Cheguei a Leicester de paraquedas. O que é que vou fazer a este grupo de trabalho?


claude puel

A assumpção de uma equipa a meio da temporada é, na minha opinião, por várias razões, o maior desafio a que um treinador se pode sujeitar em toda a sua carreira. A assumpção do comando técnico de um grupo de trabalho que não foi idealizado ou escolhido por si, condicionante que o obriga a ter que trabalhar forçosamente com matéria prima disponível no imediato (até à reabertura da janela de transferências ou na pior das hipóteses até ao momento em que a sua direcção tenha condicões financeiras para satisfazer as suas necessidades), que se encontre total ou parcialmente desmoralizado por força dos resultados negativos obtidos (pela pressão que esses resultados acarretam; pela necessidade de somar pontos rapidamente para inverter um ciclo negativo) ou pela existência de uma ou outra insatisfação motivada pelo mais amplo leque de choque de interesses (a vontade que determinados jogadores têm de se transferir para clubes que demonstrem outro tipo de ambições ou que possam satisfazer as suas exigências contratuais; as pressões que são realizadas pelos empresários junto dos jogadores e da direcção do clube para forçar uma transferência; jogadores insatisfeitos com os valores do seu contrato; a descrença que se vai acumulando nos jogadores que não são utilizados com regularidade ou que sentem que o seu rendimento não está a ser devidamente aproveitado ou potenciado; jogadores que estão a sentir dificuldades para se ambientar à realidade cultural de um país ou de uma cidade), que já se encontra em andamento ao nível de uma competição, da assimilação de determinado modelo de jogo, dos seus processos e das suas dinâmicas colectivas e individuais.

Primeiro, antes de qualquer outra intervenção de índole conceptual ou metodológica, o treinador precisa de recuperar psicologicamente a equipa, fazendo portanto acreditar os jogadores que o mau momento vai ser ultrapassado. Grande parte do exito alcançado a curto prazo pelas equipas que sofrem uma chicotada psicológica a meio da temporada deve-se somente ao trabalho psicológico que é realizado no imediato pelo treinador. Maior parte das equipas continua a executar com o novo treinador o modelo adoptado e trabalhado pelo anterior, ou o modelo adoptado e trabalhado pelo anterior com algumas nuances. Porém, em alguns casos, uma palavra de carinho, a narração de uma história engraçada, uma conversa, uma mudança no ambiente das sessões de treino pode injectar nos jogadores uma dose extraordinária de confiança. Explicar, orientar, treinar, fazer assimilar, potenciar e operacionalizar um determinado modelo de jogo não é coisa que qualquer treinador consiga num estalar de dedos. A operacionalização de determinado modelo de jogo num determinado grupo de trabalho pode demorar meses, visto que é um processo de assimilação, retenção e plena execução que depende de vários factores: as capacidades de índole comunicacional do treinador na transmissão das suas ideias de jogo, o cumprimento do exercício, a exequilibilidade do exercício para o que se visa trabalhar, a vontade do jogador, a aptidão de um jogador nas determinadas dimensões do jogo para cumprir o que o treinador lhe pede bem como o seu conhecimento sobre o jogo, a sua experiência a sua capacidade de assimilação das ideias e dinâmicas requeridas pelo treinador.

A chegada a um clube a meio da época obriga também o treinador a perceber o que é que tem em mãos. O treinador precisa de reter rapidamente o que é que foi feito pelo grupo, as valências de todos os jogadores que dispõe nas várias dimensões do jogo, o seu estado de condição físico e psíquico. A necessária obtenção de resultados obriga o treinador a ter que completar todas estas informações no espaço de dias para poder tomar uma de 3 decisões:

  • A manutenção do modelo de jogo operacionalizado ou por operacionalizar, não realizando mexidas de fundo no trabalho do seu antecessor.
  • A transformação faseada do trabalho realizado pelo seu antecessor, mantendo alguns dos processos assimilados e executáveis que venham a ser considerados como potenciadores de rendimento, enquanto, calmamente por outro lado, o treinador vai inserindo novos elementos de aprendizagem para corrigir os aspectos em que a equipa não está a ter um rendimento positivo.
  • A ruptura total com o trabalho anteriormente realizado e a construção de uma nova identidade.

A última opção é naturalmente a que acarreta mais riscos. Como já referi, a construção de uma nova identidade demora tempo. A situação classificativa da equipa pode dar ou pode não dar esse tempo ao novo treinador. Por norma não dá.

Em Leicester, Claude Puel está a ser inteligente. O treinador francês não assumiu uma ruptura total nem com o trabalho desenvolvimento pelo seu antecessor, Craig Shakespeare nem tão pouco com o trabalho que foi desenvolvido pelo antecessor do inglês, Claudio Ranieri. Vistos os últimos dois jogos da equipa frente aos londrinos do West Ham e do Tottenham, creio que o francês aproximou-se ainda mais desses trabalhos. Puel sabe que a equipa já não é a mesma, embora ainda mantenha nas suas fileiras 12 jogadores que trabalharam com o italiano, ou seja, 12 unidades susceptíveis de executar com sucesso os preceitos introduzidos pelo italiano. As peças chaves entretanto transferidas pelos foxes (Ngolo Kanté, Dani Drinkwater) retiraram à equipa alguns dos pontos fortes desse campeoníssimo Leicester: equilíbrio defensivo provido por ambos, o controlo das acções a meio-campo, o musculo que estes acrescentavam às divididas neste sector do terreno, a sua monstruosa capacidade de pressão sobre os adversários que caiam na sua zona e o lançamento das acções de contragolpe. Kanté e Drinkwater continham, cobriam as acções de contenção, desdobravam-se em mil para fazer compensações aos colegas do sector defensivo pressionavam imenso, esganavam-se em correrias para matar as transições para o contra-ataque, dificultavam a construção adversária, recuperavam e lançavam com um exímio grau de mestria quer através da condução quer através do passe.

Em 2 breves lances vi a aproximação de Puel aos preceitos de Ranieri. Para bom entendedor penso que meia palavra basta.

O ataque constante à profundidade.

Quando em posse em ataque organizado, os processos da formação de Leicester continuam a ser os mais pragmáticos possíveis por força das taxativas limitações da equipa quando é obrigada a ter que assumir a posse durante períodos prolongados de tempo no meio-campo adversário. Ranieri nunca deu um especial enfoque à criação de processos de jogo para as situações de ataque organizado porque naturalmente as características dos seus jogadores foram habilmente canalizadas para o trabalho das fases onde a equipa poderia colher mais proveitos. Não valia por exemplo colocar um Ngolo Kanté a pensar jogo no meio-campo se o forte do francês passava pela sua capacidade de recuperação a meio-campo e pela velocidade com que este lançava o contra-ataque em condução, queimando as linhas adversárias a todo o vapor nas suas longas e desequilibradoras cavalgadas. O seu modelo nunca contemplou por exemplo a participação exaustiva dos laterais nos processos ofensivos. Tanto Christian Fuchs como Danny Simpson subiam apenas em situações excepcionais, ou seja, em situações nas quais as suas subidas tinham a devida cobertura na rectaguarda, ou em situações em que a sua subida fosse passível de criar uma situação de superioridade sobre o adversário. O lance do primeiro golo é o exemplo disso. Embora não me seja possível mostrar o contexto anterior aquele que pode ser visto no vídeo supra postado, posso-vos dizer que a jogada nasce de uma iniciativa de circulação para o corredor esquerdo na fase de construção que é abortada pelo jogador que vai conceder a assistência: Marc Allbrighton. Com Serge Aurier à perna e dois jogadores adversários a fechar as linhas de passe para o interior, o tecnicista, preferiu congelar a acção fazendo regressar a bola até ao central Harry Maguire por intermédio do trinco Iborra. A variação do centro de jogo levou naturalmente os jogadores do Tottenham a vascular para o meio para se poderem enquadrar com a nova moldura do lance.

leicester

Como Marco Dele Alli e Harry Kane não foram reactivos sobre o portador da bola, e Aurier deslocou-se alguns metros para fechar a linha de passe que Vardy estava a tentar criar entre ele e Dier, abriu-se o espaço para o central voltar a procurar Allbrighton numa zona onde o extremo é mais perigoso por força da sua apurada técnica de cruzamento.

vardy

Já pude denotar noutros desafios que a defensiva do Tottenham tem alguma dificuldade para controlar a profundidade adversária. Em primeiro lugar tal problema deve-se sobretudo ao facto de não existir uma perfeita coordenação no sector. Como podemos ver, o central que manda no sector é Davison Sanchez. Sanchez está coordenado com o outro central Vertonghen mas não está coordenado com Dier. Por outro lado, Aurier não está a ser pressionante no momento em que o jogador recebe o esférico. Pocchettino assume que a sua linha subida possa dar espaço nas costas. Esse espaço é na maior parte das vezes controlado se existir pressão sobre o portador que tentará lançar (condicionando-lhe o gesto técnico) e se os centrais acompanharem os movimentos do receptor ou tiverem velocidade para recuperar posição de forma a anular-lhe a situação de finalização. Se existir pressão ao lançador, a linha defensiva, coordenada, pode subir no momento do passe, criando portanto a armadilha do fora-de-jogo.

Como Aurier não pressiona no osso e a linha não está coordenada, Allbrighton lança bem e Vardy foge pelas costas. A defesa não cria a linha de fora de jogo e Vardy, deviamente orientado para a baliza, finaliza com um gesto técnico de excepcional gabarito, não dando tempo a Dier ou a Sanchez de recuperar posição.

A utilização de referências na saída para o contra-ataque. Retirar as bolas da zona de pressão do adversário. Explorar as acções desequilibradores de Riyad Mahrez.

Processo clássico de saída para o contra-ataque construído por Ranieri. O jogador que recupera a posse procura um dos médios. O médio que recebe procura logo o apoio frontal de Okazaki ou Vardy no corredor central. O inglês ou o japonês recebem, seguram (se virem que Mahrez ainda não se adiantou no terreno ou que não existe ninguém para receber na ala) ou encaminham logo para a ala se o argelino ou um dos laterais estiverem prontos a receber. Quanto mais adiantado no terreno receber o argelino, mais perigoso se torna porque uma coisa, do ponto de vista físico é correr 10 metros com bola e chutar e outra coisa é correr 30 e ainda ter que finalizar. Um jogador que é obrigado a ter que driblar com bola por 40 metros enquanto é pressionado por um ou mais adversário, é um jogador que chega mais fatigado ao momento de finalização. O resto é com o argelino e com o seu magnífico cut inside seguido de bomba lá para dentro.

O mesmo processo também vale para as situações em que Okazaki segura e volta a devolver ao portador enquanto Vardy completa a sua circular para a ala, para fugir à marcação de forma a receber junto à linha ou até nas costas da defesa.

Ao nível de organização defensiva em bloco baixo, os foxes continuam a oferecer um mestrado ao mundo do futebol. A compacticidade do seu bloco é abismal, o espaço para jogar entre linhas é diminuto, as acções de contenção e cobertura continuam a ser de um espírito de resiliência e de combate brutal e o comportamento do seu quarteto defensivo é de uma estoicidade ímpar.

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2 thoughts on “Cheguei a Leicester de paraquedas. O que é que vou fazer a este grupo de trabalho?”

  1. Adrien poderá ser de uma grande ajuda a este Leicester.
    Curioso para o ver jogar e o que pode dar à equipa

    PS: Mais uma grande analise ! Parabéns ! ganhaste mais um seguidor 😉

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    1. Caro M Pereira,

      Antes demais, permita-me agradecer os seus elogios, a sua atenção e a sua confiança.

      Bem, eu acho que o Adrien vai dar a esta equipa um pouco daquilo que dava o Daniel Drinkwater visto que são jogadores que partilham algumas características. Estou certo que vai dar muito espírito de combate aquele meio-campo, que vai ser um elemento fulcral no capítulo da transição defensiva visto que é na minha opinião um dos melhores (do mundo) a ler as intenções adversárias e a posicionar-se, no momento da recuperação adversária, para cair rapidamente sobre o portador ou sobre o apoio ao portador e para cair no espaço onde vai cair a segunda bola. Por outro lado também vai ser precioso na saída para o contra-ataque porque é um jogador que poderá realizar o processo descrito com a maior das facilidades e com uma taxa de eficácia aceitável. O Adrien é per se um jogador que perde poucas bolas na saída para o contra-ataque porque é um jogador de processos simples. Havendo um processo onde haja uma referência a quem passar e um destinatário-alvo da jogada, tudo se tornará mais fácil.

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