Os golos da jornada (1ª parte)


Face à muralha de jogadores que o adversário colocou na área, Wijnaldum foi obrigado a sacar dos galões para encontrar espaço para disparar aquela bomba. No entanto, no início da jogada, com aquele pequenino toque de excelência técnica, o holandês teve o mérito de desmontar por completo a linha média adversária, abrindo espaço para a saída para o contra-ataque.

Depois de um arranque algo irregular na Premier, arranque no qual, pesem os interessantes e bem trabalhados pormenores demonstrados pela equipa no capítulo da organização da pressão (“a menina dos olhos de Jurgen Klopp”) e da transição para o contra-ataque (pormenores que permitiam à equipa passar rapidamente de uma mentalidade defensiva para uma mentalidade ofensiva, procurando servir, com pragmatismo em profundidade, em cada recuperação, as velozes investidas dos seus homens da frente, em especial as de Sadio Mane e Mohammed Salah) acabou por sobressair (pela negativa) a fragilidade defensiva do quarteto defensivo orientado pelo técnico alemão, o Liverpool vai começando a “despertar” para uma fase de maior regularidade quer em termos de resultados, quer em termos exibicionais, embora os 12 pontos de diferença para o City e a mais que evidente diferença de qualidade entre os planteis e o futebol das duas equipas, não permitam aos reds dizer que estão em condições de atacar o quer que seja pelo menos na presente temporada. Para reforçar esta ideia, sirvo-me da miserável exibição realizada por Dejan Lovren frente ao Tottenham, exibição no qual o croata e o seu colega de sector, o camaronês Joel Matip demonstraram possuir muitas dificuldades no controlo à profundidade adversária. 
Frente ao errático (no capítulo da organização defensiva e da transição defensiva) Huddersfield de David Wagner, formação que até tem feito um interessante campeonato (10ºs com 15 pontos) à conta de um pequenino cérebro que a equipa possui a coordenar as fases ofensivas, o australiano Aaron Mooy, não foi tanta a dificuldade sentida pelos reds no capítulo da construção, como se pode ver no vídeo acima, porque a linha média de Wagner confundiu pressão organizada com “correr contra tudo o que mexe” e “bater em tudo o que mexe” mas sim no capítulo da definição dos lances construídos no último terço em virtude das unidades que os forasteiros colocavam dentro ou nas imediações da área.

Todavia, apesar das dificuldades criadas pelo adversário, foram de enorme sentido prático e estético alguns dos lances de futebol combinativo (traços distintivos do jogar da formação de Klopp desde que o alemão chegou a Liverpool – cut inside, tabela e remate, cut inside, recebe e roda para finalizar) e imaginativo criados por Roberto Firmino e Mohammed Salah.

Firmino foge muito bem à marcação, saíndo até ao exterior para cair na ala esquerda, ala para a qual o brasileiro cai regularmente para promover situações de superioridade numérica e de overlaping com Alberto Moreno. Enquanto o brasileiro se movimenta para pegar no jogo, Salah entra junto aos centrais.

firmino

Enquanto o brasileiro realiza o seu habitual corte para dentro em drible, existem dois sub-momentos interessantes no lance:

  1. Como um médio se junta ao defensor que se coloca à frente do brasileiro, Georgínio Wijnaldum acorre à situação para, numa movimentação totalmente legal abrir uma espécie de bloqueio que auxilia o brasileiro a finalizar a sua acção de corte e passe para o interior da área, passando ao lado do jogador que está a tentar fazer a contenção. 
  2. Salah vislumbra o excessivo distanciamento existente entre os centrais e entra nesse espaço porque perceber que recebendo ali pode ter caminho aberto para finalizar.

Como um dos centrais nunca perdeu de vista o jogador e outro foi rápido a fechar o espaço, o egípcio precisou de magicar outra solução. A temporização, aquele pequeno toque que o africano dá a seguir à recepção para fixar os dois centrais na sua acção é o gesto que lhe permite conquistar o espaço e o tempo necessário para rodar e finalizar. Bom apontamento de futebol.

Mais problemas defensivos para Mourinho.

Há 13 dias atrás, a propósito dos erros defensivos cometidos pelo Manchester United na partida disputada em Londres frente ao Chelsea, vinquei neste post, a ideia de que o último reduto onde se apoiam os argumentos da narrativa ficcional dos fanáticos defensores de José Mourinho, ou seja, o comportamento defensivo “exemplar” (segundo os construtores dessa narrativa) demonstrado pela equipa, está a cair por terra. À inépcia da pressão no centro de jogo momentâneo da bola, à sacrossanta anacrónica (para não lhe chamar cavernosa ou digna do pensamento futebolístico da Idade do Neandertal) marcação Homem-a-Homem executada pelo técnico português, estratégia que chega a ter momentos, como pude retratar, de autêntica bizarria, na qual médios fazem de centrais e centrais de médios, aos posicionamentos completamente errados dos centrais (abrindo autênticas crateras entre si), junta-se agora (embora também já o tivesse verificado no jogo contra o Chelsea em alguns momentos) a falta de discernimento dos laterais e dos alas no acompanhamento das movimentações adversárias e a permeabilidade oferecida por esses jogadores.

No lance do primeiro golo da partida, apontado por Dwight Gayle, à péssima transição defensiva realizada pela equipa no lance em questão (aparecendo 4 jogadores do Newcastle em zona de finalização frente a 2 defesas do United) o lateral direito norte-americano do Newcastle DeAndre Yedlin, pode aparecer nas costas de Ashley Young (obrigando Smalling a ter que sair para efectuar a dobra; facto que retirou presença na área à equipa de Manchester, expondo a equipa a uma inferioridade numérica, inferioridade numérica que por sua fez oferecer ao norte-americano mais linhas de passe para definir bem a jogada)…

ashley young2

(…) com a mais absurda das facilidades, sem que o correspondente matchup (Anthony Martial) se preocupasse em acompanhar a subida do lateral no terreno, e sem que Ashley Young (que ficou estático no local onde parou a observar o desenrolar do lance) tenha depreendido por raciocínio próprio que as jogadas adversárias não terminam no momento em que é batido. Quero portanto com isto dizer que cabe a um lateral, no momento em que é batido e em que obriga um central a sair na dobra, executar todos os esforços possíveis para efectuar a compensação ao central, trocando momentâneamente de funções para se poder redimir da falha cometida e poder ainda auxiliar a equipa a ter sucesso defensivo no lance.

Poucos minutos decorreram até novo erro de palmatória de Young e em parte também do seu parceiro Luis Antonio Valencia.

manchester united 6

Mais uma vez, a equipa revelou inépcia na pressão executada ao portador, não obstante o facto de ter 2 jogadores a cair em cima deste.

Para além de ter deixado fugir o corte em diagonal de Jacob Murphy, neste frame dá para perceber que no momento em que o passe em profundidade sai, os dois centrais, Lindelof e Smalling estão a tentar sair para criar a armadilha do fora-de-jogo, armadilha que não é taxativamente criada porque os dois laterais não correspondem às intenções dos centrais.

Assinalado a  azul: o espaço entre linhas concedido nas costas da linha média.

O fantástico cruzamento de Lukaku e o altruísmo de Marcus Rashford

Os movimentos sem bola do belga (fugindo da marcação para cair nas alas para ajudar a estender jogo e desenrolar ali uma outra combinação com Mata ou Mkhytarian; à imagem do que aconteceu no lance do 4º golo) tem sido, na minha opinião, um dos aspectos positivos deste United. O serviço para a frenética entrada em zona de finalização de Rashford foi exemplar. O extremo bem que poderia ter finalizado aquela bola porque a mereceu, à conta da extraordinária cavalgada de 35 metros que realizou para poder aparecer na área de forma a responder à solicitação do colega. No entanto, o jovem internacional inglês optou por tomar uma decisão altruísta que em muito deverá contribuir para aumentar os índices anímicos do regressado Paul Pogba (interessante exibição), oferecendo-lhe o golo.

Álvaro Morata: cada vez mais completo, cada vez mais rato de área, cada vez mais inteligente nas decisões que toma fora desta. Neste lance destaca-se não só o facto do espanhol se ter soltado da marcação para poder jogar entre linhas como a compreensão do que estava a acontecer à sua volta (a desmarcação de Hazard) e as vantagens que um único toque trariam para a equipa face ao mar de profundidade oferecido nas costas pela defesa do WBA.

Quem é que se esqueceu de Alonso ao 2º poste?

Uma falha imperdoável para os dias que correm, pelo carácter decisivo que pode assumir um lance de bola parada para o desfecho de uma partida. Por acaso, esta falha ditou o 3º golo de uma equipa que controlou o jogo a seu belo prazer a partir da obtenção do primeiro, mas, bem que poderia ter sido a falha comprometedora que poderia ter deitado por terra todo o esforço colectivo realizado ao longo de 90 minutos por uma equipa.

 

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