Tour de Hainan – Etapas 8 e 9


Marco Zanotti deu a vitória à holandesa Monkey Town

Apesar de ter conquistado, com algum mérito a 7ª tirada da prova chinesa, à entrada para as recta final da competição, ou seja, para as duas etapas finais, a missão de Jacopo Mosca (Willier Triestina – Selle Italia) não se encontrava de todo facilitada, em função da diminuta vantagem alcançada para os mais directos perseguidores na luta pela geral individual. Se ao 2º classificado, o espanhol Benjamin Prades (Ukyo) bastava por exemplo conquistar os 3 segundos respeitantes ao sprint intermédio colocado nos quilómetros finais da etapa pela organização da prova, aos 3ºs classificados na geral, o ucraniano Kononenko da Kolss (ciclista que tem uma boa ponta final) e ao holandês Marc de Maar, o maior agitador da etapa anterior, os 10 segundos relativos à vitória de etapa serviriam para chegar à liderança caso Mosca não viesse a bonificar quer no sprint intermédio quer à chegada.

 A 8ª tirada da prova acabou por ser, por motivos de ordem variada uma etapa bastante animada. Tal animação, deveu-se em primeiro lugar ao facto da organização ter colocado logo no prelúdio da mesma duas exigentes contagens de 2ª categoria, contagens que haveriam de estilhaçar por completo o vasto pelotão que até aí seguia compacto. Com o pelotão já bastante seleccionado num grupo de 35 corredores, foram 6 os “bem classificados” (4 a 21 segundos da liderança; outro a 18 segundos) que decidiram colocar um problema adicionar à formação do líder, formação que já estava ciente das dificuldades que certamente teria para manter a camisola amarela no tronco de Mosca.

De entre os 6 ciclistas que viriam a constituir a fuga do dia, Jai Hindley (Michelton Scott) era o mais bem posicionado na geral, partindo para a tirada na 12ª posição a 18 segundos de Mosca. A 21 segundos do italiano encontravam-se o ucraniano Andriy Vasiliuk (Kolss), o suíço Patrick Schelling (chefe-de-fila da austríaca Team Voralberg para a prova chinesa), o chinês Jienpeng Lin (Heng), e o moldavo-romeno Serghei Tvetcov da Jelly Belly. O corredor da selecção suíça que se apresentou na ilha de Hainan Martin Schnappi completava o sexteto que a meio da tirada chegou a possuir 2 minutos e meio de vantagem para o grupo reduzido de perseguição que se formou lá atrás.

A Willier Triestina conseguiu porém resistir ao abalo inicial provocado pelas montanhas. Jacopo Mosca esteve sempre bem acompanhado por 3 colegas de equipa ao longo da etapa. A formação italiana haveria de partilhar o palco de perseguição com a Bardiani e com a Monkey Town, equipa que apostou forte na perseguição aos fugitivos para criar o melhor cenário possível à chegada para o seu homem forte Marco Zanotti.

Enquanto que cá atrás, no 2º grupo, o ritmo de corrida foi aumentando de forma gradual, no grupo em fuga, reinava a harmonia no sexteto em fuga. Com uma rendição exemplar verificada entre todos os seus elementos até ao sprint intermédio estacionado pela organização a 33 km da meta, sprint que viria a ser conquistado por Vasiliuk, foi aí que o cenário de corrida foi substancialmente alterado. Com meia dúzia de unidades empregues nos esforços de perseguição, à Willier interessava anular a fuga para impedir a perda da liderança e à Bardiani, equipa que no dia anterior tinha dito adeus às suas pretensões no que à geral concerne quando viu o seu chefe-de-fila Edoardo Zardini perder 1:34m para Jacopo Mosca, interessava chegar à frente da corrida para lançar Marco Maronese nos metros finais.

A fuga viria a desmembrar-se uns km mais à frente quando o romeno-moldavo, ciclista que assenta a sua especialidade no departamento de contra-relógio decidiu sair do grupo, arrastando consigo Patrick Schelling da Voralberg, ciclista que aos 27 anos, cumpre a sua segunda época na equipa austríaca, depois de ter realizado 3 anos muito interessantes ao serviço da extinta IAM Cyling. Depois de um período em que Tvetcov conseguiu impor um ritmo que não permitiu a colagem a Schelling, o corredor de leste permitiria a chegada do corredor suíço para realizar uma preciosa junção de esforços para os quilómetros finais.

Sem grandes ajudas por parte de outras equipas, coube às italianas anular o perigo que perniciosamente se instalou na dianteira com cerca de 40 segundos de avanço, vantagem que permitia a Schelling ascender virtualmente à liderança da prova. Os dois só seriam alcançados à entrada para os últimos 5 km, altura em que várias das formações que passaram grande parte da etapa “à mama” do trabalho desenvolvido pelas formações transalpinas, decidiram subir no grupo para acelerar o ritmo de corrida.

Os últimos 5 km foram de imensa batalha pela dianteira do pelotão. A Delko Marseille, formação que face à ausência do seu sprinter Martin Laas, apostou no letão Emils Liepins para a vitória de etapa, a Kolss, a Monkey Town e a Isowhey (comandada pelo músculo do seu mais virtuoso gregário, o campeão neozelandês Joseph Cooper) trataram de subir no grupo para poderem ombrear pela dianteira do pelotão. À entrada para o último km, a liderança do pelotão era partilhada pela Isowhey e pela Jelly Belly pro Maxxis, facto que não impediu Zanotti e Liepins de lançar um sprint fracticida, roda-a-roda que só foi decidido na última volta ao carreto a favor do corredor da formação da formação holandesa Monkey Town.

Como Kononenko (Kolss – 5º classificado) não bonificou qualquer segundo à chegada, o 6º lugar alcançado por Jacopo Mosca permitiu-lhe manter a liderança da prova com os mesmos 3 e 8 segundos de vantagem verificados à partida para a tirada sobre os seus principais rivais. Os 10 segundos de bonificação somados por Zanotti fizeram ascender o italiano na geral até à 4ª posição a 11 segundos do corredor da Willier Triestina.

Joe Cooper alcança a última vitória da temporada de 2017. Jacopo Mosca obtém a sua primeira vitória da carreira numa prova por etapas. 

Os últimos e electrizantes 15 km do Tour de Hainan encerraram em beleza uma fantástica temporada, a primeira na qual decidi partilhar com o mundo toda a minha paixão pela modalidade e todos os conhecimentos que ao longo de anos fui adquirindo em relação à mesma. Os últimos suspiros da prova chinesa não podiam ter pintado um melhor retrato dos valores desta modalidade: uma prova de superação, de ataque e contra-ataque, de espírito de combatividade, de resistência, de sofrimento e de resiliência, no qual cada um tenta lutar com as armas que possui pela sua carreira e cada equipa procura, dentro do seu colectivo, encontrar as sinergias necessárias para cumprir os objectivos individuais e colectivos que são traçados pela sua sua estrutura técnica e directiva.

À semelhança do que veio a acontecer nas restantes etapas da prova, o dia começou com a saída de uma fuga composta por 4 elementos que não colocavam em perigo a liderança de Jacopo Mosca. Entre os ciclistas que se propuseram a tentar dar uma alegria às suas equipas esteve o canadiano Alexis Cartier, chefe-de-fila da HR Block. Cartier, corredor que ainda há bem pouco tempo correu a Volta a Portugal ao serviço da formação daquele país da América do Norte, foi indiscutivelmente uma das figuras da prova pela sua combatividade, tendo saído por 4 ocasiões em fuga. No entanto, pese embora os esforços empregues em prol da sua felicidade na prova, o canadiano voltou a não ser feliz.

Ao contrário do que se verificou nas etapas anteriores, os carrascos de Cartier não foram os corredores da formação do líder. Na aproximação à última contagem de montanha da prova, uma curtíssima mas explosiva 4ª categoria, os comandados da Willier Triestina, séquito que até ali tinha passado grande parte da tirada na frente do pelotão para controlar o tempo de vantagem averbado pelo grupo em fuga, decidiram jogar com a psique (e até com o facto de algumas das equipas presentes não terem alcançado os objectivos a que se propuseram no início da prova) dos adversários, retirando-se da frente do pelotão. A retirada em fuga dos italianos deveu-se a vários objectivos de índole táctica e estratégica. Estando os fugitivos com 40 segundos de vantagem a 27 km da meta, a formação italiana tentou em primeiríssimo lugar jogar com os objectivos das equipas que ainda não tinham conseguido conquistar qualquer etapa da prova, caso da ucraniana Kolss ou da francesa Delko Marseille. Ao retirar-se da frente do pelotão, a Willier obrigou estas formações a terem que dispor várias unidades na frente para ainda poderem almejar o sonho de vir a conquistar uma vitória de etapa, procedimento que visava desgastá-las para eventualmente capitalizar nos km finais, km´s onde certamente haveria uma maior frescura nas pernas dos seus corredores para lançar o seu sprinter para a 6ª vitória de etapa na prova, anulando portanto as possibilidades da etapa vir a ser conquistada por um dos rivais de Mosca. Em segundo lugar, a formação italiana também visava a manutenção do status alcançado por Jacopo Mosca. Ao retirar-se da frente, quis a formação transalpina poupar as pernas para qualquer ataque que pudesse vir a realizar-se nos km´s finais por qualquer um dos ciclistas que ainda mantinham pretensões à geral.

A verdade é que esses ataques existiram. Em duas ocasiões, Marc de Maar, ciclista que partiu para a etapa na 4ª posição a 8 segundos do líder, aproveitou curtos segmentos de subida para colocar o líder entre a espada e a parede. Nos 2 ataques realizados pelo holandês, Mosca, ciclista que entretanto tinha sido deixado algo desapoiado na frente pela sua cansada formação, formação que acusou claramente nesta última tirada a fadiga acumulada ao longo da prova, não deu abébias ao antigo ciclista da Rabobank. A Delko Marseille também testou o líder com o ataque de Emils Liepins. À partida para a tirada, o ciclista letão encontrava-se a 17 segundos da liderança da prova.

A formação francesa tentou jogar com a classificação do ciclista quando o colocou ao ataque conjuntamente com o basco Mikel Ariste da Monkey Town, na sequência do fulminante ataque de Joseph Cooper, o homem que viria a conquistar heroicamente a etapa no seu epílogo.

Depois de uma semana de trabalho árdua e algo inglória para o corredor neozelandês  da Isowhey, ciclista que deixou tudo no campo de batalha em prol do principal objectivo almejado pela sua formação, a vitória numa etapa, o seu director desportivo decidiu premiar a sua valentia com a possibilidade de tentar a sua sorte na tirada. Em boa-hora pode o dito tomar essa decisão, dado o desfecho que viria a acontecer na ponta final da tirada. Aproveitando um período de confusão nas cabeças de Ariste e Liepins (ao invés de mover uma imediata perseguição, os dois corredores ficaram agarrados a uma estéril discussão), numa fase da prova em que os 3 da frente e alguns homens no pelotão se atacavam e contra-atacavam sem piedade, Cooper saiu à procura da felicidade e conquistou-a, não obstante os esforços que foram desenvolvidos nos metros finais pela calculista Delko Marseille para o alcançar. A vontade Cooper acabou por penalizar a estratégia de corrida calculista empregue pela formação francesa ao longo da extensa e intensa prova chinesa, prova em que os franceses optaram sempre por viver “à mama” do trabalho desenvolvido pela Willier Triestina, aparecendo apenas na frente na fase final das tiradas para lançar os seus dois finalizadores.

Jacopo Mosca alcançou assim a sua primeira vitória da carreira em provas por etapas.

Como já fiz questão de referir várias vezes, a época de estrada da temporada de 2017 terminou aqui. No final de Janeiro, voltarei cheio de energia para seguir a temporada de 2018, desejando que a dita seja tão ou mais interessante do que foi a do presente ano.

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