4 breves notas reflexivas sobre o amigável realizado em Viseu frente à Arábia Saudita


  1. São várias as razões que me levam a não atribuir grande significado ou grande importância aos amigáveis que são realizados entre selecções. A mais importante de todas reside obviamente na natureza destes jogos. Não existindo nestes desafios, o condicionamento próprio do contexto competitivo, ou seja, o estímulo que obriga os atletas a ter que oferecer ao jogo a melhor reacção e a maior entrega possível  para vencer determinado adversário e para tirar vantagens dessa mesma vitória, grande parte dos jogos amigáveis acabam por ser aborrecidos, pese embora o facto de conseguir reconhecer que em determinados casos, possam existir amigáveis (partidas, competições) que possuem um “modelo ficcionado” aproximado à competição e que em  algumas destas partidas, os jogadores com menor probabilidade de virem a figurar na convocatória do seu seleccionador para um compromisso de de índole competitiva tentem, também por vários motivos, fazer render o seu peixe. Uma convocatória para um jogo amigável é a oportunidade ideal para determinado jogador se inserir nas rotinas de um grupo de trabalho, nas dinâmicas de determinado modelo de jogo idealizado e no lote de escolhas à disposição de um seleccionador para os jogos oficiais. Por outro lado, a internacionalização pela sua selecção é para qualquer jogador algo que lhe valoriza a carreira, um verdadeiro selo de qualidade que o torna mais apelativo (e uma escolha de menor risco) aos olhos dos dirigentes que o cobiçam. No Rugby por exemplo, o universalmente denominado e codificado (na linguagem da modalidade)  “test match” é um jogo com um carisma bem diferente do amigável realizado no futebol. Ao contrário do futebol, poucos são os intervenientes (treinadores, jogadores) que não atribuem ao test match uma importância bem próxima de um jogo oficial. Em primeiro lugar, tal deve-se à cultura sui géneris da própria modalidade. Se perguntarem a um adepto francês se ele gosta de perder um test contra a selecção inglesa, o dito certamente responderá que não gosta de perder nem a feijões contra os beefs. Se perguntarem a um jogador neozelandês se gosta de perder uma Bledisloe contra os australianos, a resposta será em tudo idêntica. Se perguntarem a um seleccionador se viu coisas positivas nos 4 tests, ele responderá certamente que a sua equipa ainda terá muito trabalho pela frente para se apresentar em boas condições nas grandes competições internacionais porque não cumpriu nenhum dos objectivos a que se propôs. Se perguntarem a um jogador se as vitórias tem peso diferente, qualquer jogador de rugby dirá que uma vitória é sempre uma vitória, indiferentemente dos contextos em que é obtida. Uma vitória no Rugby é um passo para a Glória. Tudo no fundo se resume a isso: à cultura da modalidade (uma cultura de honra, de vitória, de espírito de batalha, de compromisso, de integridade, de respeito, de serviço, de sacrifício) e à criação de sinergias dentro de um grupo de trabalho, sinergias que serão obviamente, a todos os níveis, muito válidas para o futuro. No Rugby, a World Rugby abre anualmente duas janelas para testes: uma em Junho (a Janela que simboliza o encerramento da temporada europeia), janela na qual por norma, as equipas europeias partem em digressão até ao Hemisfério Sul, e outra, em Novembro, que simboliza o final de temporada do Hemisfério Sul, janela (que se iniciou hoje) na qual as selecções do Hemisfério Sul partem em digressão para a Europa. Em ambas, os seleccionadores nacionais optam por levar consigo uma data de jogadores que em condições normais não tem lugar nas suas escolhas, misturados entre escolhas habituais ou os chamados intocáveis para os testar. Tal opção não se deve apenas para os testar num contexto desportivo aproximado ao da competição mas também para testar as suas aptidões sociais. E isto acontece porque, os estágios de preparação para as digressões e as ditas podem durar 2\3 meses, ou seja, uma duração aproximada aos estágios de preparação para o Mundial. São portanto 2 meses nos quais o atleta vai estar longe de casa, factor que pode efectivamente diminui-lo anímicamente, afectando-lhe o rendimento. Nenhum seleccionador irá decerto querer levar ao Mundial um jogador que não é capaz de extrair o seu melhor desempenho porque está mentalmente afectado por uma situação exterior ao contexto competitivo. No futebol raramente vemos esta cultura nos amigáveis. As janelas internacionais duram, no máximo, 7 ou 8 dias. Grande parte dos jogadores entra de forma receosa nas partidas, ou seja, com medo de se lesionar para não prejudicar a sua carreira no clube. Pela vontade de tantos outros, atletas que passam semanas fora de casa, que não passam o tempo que deveriam passar com esposas e filhos, nem punham os pés neste tipo de jogos.
  2. Como referi no ponto anterior, poucos são os amigáveis que me despertem interesse ou que me levem a atribuir-lhe grande interesse. Se um amigável realizado entre selecções de topo como o Inglaterra vs Alemanha não foi sedutor o suficiente para lhe gabar uma única imagem, compreenderão o diminuto interesse que possuo neste tipo de jogos, interesse que é antagónico por exemplo em relação aos amigáveis de clubes, por motivos completamente distintos. Vejo, ou tento ver, todos os amigáveis realizados pela selecção portuguesa. E vejo-os por um ou dois simples leitmotifs para compreender as sinergias que se criam, para compreender a valência dos jogadores novos num determinado modelo de jogo em andamento e para poder entender as escolhas que um seleccionador realiza no futuro.
  3. O jogo de ontem, disputado no Fontelo (Viseu), foi organizado com o intuito de poder aspirar a constituir-se, em simultâneo, como um pluridimensional momento de solidariedade e reconciliação nacional. Se por um lado, os mais recentes episódios da vida nacional, levaram a FPF a equacionar os dois jogos amigáveis marcados para o presente mês para as capitais de duas das várias regiões afectadas pelos incêndios deste verão\início de outono para prestar uma homenagem sentida às vítimas das duas tragédias e para, proceder a uma angariação de fundos passível de financiar a reconstrução de casas e fomentar o trabalho dos bombeiros das ditas regiões, cumprindo em teoria o papel de responsabilidade social que também assiste à dita Instituição, por outro lado, a Federação também aproveitou este momento para usar a selecção nacional como uma ferramenta de coesão social, levando-a até ao esquecido “farócentronordeste” – um pedaço de terra de montes e vales que é tantas vezes esquecido e até votado ao ostracismo pelos nossos governantes. No caso de Viseu, a cidade não recebe com maior regularidade da selecção nacional A porque não tem uma infraestrutura adequada para o efeito. O Estádio do Fontelo está decadente e se assim o está deve em parte à visão acertada de um dos seus anteriores presidentes de Câmara. Em boa hora, Fernando Ruas não optou pelo endividamento da Câmara em prol de um evento efémero que poucas contrapartidas traria ao tecido económico da região a curto e médio prazo e até mesmo nenhum a longo prazo. Nem os clubes de Viseu possuem “massas associativas” que justifiquem tais obras, nem na altura possuíam até hipóteses para colocar um clube na 1ª divisão, visto que essa altura (2000, 2001) coincidiu precisamente com o início do processo de bancarrota, falência e extinção do antigo Clube Académico de Futebol, o actual Académico de Viseu Futebol Clube, formação que como se sabe investiu fortemente para subir na presente temporada à 1ª Liga, feito que obrigará certamente a CMV a ter que investir seriamente na remodelação do Estádio do Fontelo nos próximos meses. A transmissão de ontem (dos pormenores do Estádio) não passou essa ideia aos telespectadores porque não filmou os vidros partidos na fachada, não filmou a lastimável qualidade do seu relvado e mascarou uma bancada inútil (não tem cadeiras; penso até que não tem a sua segurança devidamente aprovada nas entidades competentes) através da filmagem sobre a bancada amovível que foi colocada pela FPF num dos topos do estádio. A câmara de Viseu deverá ser certamente uma das câmaras municipais que mais fundos atribui ao desporto do país. Posso até afiançar que a algumas colectividades do concelho, a CMV dá dinheiro a mais, financiando a rodos a ambição desmedida de alguns dirigentes que se servem das Instituições para aspirar a algo mais para as suas vidas. Falo-vos portanto daquela modalidade tão típica do ser lusitano: o alpinismo social. A ginástica de trampolim que é oferecida por algumas colectividades aos seus dirigentes. Ou os dirigentes que fazem das colectividades que dirigem um mero trampolim. A ideia da FPF foi boa, mas não foi suficientemente sedutora para que eu marcasse presença no estádio. E não, ao contrário de milhares de viseenses que trataram de vender por 5 paus o seu bilhete assim que souberam da não convocação do Ronaldo, descurando todo o cariz social do evento, eu não fui porque não acredito verdadeiramente nestas acções de solidariedade da treta. Até que uma casa de uma família afectada seja efectivamente recuperada com o dinheiro angariado no jogo ou nas chamadas de valor acrescentado, ou que um filho de uma vítima possa ser vestido da cabeça aos pés com recurso aos fundos angariados, eu só não acredito nos objectivos deste tipo de acções como até prefiro ir entregar directamente o meu dinheiro às vítimas ou aos destinatários. Pelo menos sei que ao entregar directamente, o meu donativo não irá ser taxado com o respectivo IVA, nem será extraviado pelo caminho. Os viseenses não pensam assim. Maior parte dos que se encontraram no estádio, queriam ver a todo o custo Cristiano Ronaldo.
  4. Do jogo propriamente dito, creio que foi uma boa oportunidade para Fernando Santos testar a inversão nítida ao modelo de jogo que está paulatinamente a trabalhar com os jogadores desde a última janela internacional, ou melhor, desde os dias que antecederam o jogo realizado contra a Suíça, e para testar os estreantes ou os jogadores que fez regressar à sua convocatória. Da operacionalização das nuances em relação ao modelo de jogo padronizado desta selecção, ao modelo clássico de jogo exterior e de abordagem à área única e exclusivamente a partir de cruzamentos, pareceu-me que está a sair algo de mais positivo, de mais estético mas ainda com eficácia diminuta. Do jogo contra os sauditas selecção que em nada testou a Portuguesa no capítulo da transição defensiva e da organização defensiva, gostei particularmente de alguns processos de jogo que privilegiaram a entrada da bola em zonas interiores entre linhas e das dinâmicas apresentadas pelos 3 jogadores que jogaram atrás de André Silva (Bernardo Silva, Gonçalo Guedes e João Mário; constante mobilidade entre linhas, procurando oferecer a Danilo e a Manuel Fernandes linhas de passe no interior do bloco adversário, sem descurar por completo o jogo exterior; trocas posicionais constantes para confundir a defesa adversária; em diversas os 3 chegaram a estar inseridos em zonas interiores do terreno em simultâneo, aparecendo soltos de marcação para se enquadrar com a baliza no momento da recepção; boas combinações; boa capacidade de aceleração de jogo, em especial, de Gonçalo Guedes, jogador que também traz uma lufada de ar fresco a esta selecção no capítulo dos remates de meia distância; maior harmonia entre o jogo de interior e o jogo de exterior), gostei da capacidade de organização de Danilo (arriscando mais no passe longo; procurando ser um médio que acrescenta metros à equipa a partir do passe), da sua leitura de jogo quer no capítulo da organização ofensiva (procurando preferencialmente servir a entrada de companheiros em espaços vazios) como no capítulo da transição defensiva, fase no qual o médio é extraordinariamente efectivo porque ataca bem as segundas bolas, e lê bem as intenções adversárias para ser rápido a cair sobre um dos destinatários do esférico de maneira a matar a sua transição. Não desgostei de Kevin Rodrigues, apesar de ter visto recentemente alguns jogos nos quais o lateral esquerdo me desagradou por timidez (ou seja, por não subir tanto no terreno, por ser um lateral de pouca propensão defensiva), e não gostei absolutamente do excessivo individualismo de Gelson na segunda parte. Aquela vontade de fazer tudo sozinho redundou numa exibição em que o jogador do Sporting nada fez para além de complicar o jogo da equipa e de dar razão a todos aqueles que o caracterizam como um jogador que define mal as suas acções. E a verdade é que sou obrigado a dar razão aos seus argumentos.
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