais no terreno. Foi precisamente através dessa largura oferecida nas bandas que o argentino começou a destruir o compacto bloco defensivo da formação comandada por José Angel Ziganda, técnico que poderá vir a ser despedido se a formação de Bilbao não vencer na próxima jornada. Não conseguindo procurar num primeiro momento, no lance do golo,
Messi tabela com Paulinho antes de procurar a subida de Alba. Alba sabe que o companheiro vai penetrar na área e vai aparecer na direcção do primeiro poste (ou seja, com o ângulo perfeito para dar uso ao seu mortífero remate cruzado de pé esquerdo). As dinâmicas estão tão enraizadas nestes jogadores que eles conseguem jogar um jogo inteiro de olhos fechados.

Los recortes de André Gomes – ficou-se “pelos recortes”

Eis uma das razões pela qual ninguém gosta de André Gomes: o facto de não ser um jogador com processos de execução rápidos, verticais, pragmáticos e objectivos. O que é que faria qualquer jogador (suponhamos, a título de exemplo, Rakitic) naquele lance em específico? Estou certo que tomaria uma de três opções: dominava partia automaticamente para o 1×1 em velocidade contra o defesa pelo lado de fora para ter sempre a possibilidade de exercer o remate com o pé direito, tirava-o do caminho com uma finta de corpo ou tentava cortar para dentro rematando sem dar tempo ao defesa para recuperar. Não quero criticar a opção tomada pelo jogador porque teria sido uma excelente opção se tivesse rematado no momento em que teve oportunidade para o fazer. Como não o fez, acabou por ter que partir para novo drible para puxar a bola para o pé direito. O português acabou por ser literalmente “desarmado” por Messi.

Amanhã sairá durante a tarde a 2ª parte deste post. 

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