Destruir lendas


jose mourinho

Nos últimos anos confesso que tenho sentido algumas dificuldades para criticar com abertura, frontalidade e sinceridade (sem que ter correr o risco de assistir à rápida lapidação ou delapidação e opressão da minha opinião pelos mais básicos argumentos dos bandeirinhas ou pelas frases feitas dos imberbes que à falta de conhecimento ou de tempo para investigar e conhecer a fundo o trabalho do treinador português, optam por colar habitualmente a sua opinião à opinião que é dita ou escrita pelos pretensos jornalistas especializados, alguns deles pagos a peso de ouro para escrever bem do português) os “trabalhos” que têm vindo a ser realizados nas últimas temporadas por José Mourinho, “um pouco” em virtude da maré de desconhecimento futebolístico generalizado que grassa no seio dos portugueses e do comportamento de manada que explora inteligente e activamente esse mesmo desconhecimento generalizado instalado, comportamento que deriva, em grande parte, da boa imprensa (do fino corte jornalístico, pago a peso de ouro para promover a lenda e o seu legado) que secularmente se atrelou ao técnico desde o dia em que aportou a Londres vindo do Porto. Enquanto perdurar a sua carreira, José Mourinho sempre será uma vaca sagrada do futebol deste país, indiferentemente dos resultados e da excelência do futebol praticado pelas equipas que este venha a orientar no futuro.

Antes de passar para a minha opinião concreta, não quero que me interpretem como um simples ou mero hater do treinador português, do seu trabalho, ou do modelo de jogo rígido, calculista e ultra defensivo em que este alicerçou a totalidade das suas conquistas. A minha opinião é a opinião de quem acha (e formula no seu íntimo um futebol diferente) o futebol praticado pelas formações orientadas pelo português um futebol feio, demasiado cínico que em nada o engrandece e que não o coloca de todo nos primeiros lugares de um ranking de estética ou até de genialidade e inovação. O trabalho desenvolvido no passado pelo sadino no Porto ou em Milão, continua porém a merecer, pelo mais amplo leque de razões (metodológicas, psicológico-motivacionais, comunicacionais) o meu respeito, embora reconheça que nem nessas equipas Mourinho revolucionou uma palheta no futebol. Nada. Zero. Nem no seu inconfundível estilo de comunicação, Mourinho revolucionou o futebol visto que duas décadas antes Sacchi já falava há imprensa com “tomates enfiados na boca” e já insultava todos os colegas de profissão. Tudo no futebol das equipas de Mourinho soa a roubo. A roubo de ideias, não daqueles com quem o português trabalhou em Barcelona, mas a roubo descarado dos princípios da escola italiana e da personalidade daqueles que copiou. A sua base programática está e sempre esteve em Herrera, em Lippi, em Trap. A sua arrogância foi esculpida em Arrigo Sacchi. Se na gloriosa passagem do português pelo comando técnico da formação da Invicta, o jovem técnico de 38 anos conseguiu, com muito engenho e num curtíssimo espaço de tempo, quase em tempo recorde, operacionalizar com exactidão o seu rigído modelo de jogo clássico com recurso a jogadores de qualidade vindos dos 4 cantos do nosso futebol – alguns deles creditados em função do que tinham feito em equipas de menor dimensão (casos de Derlei, Paulo Ferreira, Pedro Emanuel, César Peixoto, Bosingwa, Pedro Mendes ou Benny McCarthy) misturados no seio de outros que estavam completamente “caídos em descrédito” pelo que não tinham realizado no clube, com outros treinadores, ou em outros clubes de igual dimensão (casos de Maniche, Tiago, Deco, Alenitchev, Ricardo Costa, Nuno Valente) – dotando-os de processos de jogo extraordinariamente bem pensados para as características de alguns jogadores (quem não se lembra da voracidade, por vezes até da animalidade do pressing que era exercido a meio-campo pelo FC Porto de Mourinho? quem não se lembra da evolução tida por Deco quando o português o obrigou finalmente a ser um jogador objectivo e acutilante) e dotando-os efectivamente de uma cultura de vitória à FC Porto, uma “verdadeira fome de vencer” que na altura teve o condão de erradicar alguns dos resquícios da teoria do complexo da inferioridade sentida pelo jogador português, erradicação que em muito viria a ajudar o futebol português nos capítulos seguintes da sua história. Em Milão, com jogadores de outra água (calejados, habituados aos grandes palcos, habituados a vencer regularmente) o treinador só teve que replicar a fórmula do sucesso.

Exceptuando esses dois trabalhos, dos restantes ciclos, creio que não existe nada de especialmente positivo. Em Londres, face ao que lhe foi dado nas “primeiras temporadas” da primeira e da segunda passagem, face às condições pelas quais passavam os rivais naqueles anos, Mou cumpriu. E em Madrid, bem, em Madrid, o processo colectivo foi completamente subvertido ao individual. Tanto em Madrid como na 2ª temporada no Chelsea o ciclo redundaria num ambiente completamente insustentável, crispado, incontrolável e bizarro, digno de um filme de coboiada, que foi construído tão só e somente pelo ego do treinador português.

Chegamos a Manchester, o palco onde José Mourinho pura e simplesmente deixou de se preocupar com a construção de modelo de jogo, preocupando-se mais (excessivamente) em adequar tacticamente (privilegiado o capítulo defensivo) a sua equipa aos adversários que vai defrontando, facto que podemos corroborar nas alterações promovidas pelo português no onze (confesso que nem em Itália tinha visto Mourinho a actuar com uma linha de 3 defensores) que entrou em Stamford Bridge para defrontar o Chelsea.

josé mourinho 2

O futebol praticado pelo United em nada foge à regra do pensamento clássico do português e é de certa forma um ostensivo insulto ao futebol radical que se pratica do outro lado da via com Pep Guardiola. Quando tento idealizar uma comparação entre o pensamento e o futebol das equipas de Mourinho e o pensamento e o futebol das equipas de Guardiola, utilizo aquela comparação musical que tanto irrita a minha namorada, pessoa que detesta Rage Against the Machine e adora audioslave, preferência que me é totalmente inversa – Pep é Rage Against the Machine – um pensamento radical, de pura verticalidade e de pura vertigem no jogo, de cisão com o futebol da treta que é praticado por dezenas de equipas por essa europa fora, visionário, revolucionário, sem contradições internas, construído através de um séquito de jogadores de mente aberta e colorida interessados em fazer história. O futebol do United Mourinho é Audioslave – a guitarra de Tom Morello ainda está lá a mandar uns riffs interessantes mas Cornell, o deprimido, está longe de ser um Zach de La Rocha. Alma. É tudo uma questão de alma. E Cornell teve efectivamente alma, reflectindo-a nos primeiros discos dos soundgarden.

‘Who controls the past controls the future. Who controls the present controls the past.’ – George Orwell, 1984

“Who controls the ball, controls the game” – Pep Guardiola, 2009

Voltemos ao tema principal.

Se ofensivamente, o pensamento do português em pouco se alterou (a equipa continua a jogar o futebol pragmático e directo que o arreigado comportamento defensivo lhe permite, lançando a velocidade do “solitário” Rashford na esquerda sempre que possível; em ataque organizado, nos raros momentos em que a equipa é capaz de assumir o jogo no meio-campo adversário, porque efectivamente esta equipa tem muitas dificuldades em assumir jogo, Matic veio efectivamente dar mais critério à construção de jogo, mas os processos de jogo, processos que privilegiam a construção de jogadas sistemáticamente através do jogo exterior são por demais básicos), no plano defensivo, o último reduto no qual os fanáticos defensores de Mourinho refugiam o seu argumento está paulatinamente a cair por terra. Vejamos alguns dos erros defensivos cometidos pelo United na derrota contra o Chelsea por 1-0:

Seguir o adversário até ao urinol do balneário, se Mourinho assim o ordenar!

bailly

O defesa central Eric Bailly persegue Eden Hazard para todo o lado.

Confusão na pressão. Inépcia na pressão à referência de construção do adversário.

Vistas estas duas situações nas quais, mais encostado para a direita, Cesc Fabrègas, jogador que assume uma especial importância na construção de jogo dos londrinos pela forma eficaz com que procura servir na área Morata através de cruzamentos ou a entrada dos alas Alonso e Zappacosta\Moses nas costas da defensiva adversária através de passes diagonais, recebe tranquilamente o esférico sem qualquer jogador adversário por perto para lhe dificultar a acção, retirando-lhe tempo para pensar e executar no momento em que recebe (factor que impediria o espanhol de ler o jogo no momento da recepção, de pensar a sua acção e a jogada e de executar, obrigando-o a ter que devolver a bola para a acção ser reformulada), é caso para perguntar a Mourinho qual é a referência que orienta a pressão que é exercida pela sua equipa no seu confuso e anacrónico sistema de marcação homem-a-homem, sistema que, como podemos ver em baixo, funde praticamente em uma as duas linhas mais recuadas…

man united

Transformando médios (a vermelho Mkhytarian e Matic) em centrais (para compensar as saídas dos centrais, jogadores que por sua vez acompanham os adversários até à casa de banho se for essa a indicação dada por Mourinho!) e os centrais Phil Jones e Eric Bailly (a azul) em médios. Não deveriam ser os médios a marcar os médios adversários e os defesas a marcar os avançados na área ou nas imediações desta? Sinto-me algo confuso com este sistema de marcação…

fabregas

Voltando à acção anterior (último vídeo) – Quem sai novamente pressão neste lance é um defesa, Phil Jones. Estou certo que os planos de Mou não contemplavam a possibilidade de vermos um defesa a marcar um médio ou tão pouco a sair da linha defensiva para pressionar um médio, abrindo espaço para a colocação nas suas costas da bola em Hazard…

hazard

Como é do conhecimento de todos, qualquer entrada da bola em Hazard nas imediações da área é uma entrada susceptível de criar perigo junto da baliza adversária dada a capacidade ímpar que o belga possui na criação de desequilíbrios em espaços reduzidos.

fabregas 2

Aqui, Fabrègas teve todo o tempo para projectar aquele cruzamento ao qual Morata não chegou por milímetros.

Mais uma vez Fabrègas, desta feita na esquerda, recebe sem qualquer adversário por perto, com imenso tempo para poder levantar a bola para a área,  local para o qual penetravam Bakayoko e Hazard face à ausência de Morata. Para além do espaço concedido ao espanhol e da inépcia revelada pelos dois avançados que assistem calmamente à situação ao invés de descerem rapidamente no sentido de ali se constituírem como uma preciosa barreira à acção do médio…

bakayoko

O movimento de penetração de Bakayoko fixa Phil Jones, libertando espaço nas costas deste para a entrada de Hazard em zona de finalização sem oposição… a situação criada pelo médio francês auxilia Fabrègas a tomar a melhor decisão possível, ou seja, uma decisão passível de se constituir como uma oportunidade de golo flagrante para a equipa.

ashley young

Por sua vez, Ashley Young não é rapido a entender que face à situação em concreto que foi criada pelos blues, precisa de ajustar rapidamente o seu posicionamento ao meio para conseguir eventualmente, com uma antecipação tirar “o pão da boca” ao belga ou por menos marcar presença para estorvar a acção de finalização do 10.

A inenarrável disposição e comportamento defensivo do United no lance do golo de Morata

manchester united 3

  1. O posicionamento dos 3 centrais a azul – o que é isto? Isto é uma nova forma de organização defensiva “à la Campeonato Nacional de Seniores”?
  2. O distanciamento evidente entre linhas no início da jogada.

manchester united 4

Zappacosta avança pela interior direita.

A vermelho:

  1. Phil Jones não sai para fazer a contenção, nem desce (a azul) para controlar a profundidade, visto que Bakayoko subitamente livra-se (também a vermelho) da marcação de Nemanja Matic para entrar nas suas costas O inglês nem muge nem tosse, não está ali a fazer absolutamente nada.
  2. Valencia desliga-se da jogada, deixando Alonso penetrar na área, junto a Bailly.

A preto:

  1. o que é que está a fazer Ashley Young? Davi Zappacosta é em teoria o seu adversário directo. O ala fica pregado no seu canto a ver o desenrolar da jogada
  2. O distanciamento existente entre os dois centrais. Ninguém assume a marcação a Morata. O espanhol chamou um figo ao cruzamento de Zappacosta.
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