Bloco de Notas da História #37 – Obrigado e até sempre Grande Regista! (1ª parte)


Definição de “Regista” –  Segundo os teóricos do pensamento futebolístico da escola italiana, um Regista é um médio construtor de jogo recuado criativo (um dos dois criativos de uma equipa; o outro é o trequartista, o jogador que joga nas costas dos avançados; vulgo o nosso 10 ou o engancm he argentino) que actua no espaço existente entre os defesas e os médios interiores com a missão específica de garantir à equipa qualidade e progressão na saída de jogo ou na fase de construção através de uma apurada e eficaz capacidade de passe e da sua visão estratégica, visão que lhe permite, a partir da sua posição recuada no terreno, tentar encontrar, em cada acção, a melhor forma para a equipa invadir os espaços adversários. 

luis monti

Luis Monti em 1925 com a camisola do San Lorenzo de Almagro

A História e a Evolução da função – É comummente aceite entre os historiadores que ao longo de décadas tem estudado a evolução do jogo que o médio construtor recuado nasceu na década de 10, numa fase de evolução do mesmo em que o sistema táctico mais utilizado pelos treinadores era o 2x3x5. Não se sabe porém ao certo se o recuo no terreno de um dos médios se deu por obra do pensamento inglês ou do pensamento de Vittorio Pozzo, o afamado técnico que conduziu a selecção italiana à vitória nos Campeonatos do Mundo de 1934 e 1938. Se por um lado, alguns historiadores afirmam que Charlie Roberts (Manchester United 1904-1913) foi o primeiro grande regista da história ou seja o primeiro grande jogador capaz de colocar, na primeira fase de construção, através do recurso ao passe longo, a bola nos pés dos companheiros que actuavam no último terço adversário, outros insistem que a selecção olímpica italiana orientada por Pozzo nas Olímpiadas de Estocolmo em 1912 (Pozzo só viria a assumir o comando da Squadra Azurra em 1929) já actuava com um médio com estas características, sendo o regista um jogador que, actuando ligeiramente à frente dos 3 defesas, era o responsável pela organização do jogo ofensivo, fazendo-o quer através do recurso ao passe curto quer através do recurso ao passe à distância. Nesta questão ainda há quem defenda que Pozzo passou a usar com mais regularidade um construtor de jogo recuado no seu modelo a partir do momento em que viu Roberts jogar em Manchester, durante uma das suas incursões ao futebol britânico.

A verdade é que a selecção italiana que conquistou os 2 mundiais na década de 30, actuou na edição de 1934 com um construtor de jogo recuado (segundo a linguagem de Pozzo: um “centromediano”), de seu nome Luisito Monti. Monti é uma das grandes referências do futebol das décadas de 20 e de 30. Nascido a 15 de Maio de 1901 em Buenos Aires, o argentino, jogador que se destacou ao serviço do San Lorenzo, clube que o catapultou para a Albiceleste, selecção pela qual alinhou por 16 vezes entre os anos de 1924 e 1931, chegou a Itália, mais concretamente à Juventus em 1931 numa fase da vida do futebol argentino em que os jogadores ainda detinham um estatuto relativamente próximo do amadorismo. As melhores condições de vida oferecidas pelos dirigentes do emblema de Turim, levaram-no a rumar a Itália e a aceitar no mesmo ano a possibilidade de envergar a camisola da selecção italiana, visto que naquela época, não existia nenhuma restrição de índole legal ou regulamentar que impedisse um jogador que já tinha actuado por uma selecção de representar outra se assim o desejasse. Em 8 temporadas, Monti alinhou 225 vezes pela Juve e 18 pela Squadra Azzurra, conquistando o campeonato do mundo de 1934. No esquema táctico inovador de Pozzo (2x3x2x3) a Monti, um jogador cuja história reza como um fantástico passador à distância,  cabia em simultâneo o papel de marcar de perto o avançado centro da formação contrária e de projectar e organizar as fases ofensivas da equipa através do passe longo, procurando servir os homens da frente nos momentos de saída de jogo, construção ou recuperação.

Luis Suarez 2

A tradição iniciada por Pozzo no futebol italiano viria a sofrer uma alteração evolutiva nos anos 50 e 60 com Helenio Herrera. Essa evolução haveria de iniciar-se em 1956, ano em que o histórico treinador assumiu o comando técnico do Barcelona, clube em que desde 1954 já jogava o galego doravante designado (para não criar qualquer espécie de confusão com o uruguaio Luís Suárez) Luis Suárez Miramonte (na imagem, ao serviço do Inter nos anos 60), atleta que viria a ser adaptado ao que actualmente designamos como Regista, ou seja, um jogador que actuava ligeiramente à frente do quarteto defensivo (1×3, com uso de líbero, atrás dos 3 defesas, Facchetti mais descaído para a esquerda, actuava como uma espécie de ala esquerdo; Tarcísio Burgnich actuava como um híbrido, jogando como central mais descaído para a direita) e, ligeiramente recuado em relação à linha subsequente. A Herrera e a Suárez são atribuídas várias inovações em termos de processos específicos de jogo nas fases ofensivas. Desprovido de tarefas defensivas, tarefas que competiam ao trinco Gianfranco Bedin, a Suárez, no Inter de Herrera, competia lançar o ataque de acordo com a disposição adversária no momento em que este recebia a posse, procurando em cada acção, desbloquear a mesma da forma mais inteligente possível. Quero portanto com isto dizer que o médio não se limitava no momento em que recebia o esférico a ler o contexto que lhe aparecia defronte a meio-campo ou no último terço adversário para fomentar única e exclusivamente a acção ofensiva da sua equipa através da colocação de um passe nos pés de um jogador que se conseguisse soltar das marcações instituídas. Helenio Herrera incentiva o médio a cometer desequilíbrios nas defesas adversárias através do transporte de bola sempre que estas lhe oferecessem, por descuido do momento ou por opção do campo táctico, espaço para progredir ou para penetrar, acção que obviamente dificultava a sua intervenção visto que a entrada do médio num espaço vazio concedido pela defesa adversária obrigava os “defensores” a ter que realizar deslocamentos para sair na pressão, abrindo portanto novos espaços para a equipa circular e invadir, por conseguinte, os espaços adversários.

Na segunda metade da década de 60, a posição viria a cair em desuso com o advento do 4-4-2 clássico, do 4-3-3 britânico e do 4-2-4, sistemas tácticos que requeriam para a sua operacionalização de médios dotados de outro tipo de funções no terreno de jogo. Pode-se dizer que nesta fase a utilização de um médio construtor de jogo recuado era apenas útil aos sistemas e modelos de jogo idealizados por alguns técnicos italianos e sul-americanos, técnicos que se mantinham arreigados aos sistemas tácticos 5-3-2 (ou 3-5-2 conforme a ofensividade pretendida para os dois alas), 1x3x2x4 (o sistema mais utilizado por Herrera nos gloriosos anos do seu Inter de Milão) ou 5x4x1, sistema que o mestre também veio a por em marcha no clube de Milão nos últimos anos. A forma de pensar as acções dos médios centros alterava-se para a éra dos box-to-box midfielders ou seja, dos médios completos, cujo raio de acção e influência, de área-a-área, varrendo de lés a lés o corredor central do terreno, forçava os médios a ter que dividir em partes iguais a sua intervenção nos processos defensivos e ofensivos da equipa. Em termos de processos específicos de jogo, os médios box-to-box tem várias funções em campo:

  • Cabe-lhes organizar objectivamente as fases ofensivas da equipa, fomentando a frente de ataque (extremos, médios ofensivos, alas, extremos ou avançados, consoante a disposição táctica da equipa).
  • Cabe-lhes aparecer em zona de finalização, no interior da área ou à sua entrada, na meia-lua sempre que tais acções venham a ser providas de utilidade para os intentos dos processos de jogo operacionalizados pelo treinador. Acresce referir para este efeito, que um médio box-to-box deverá ser um jogador dotado de uma boa capacidade de finalização e\ou de remate de meia distância.
  • Quando a equipa contrária inicia a transição para o ataque devem ser jogadores capazes de pressionar o jogador que cai na sua zona com intensidade e agressividade, desarmando o adversário, de forma a poderem recuperar a bola para armar o ataque ou uma acção de contra-ataque.
  • Em termos de organização defensiva quando são chamados a defender no interior do seu meio-campo, os médios box-to-box devem preencher e fechar (o acesso ao jogo interior) os espaços centrais à frente dos defesas centrais, de maneiraa impossibilitar aos adversários a criação de lances de perigo para a sua baliza.

Grande em tudo! O homem que reavivou o conceito do Regista!

Soccer - Italian Serie A - AC Milan v Catania - Giuseppe Meazza

Quem pode ver, como eu vi, os primeiros anos da carreira do jogador, em particular, os primeiros anos ao serviço do Inter, clube que em 1998 decidiu compensar o fantástico início de carreira realizado pelo jogador ao serviço do clube da sua cidade natal, o Brescia, cidade na qual, os Pirlo são segundo o que foi descoberto há uns anos pela imprensa italiana, detentores de uma pequena unidade de produção siderúrgica, percebeu imediatamente que havia um talento monstruoso naquele jogador não só pelo toque açucarado com que este tratava a bola, mantendo-a em cada acção, restrita, coladinha que nem manteiga à forma dócil dos seus pés qual pasteleiro que unta a sua forma de margarina antes de proceder à colocação do respectivo doce de ovos, mas também pela fabulosa qualidade de passe e visão de jogo demonstrada pelo jovem internacional sub-21. No entanto, nos primeiros anos do Inter, o atleta não teve as oportunidades que certamente desejou, e o papel que lhe foi atribuído em campo pelos vários treinadores que o orientaram também não foi como pudemos constatar uns anos mais tarde, o melhor. Os rossoneri só haveriam de compreender o erro que tinham cometido com aquele jogador quando, uns anos mais tarde o viram ser promovido pelo Milan à posição de maestro do seu futebol.

pirlo 2

Quando Andrea Pirlo chegou ao Inter em 1998, o clube, adquirido por Massimo Moratti uns anos antes, vivia uma espécie de novo recomeço. Os anos 90 foram anos de imensa desilusão para os adeptos da formação nerazurri. Saídos de uma sequência vitoriosa com Giovanni Trappattoni, o clube atingiu o seu pico mais baixo em 1995, altura em que Massimo Moratti, o poderoso dono da Saras Group, a holding que controlava as maiores empresas dos sectores petrolífero e petroquímico (Sarlux) do país, decidiu avançar para a compra da totalidade das acções do clube. Os primeiros anos de Moratti na presidência do clube foram efectivamente anos muito intensos, muito nervosos, fomentados como dizem os brasileiros “à lei da farta grana” que o empresário tinha para oferecer ao clube. Logo no seu discurso de tomada de posse, Moratti afirmou que para o Inter, o seu clube do coração “não desejava menos do que o melhor que o mercado pudesse oferecer em cada posição” (Moratti, 1995). Os 1500 milhões de dólares de fortuna que o empresário possuía nesse ano, segundo a lista da Forbes, dariam certamente para construir uma equipa vencedora que pudesse ao mesmo tempo, recompensar os capitais investidos sob a forma de dividendos. Moratti queria encontrar o ouro negro no Meazza. Essa era no fundo a ideia de Moratti: vencer e enriquecer, contratando as melhores estrelas do futebol mundial.

A estratégia da política de contratações do clube foi una, embora tenha sido, como a história a veio a provar, manifestamente errada. O Inter foi nesses anos para nós, crianças, uma poderosa máquina de sonhos e a verdade é que recuando até 1997, nós optávamos mais facilmente por uma camisola do Inter do que por uma camisola de outro clube que nos viessema oferecer. Optávamos também mais facilmente por ver Baggio ou Ronaldo, mesmo se a vitória só pudesse alavancar a equipa até ao 6º lugar do campeonato. O Inter apresentava-se com aquela forma redondinha aos nossos olhos, apetecível, sedutora, galática, demasiado galáctica. 20′ anos decorridos, sinto que tenho actualmente mais maturidade do que tinha então para perceber que no futebol nem sempre triunfam os nomes ou o bom futebol praticado por uma equipa, mas, a equipa que reunir os processos colectivos mais eficazes e por vezes, uma das melhores individualidades do planeta. Há 20 anos atrás acreditava que para ser campeã bastava à equipa ter um Pagliuca na baliza, um Zanetti na direita, um Youri Djorkaeff estacionado à frente da área ou até no seu interior a estoirar para o fundo das redes cada segunda bola que lhe aparecia ou a bicicletar cada cruzamento, um Diego Simeone a dar pau de criar bicho a meio-campo, um Paulo Sousa a pressionar que nem um galgo e a gerir os tempos de jogo, um frenético Zamorano a fugir aos centrais para estilhaçar aqueles passes em profundidade ou um Ronaldo, jogador que um ano antes nos tinha colocado a todos de olhos em bico naqueles fantásticos golos apontados pelo Barcelona. Quem não se lembra daqule monumental furacão que passou por Compostela?

Hoje apercebi-me que jamais poderia aquela equipa ganhar títulos. Em primeiro lugar porque a sua defesa era por demais miserável. Quem não se recorda do exótico Taribo West? O que lhe sobrava em estilo, faltava-lhe em agressividade e posicionamento. Em segundo lugar porque o investimento realizado pela direcção fazia aumentar em demasia as expectativas dos tiffosi nerazurri. Moratti transparecia a ideia, aos adeptos, que o Inter não estava interessado em fazer, comprava tudo feito. Contudo, é importante referir para vincar este ponto que na altura vivámos os anos loucos do futebol italiano: a cada derrota, centenas deles viajavam em magote até ao centro de estágios, cheios de “vontade para amanhar os jogadores vivos” à saída do balneário. Em Parma, os adeptos do Parma, apedrejavam os jogadores no campo de treino. Em Roma, os adeptos da Lazio chegavam a inclusive a ameaçar vários jogadores de morte. Em Firenze, Battistuta chegou a perguntar, numa conferência de imprensa, se “precisava de comprar um blindado” para chegar ao campo de treinos. Em terceiro lugar, se exceptuarmos Paulo Sousa, Moratti tinha comprado todos os maiores individualistas (melhor, os jogadores mais desprovidos do sentido colectivo do jogo) que o mercado tinha para oferecer. Todos queriam jogar, todos queriam fabricar números para vender o seu ego e o seu legado. Todos os treinadores que pisaram aquele Inter tiveram muitas dificuldades para gerir esses mesmos egos porque todos os jogadores queriam obviamente jogar, rematar, marcar, fintar. Em quarto lugar, o investimento realizado pelo presidente não dava tempo para os treinadores assentarem as suas ideias de jogo. A cada sequência de derrotas, a rua era o destino mais certo para quem perdesse, treinador e até mesmo jogador. A espiral de contratações aumentava. Ronaldo não satisfazia. Era preciso mandar vir Vieri. Cauet não satisfazia. Era preciso mandava vir Baggio. Baggio estava velho e cansado. Mande-se vir Seedorf. Vieri não rendia o suficiente. Venha Hakan Sukur.

Para termos uma ideia, na primeira temporada de Pirlo, na pele de médio ofensivo, de um verdadeiro 10, no clube, Luigi Simone iniciou a época, dando lugar ao romeno Mircea Lucescu a meio da primeira volta. O romeno ficou meia dúzia de semanas até dar lugar a Luciano Castellini, treinador que assumiu os destinos por meia dúzia de dias até à chegada de Roy Hodgson. Hodgson ficou até ao final da temporada. O senhor que se seguia era Marcello Lippi. Lippi durou sensivelmente um ano até vir Marco Tardelli no final do ano de 2000. A nenhum treinador era dado suficiente espaço e tempo para trabalhar. Assim, era impossível conquistar o quer que fosse num futebol tão exigente.

Pirlo, o “perde bolas”, o individualista (não era mais do que o cúmulo a que estava reduzido o pensamento da equipa) rumava por empréstimo para a Reggiana e posteriormente para o Brescia, retornando à base sem previsão de regresso…

Um pensamento em “Bloco de Notas da História #37 – Obrigado e até sempre Grande Regista! (1ª parte)”

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