A maturidade vista à solta por aí num jogo de iniciados


Como consumidor diário de futebol, fui adquirindo ao longo das últimas 3 décadas, uma certeza absoluta: toda a gente gosta de acções individuais! O jogo é na sua génese e na sua essência um jogo de âmbito e de pensamento colectivo, um jogo em que, supostamente, e esta é efectivamente a hipocrisia da coisa, deveriam ganhar as equipas que apresentam o melhor colectivo ou pelo menos o colectivo mais bem trabalhado e mais solidário, ou seja, o colectivo mais bem preparado, nas várias dimensões do jogo, para fechar espaços espaços ao adversário, contrariar as suas estratégias de jogo, executar estratégias que permitam invadir os seus espaços e visar com eficácia a sua baliza. No futebol nem sempre vence o melhor colectivo podendo-se dizer que muitas vezes vence a equipa que possuir no seu seio as maiores individualidades ou, as individualidades mais eficazes. Para além de colectivo, o jogo também é, na sua essênca, um jogo de eficácia. Nos últimos anos pudemos assistir ao desenvolvimento de exemplos profundamente antagónicos: na minha modesta opinião, publicada aqui, o Real Madrid de Zidane funciona mal como colectivo (grassando uma organização defensiva que deixa a desejar e que acima de tudo revela pouco trabalho por parte do seu treinador) mas conquista troféus à conta das fenomenais exibições e da qualidade das suas enormes individualides. O Leicester de Claudio Ranieri poucas ou até mesmo nenhumas individualidades de topo tinha quando conquistou a Premier mas possuia um colectivo fantástico, solidário até à medula, eficaz na protecção da sua baliza, em suma, para me exprimir de forma correcta, bem orientado em 3 das 4 fases de jogo: na transição e na organização defensiva e na transição para o ataque.

O futebol é também na sua essência um jogo estratégico no qual um conjunto de jogadores, de unidades, de formiguinhas fabriqueiras tem como missão encontrar no seu jogo (nas suas valências e competências) o melhor e mais apurado leque de acções e opções em prol do desenvolvimento de uma forma (colectiva) de jogar. Eu compreendo todos aqueles que ao longo destes últimos anos vibram intensamente com as jogadas individuais de meia dúzia de jogadores. Embora reconheça que uma jogada individual só deve ser considerada como positiva quando resulta em golo, ou seja, quando gera um benefício em prol da equipa, compreendo todos aqueles que só vêem Messis, Ronaldos, Robbens, Neymares, Bales, e afins à frente. A acção individual é, quer queiramos quer não, indiferentemente de quem a pratica, o sal do jogo. O sal que transformou o futebol, um modesto jogo que começou a ser praticado nos campos anexos às fábricas inglesas no Século XIX pelos empregados das fábricas como, e tenho que dizer isto, uma forma do patronato manter a sua arraia miúda debaixo do seu controlo nas suas pausas (quem come um caldo de sopa e joga à bola, não tem tempo para falar mal do patrão ou para organizar-se de forma a derrubar o seu sistema não é? Pois é, como me compreende bem o povo português!), no magnífico e esplendoroso espectáculo que hoje conhecemos.

Porém, creio que são poucos aqueles (mais os espectadores do que os jogadores; embora creia que por mais minutos que passem em campo, muitos são os jogadores que nunca entenderão o jogo na perfeição) que conseguem perceber a importância de uma acção individual para a equipa e que conseguem compreender que uma acção individual lustrosa não tem que ser forçosamente uma acção individual resultante em golo, mas uma forma de lá chegar mais facilmente. O que uma acção individual lustrosa não deve ser é  uma acção que resulta em perda da bola porque a perda da bola desprove de sentido aquilo que deveria ser o guia orientador de uma acção individual: o alcance da melhor estratégia para invadir espaços adversários e conquistar vantagens. Uma acção individual (uma finta, um drible, uma chicana sobre uma dúzia de obstáculos) também pode ser uma acção libertadora proveitosa que auxilie a equipa a encontrar a melhor estratégia para chegar ao golo.

Aos 13 anos, o jovem Gonçalo Carvalho, atleta da equipa de sub-14 (1º ano; distrital) da equipa do Sporting já percebeu o sentido da coisa. Para além da técnica individual, técnica que lhe foi realçada justamente in loco pelo comentador da BTV, o jovem jogador revelou ter uma maturidade acima da média, quando, libertando-se de dois adversários, na saída do slalom, leu bem em poucos milésimos de segundo o contexto defensivo que se apresentava defronte, seguiu em drible até aos adversários mais próximos, manipulou-os com a sua acção e depois de manipulados os adversários, soltou no tempo certo para que o colega mais próximo pudesse virar o centro de jogo para o flanco esquerdo, flanco onde o seu lateral tinha efectivamente muito espaço para progredir e para abordar a área como abordou. O baixinho Gonçalo Carvalho foi gigante nesta acção. Não existem por aí muitos miúdos de 13 anos com esta qualidade na tomada de decisão, com este sentido de colectivo, com esta técnica individual e com esta capacidade de leitura de jogo. Fico à espera de mais Gonçalo!

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