Uma humilde perspectiva sobre Gelson e Acuña


cuadrado 4

Gelson e Ristovski colocam Higuaín em linha no momento do passe de Cuadrado. Se o macedónio ainda tenta acompanhar a sua referência (Coátes) para subir rapidamente até a uma posição que não coloque em linha o avançado Argentino, o extremo, pouco habituado a ter que executar estes movimentos, não teve a percepção clara de quando sair, não acompanhando o movimento da sua referência que é, no seu caso, Ristovski. Acontece porém que o macedónio, na sua selecção, é um jogador habitualmente utilizado a central, facto que na minha modesta opinião, lhe confere maior rapidez na leitura, análise e reacção a este tipo de contextos particulares do jogo. Como referi, o extremo é um jogador que em função da sua posição, raramente é obrigado a descer até terrenos tão recuados para defender. É portanto natural que não saiba percepcionar e analisar algumas situações “de área” e não saiba portanto executar alguns movimentos no tempo correcto.

Nas últimas semanas tenho lido por aí, pelas redes sociais, alguns comentários de adeptos do Sporting que (confesso) me tem dado algumas voltas aos fígados, não só pela inverosimilidade de alguns dos enviesados argumentos apresentados como pela bárbara ignorância que estes demonstram em relação às coisas do futebol. Para um largo grupo de adeptos do meu clube, tanto Acuña como Gélson “devem ir para o banco porque a partir dos 60 minutos não tem uma produção ofensiva minimamente aceitável” – decerto que o meu caríssimo leitor, sportinguista que vai escutando e lendo as opiniões que são produzidas aqui e ali, já deu de caras com estes tipo de “não-argumentos” em diversas publicações nas redes sociais. Muitos “papam” este tipo de argumentos porque o seu conhecimento do jogo é tão ou mais limitado do que o conhecimento daquele que escreve tamanha barbaridade. No entanto, pela facilidade de intelecção que este tipo de comentários provocam naqueles que por diversas razões não conhecem ou jogo ou não se esforçam para conhecer (admito que existem pessoas que gostem de ver futebol pela sua estética; admito que essas pessoas, podem efectivamente ensinar-me muita coisa noutras áreas de conhecimento) vai-se criando, no eter da vida mundana e dos argumentos levianos, uma ideia completamente falsa que não só não informa as pessoas como as desinforma, desqualificando-as quando casualmente vêem a “sua opinião” confrontada pela opinião de quem conhece o jogo.

Vamos lá tirar a pratos limpos a questão. Para o efeito creio que não preciso sequer de suportes imagéticos ou vídeos para me expressar porque as coisas são demasiado óbvias.

As ideias de Jorge Jesus para os momentos de transição e organização defensiva.

Comecemos pelo básico. É natural que Jorge Jesus tenha ideias diferentes para estas duas fases do jogo porque em primeiro lugar cada adversário é um adversário (cada adversário tem as suas fraquezas e as suas forças e virtudes) e em segundo lugar, o nível das equipas do nosso campeonato é na sua esmagadora maioria (as únicas excepções são o Benfica, o Porto e talvez o Braga; equipa que nos últimos 2 confrontos internacionais não conseguiu vencer frente a uma equipa búlgara) incomparavelmente inferior ao da esmagadora maioria das equipas que estão na presente edição da Champions. As únicas excepções à regra serão talvez o modesto Qarabag (formação que na passada terça-feira empatou frente ao Atlético de Madrid), o Feyenoord, o Apoel de Nicósia e o Maribor – e mesmo assim não sei se por exemplo um Boavista ou até mesmo um Tondela venceria qualquer uma destas equipas. Vamos supor que sim, porque sonhar não custa.

Para as competições internas (à excepção dos jogos disputados contra os grandes) Jorge Jesus é um treinador que pretende que a equipa consiga condicionar o adversário, pressionando-o com maior intensidade, montando linhas de pressão mais intensas, em sectores adiantados do terreno, quer no interior do seu meio-campo (condicionando a saída de jogo adversária) quer no círculo central, condicionando a primeira fase de construção adversária. O objectivo toda a gente facilmente depreende: o Sporting é uma equipa que pretende dominar o jogo através da posse e da iniciativa (ofensiva) continuada no meio-campo adversário. Para o efeito Jesus dispõe em terrenos adiantados duas linhas de pressão (sempre próximas) constituídas pelos jogadores da linha avançada (Dost, Acuña e Gelson) tentando pressionar a saída de jogo adversária (os defesas) e uma linha média próxima que encosta na linha média adversária para que os jogadores desta não possam receber, não se possam virar de frente para o jogo com bola e no fundo não possam atacar a nossa baliza, lançando o ataque. A linha defensiva leonina está obviamente subida, encostando à linha média para encurtar ao máximo a distância existente em relação à linha média, devendo controlar a profundidade se o adversário optar por esticar o jogo para uma movimentação que surja nas costas da defesa.

Nos jogos a contar para as competições europeias, Jesus vira a agulha (muda o chip; entendam da forma que vos aprouver) alternando entre momentos de pressão alta na qual o bloco defensivo está mais subido e como tal, mais pressionante em sectores adiantados do terreno e um bloco defensivo baixo (profundo, recuado) compacto, no qual Jesus pede aos jogadores pede aos jogadores para dar pouca distância entre linhas e para actuar o mais próximos possíveis, evitando portanto abrir espaços (entre si) que o adversário possa aproveitar, no qual a primeira linha de pressão da equipa (Dost) defende a zona central do terreno à entrada do meio-campo, os homens do meio-campo defendem os espaços centrais e interiores que vão desde Dost à entrada da área, sendo coadjuvados pelos extremos e pelos laterais que também tem como missão defender os espaços exteriores (os extremos tem forçosamente que auxiliar os laterais e tem que acompanhar as subidas dos laterais adversários) e ajudar a fechar no interior quando o adversário provocar uma situação que dite essa necessidade.

Vai e vem, vai e vem. “Os Piscinas” Acuña e Gelson

Tanto em ataque organizado (a forma de ataque mais utilizada nos jogos a contar para as competições internas) como em contra-ataque, tanto Gelson como Acuña não ficam estáticos nas alas à espera que a bola lhes chegue aos pés. Em ataque organizado, Jesus pretende:

  1. Que os extremos entrem sistematicamente no corredor central nos momentos em que a equipa está a ter mais dificuldade para progredir no terreno (no fundo para contornar a disposição do bloco adversário) quando está a construir a meio-campo, quer no espaço que é deixado nas costas pela primeira linha de pressão adversária (a linha avançada), quer junto aos médios adversários (para provocar arrastamentos nos jogadores que estão a defender nos corredores, obrigando-os a ter que acompanhar os seus movimentos) de forma a permitir ao jogador que está naquele momento com a bola (os centrais, William, Battaglia, Bruno, Bruno César), a abertura de jogo directa para os laterais ou a circulação em Gelson ou Acuña (devidamente inseridos em zonas interiores), circulação na qual estes podem optar por 2 processos: a ligação com os laterais (podendo aí proceder a um movimento que no futebol é conhecido por 1×2) ou uma recepção que lhes permita girar sobre um adversário ou virar-se de frente para o jogo para o acelerar e criar situações de perigo para a baliza adversária.
  2. Que os extremos sejam capazes de entrar no flanco oposto para criar situações de superioridade numérica num determinado lance. Muitas vezes vemos Gelson a cair no flanco esquerdo vindo do corredor central e Acuña a procurar estender o jogo no flanco direito.

Em contra-ataque, Jesus pretende:

  1. Que Acuña e Gelson sejam rápidos a disparar pelos flancos no momento em que um jogador do corredor central recupera o esférico para dar profundidade ao jogo.
  2. Que Acuña e Gelson sejam rápidos a sair em velocidade (executando a transição) nas situações em que consigam ser eles os recuperadores do esférico, cavalgando com a redondinha nos pés até que algum colega ofereça uma linha de passe que gere benefícios para a equipa.

Acontece que tanto Coentrão como Piccini (não mencionarei por ora Ristovski) são dois laterais que entram poucas vezes no último terço adversário. Não posso ignorar neste âmbito uma recomendação que me parece vir de Jesus. No ano passado, o Sporting perdeu muitos pontos para o campeonato à guisa de um comportamento mais ofensivo por parte dos laterais. Tanto Schelotto como Zeegelaar (que Deus o tenha por Inglaterra durante muitos anos, são e sob contrato do Watford ou de outro clube qualquer que não o Sporting) eram laterais de enorme propensão ofensiva, não se constituíndo porém laterais capazes de descer rapidamente no terreno, característica que se agudizava nos momentos em que a equipa perdia a bola a meio-campo porque as equipas adversárias tendiam obviamente a capitalizar a ausência dos laterais, lançando as acções de contra-ataque para as suas costas. Isso obrigava os centrais a terem que cair rapidamente para as alas para compensar essa ausência. Se eventualmente Semedo ou Coátes fossem comidos de cebolada na abordagem, a bola parava no fundo das redes – assim o vimos em Vila do Conde naquele descarrilamento colectivo (do qual o Bruno César não deve ter as melhores recordações), no Dragão (no lance do primeiro golo, lance onde o Corona “come” o Zeegelaar em velocidade), em Chaves, e noutros tantos golos sofridos aqui e ali mesmo em jogos dos quais saímos vitoriosos. Considero que, em muitos jogos, Jorge Jesus possa dar instrucções aos laterais para não subirem muito no terreno. Ou melhor, para subirem pela certa.

Também considero que Coentrão ainda não está na sua melhor forma física e que Piccini é um lateral que por vezes, demonstra algum receio em subir no terreno. Aqui reside a meu ver o principal ponto crítico em relação ao italiano. Defensivamente cumpre mas ofensivamente é um lateral que acrescenta pouca profundidade ao jogo. Imaginem um exercício muito simples: quando um lateral (Piccini) abre em profundidade para o extremo (Gelson) e não avança no terreno para apoiar a investida, o que é que acontece? Por norma, a equipa adversária tem 2 jogadores no corredor ou tem 3 jogadores no corredor (estando um mais adiantado), um interior que vem dar uma ajuda e um dos centrais nas costas do lateral para fazer a compensação caso Gelson o finte. Se o lateral não acompanha, Gelson incorre em situações nas quais, se não tiver o apoio de um jogador do corredor central (imaginemos Podence) em zona mais interior, tem forçosamente que ombrear contra 2 ou até mesmo 3 jogadores… Logo, o jogador é forçado a uma situação de desgaste físico.

Tal situação acarreta mais esforço físico para os extremos. Para além de ter que andar num constante rodopio, sprintando para sair em transição, sprintando para acelerar jogo, sprintando para acompanhar as movimentações do lateral adversário, sprintando para oferecer linha de passe na faixa oposta, sprintando para pressionar alto, sprintando para recuar rapidamente no terreno,  se a situação de pressão alta for ineficaz, sprintando para cair sobre o adversário quando este recebe o esférico na sua zona de defesa, sprintando, sprintando “campos inteiros” mais de 50 vezes por jogo, muitas vezes são obrigados a ter que criar situações de perigo perante a presença de 2 ou 3 jogadores da equipa adversária sem o apoio de outro jogador. O esforço físico a que Jorge Jesus vota os seus extremos é de uma enorme brutalidade. Não é portanto natural que a partir de determinado período de jogo, os jogadores sintam um natural cansaço, físico e psicológico, que lhes tira discernimento? Creio que é! É tão natural quanto o cansaço físico e psicológico sentido pelos “opinadores” (que só vêem facilidades) ao fim de 6 horas de trabalho…

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2 opiniões sobre “Uma humilde perspectiva sobre Gelson e Acuña”

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