Mike Brown – a elegância do gesto técnico de recepção no ar a um pontapé adversário.


A posição de fullback (embora a língua portuguesa disponha de uma tradução para a posição – defesa flanqueador -os portugueses prefiram utilizar com mais regularidade o termo francês “arrière”) parece a quem assiste a um jogo de rugby em função fácil e até cómoda de desempenhar por qualquer jogador em virtude da sua posição recuada no terreno de jogo e da aparente facilidade das acções que este tem de desempenhar em campo, mas não é de facto, uma posição nada fácil.

Qualquer fullback terá que ser um jogador tecnicamente e tacticamente completo, e inteligente na tomada de decisões. Sendo o “último defensor” da equipa, na chamada linha dos “3 de trás” (o defesa e os pontas) ao defesa flanqueador cabe a missão de coordenar a linha defensiva que defende à sua frente, aproveitando-se da sua posição privilegiada no terreno (posição que lhe confere uma visão ampla do terreno de jogo) para identificar furos na linha defesensiva (os furos que o adversário possa aproveitar para romper essa mesma linha, conquistando o que em rugby se chama por quebra ou ultrapassagem da linha de vantagem – a linha de vantagem é a a linha imaginária que define a entrada em território adversário, entrada que dificultará a intervenção da defesa por vários aspectos – inferioridade numérica, perda de qualidade posicional) e recomendar aos seus colegas a sua correcção, devendo também posicionar-se no terreno de forma a compensar uma eventual invasão “à mão, em marcha” do adversário no terreno da sua equipa, e encaixar com segurança as bolas que venham a ser pontapeadas para as as costas da linha defensiva pelos adversários.

Ao nível da tomada de decisão, um fullback tem que ser inteligente nas opções que toma quando é obrigado a participar no jogo pelo adversário ou até pelos seus companheiros em situação específicas do jogo. Imaginemos uma situação concreta: o adversário chuta para a frente à procura da corrida de um ponta. O fullback, bem posicionado, sai ao encalce daquela bola e intercepta-a. Cabe nesse momento ao fullback analisar rapidamente a situação para perceber qual é a acção que traz mais vantagens à sua equipa naquele momento concreto: se o ataque a um espaço (livre ou preenchido com um ou mais defensores) se a “limpeza de jogo” ou o avanço da equipa no terreno, jogando ao pé.

Tecnicamente, um fullback tem que ser um bom placador, visto que é o último defensor da equipa, tem que encaixar com segurança as bolas que lhe são enviadas pelo ar pelo adversário através do jogo ao pé, tem que desenvolver qualidades ao nível do pontapé (treinando o alcance do seu chuto), tem que ser um bom passador à distância (visto que quando recebe lá atrás nos seus 22 metros, pode ter que procurar o apoio mais próximo a uma distância considerável) e deve desenvolver todas as técnicas específicas que lhe permitam, individualmente fugir à tentativa de contacto adversário (linha de corrida, sidestep – finta com mudança de direcção, finta de passe, finta com rotação) ou colectivamente (por exemplo a dobra, combinação que já não é muito utilizada no Rugby de XV, ao contrário dos Sevens, variante onde a dobra é frequentemente utilizada).

Neste lance, extraído do test match realizado no sábado em Twickenham entre a selecção inglesa e a selecção argentina, o fullback inglês Mike Brown procedeu à recepção no ar de um pontapé adversário de acordo com os mais elementares factores chave da posição e do gesto técnico:

mike brown

No momento da realização do up and under por parte do formação adversário, Matías Landajo, Mike Brown sobe ligeiramente no terreno para se posicionar no local para o qual presumivelmente pode cair o esférico. A percepção do fullback está correcta.

mike brown 2.PNG

A referência do jogador é sempre a trajectória da bola e nunca o posicionamento adversário. Só assim o jogador poderá calcular com previsão o local exacto onde esta pode cair.

mike brown 3

No salto, o jogador eleva os braços para estabelecer o necessário ponto de mira que lhe permitirá encaixar correctamente a bola junto ao peito, para não deixar que a bola lhe escorregue para a frente, situação que se constituirá como uma infracção às regras do jogo.

P.S: No final do lance, o árbitro da partida considerou que a conduta do jogador argentino foi perigosa para a integridade física do adversário e que a sua entrada não teve o propósito de exercer uma disputa pela conquista da oval. Como tal, o juiz aplicou os preceitos da Lei 10 do Jogo. 

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