A mais pura das verdades

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As sábias palavras de Pedro Leal em entrevista à Tribuna Expresso. 

 

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Estranha (para não chamar bizarra) decisão do comissário da World Rugby oferece o título aos japoneses a 13 minutos do final da partida

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Créditos: João Sotto-Mayor Silveira Botelho (administrador do grupo Rugby D´Aquém e Além Mar) 

Como podem ver na imagem, metade do terreno de jogo estava bom para fazer aquaplanagem, bodyboard, surf (o Kikas Morais sacava ali uma nota 10 com a maior das facilidades) ou para ser disputado um Sérvia vs Bulgária em Polo Aquático. 

Estavam decorridos 67 minutos da final de Montevideu (Portugal vs Japão; final do Trophy de sub-20) quando, para nosso espanto, o comissário da World Rugby presente na partida decide chamar o árbitro da partida para lhe dar uma instrução muito específica. Os 67 minutos anteriormente jogados num autêntico batatal massacrado por 2 semanas de chuva intensa e duas dezenas de jogos (desde quarta-feira da semana passada) já não se apresentava em condições para receber a final da 2ª maior competição por selecções do Rugby Mundial Juvenil. Numa fase da partida em que a selecção portuguesa perdia por 3-14 mas estava a carregar forte e feio à entrada dos 22 metros japoneses, eis que o comissário presente decide alertar o árbitro para um problema na iluminação do estádio resultante de um relâmpago que todos pudemos ouvir (eu ouvi claramente na transmissão provida pela televisão uruguaia) 10 minutos antes da decisão ter sido tomada.

O árbitro decidiu portanto interromper a partida e chamar os capitães de ambas as equipas para lhes comunicar que deveriam regressar aos balneários até nova decisão, visto que não estavam reunidas todas as condições para realizar o término da partida. Volvidos 10 minutos eis que chega a decisão: o jogo terminava ali, à luz dos regulamentos da World Rugby (lei 5, alínea d) em virtude do mau tempo que se abatia sobre o recinto de jogo. Os Japoneses subiram à tribuna do estádio e levantaram o troféu.

Esta decisão leva-me a formular um conjunto de perguntas e afirmações:

  1. Se o terreno de jogo estava pantanoso (relvado esburacado em várias zonas; várias poças de água) estavam reunidas todas as condições para o jogo ser disputado?

Dou de borla a resposta: não. Qualquer pessoa que visse o estado do relvado, jamais seria capaz de anuir o início do jogo naquelas condições. A anulação do jogo seria a decisão mais salutar face ao estado do terreno, como salvaguarda da integridade física dos atletas! Nem num país de 3º mundo (rugbysticamente falando, em Portugal) isto acontece visto que aqui em Viseu já vimos 2 torneios juvenis correctamente interrompidos pelos dirigentes do CRRC quando verificadas condições atmosféricas similares às que estavam a ocorrer em Montevideu.

2. Se o relâmpago foi ouvido sensivelmente por volta do minuto 60 de jogo (altura em que o jogo estava a ser disputado a toque de “bola cá, bola lá”; face às condições era praticamente impossível realizar jogo à mão sobe pena de termos 80 minutos de knockons e formações ordenadas) porque é que o árbitro da partida ou os comissários da World Rugby não decidiram tomar a decisão naquele instante, guardando-o para o momento em que a selecção portuguesa estava a mandar no jogo e aparentava estar em melhores condições físicas que a japonesa?

3. E se Portugal estivesse a liderar o marcador: teríamos visto a mesma decisão? Não nos podemos esquecer que o Japão é neste momento o “país querido da World Rugby” – para além de ser o próximo organizador do Campeonato do Mundo de seniores é neste momento um dos maiores mercados para a Instituição guardiã do Rugby Mundial, visto que é um país que gosta imenso da modalidade, tem imenso poder de compra, e tem muitos investidores prontos a investir biliões de ienes na modalidade. Como nós, tugas, somos um país em constante rebuliço nos órgãos federativos, somos um país em constante subdesenvolvimento, somos um não-mercado no mundo do Rugby e não temos qualquer investidor de peso no cenário internacional, creio que é fácil tirar as devidas conclusões desta decisão… O peso da federação japonesa sobrepôs-se à leveza do peso da Não-Federação Portuguesa.

Eu cá creio que esta decisão foi o mesmo que dizer aos miúdos: “malta, foi um bom esforço, vocês são uns porreiros, tem uma alma levada da breca, gostamos do vosso rugby, gostamos de surpresas mas sempre dentro de um clima controlado. Ide para vossas casas porque vocês já passaram o limite que era tido como aceitável. Já eliminaram a selecção da casa, a principal favorita. Já eliminaram as Fiji, a 2ª favorita à conquista do torneio. Querem agora eliminar o Japão? Acham mesmo que os ingleses querem jogar contra vocês para o ano?…” – foi o que aconteceu precisamente há 2 anos atrás quando a Escócia perdeu contra esta selecção. Nunca mais apareceram na competição europeia e criaram um mundinho à parte, uma sociedade secreta, jogada entre bifes e padrecos irlandeses, para não terem que passar novamente pela humilhação de serem vergados frente a um conjunto de um país periférico.

São miúdos de 20 anos. Esta decisão afecta o sangue, o suor e a felicidade de miúdos de 20 anos. Não podem gozar com o esforço de miúdos de 20 anos. Não podem gozar de forma alguma com miúdos que abdicaram do único período de lazer e descanso do ano e de todas as diversões a que tem direito nesta altura das suas vidas, para se prepararem para esta prova. Não podem gozar desta forma com o seu sacrifício e com o seu suor.

É disso mesmo que se trata: a World Rugby não quer abdicar da perda de status quo de alguns dos seus associados em prol do crescimento da modalidade nos países periféricos da modalidade. É muito bonito postar meia dúzia de fotos dos meninos do malawi com uma oval na mão mas quando os meninos do Malawi se tornam grandes jogadores e ameaçam o status quo dos mais poderosos, há que empurrar os meninos do malawi para o seu lugar natural.

Por último e para finalizar porque estou bastante emocionado:

portugal

Gente, vós sois os maiores. Eu tenho imenso orgulho no que vocês fizeram por vós, por nós e por todos aqueles que se esforçam diariamente para dar mais qualidade ao Rugby Português. Para mim vocês são os campeões mundiais. Espero que nada disto vos afecte e que vocês continuem diariamente a dar tudo por nós, porque quem gosta de vocês continuará a dar tudo o que tem pelo vosso sucesso. A vida é cheia de oportunidades. Vocês são jovens. Se continuarem a trabalhar com o afinco que tem trabalhado desde que vos passaram uma oval para as mãos, a vida vai-vos dar mais oportunidades. Quem sabe se um dia, num Mundial de seniores perto de nós, não teremos uma nova oportunidade para dar aquele handoff de luva branca em toda esta gente?

Final do Campeonato do Mundo B (Trophy) de sub-20

Créditos da foto do XV titular frente à selecção Japonesa: Federação Portuguesa de Rugby

A selecção nacional de sub-20 de Rugby irá, dentro de aproximadamente duas horas, jogar a final do Campeonato do Mundo B de Juniores (Trophy) em na capitão do Uruguai, Montevideu, frente à poderosa formação do Japão. Em caso de vitória, a selecção orientada por Luís Pissarra e capitaneada por António Vidinha conseguirá um título inédito para o rugby português que garantirá o acesso à próxima edição do Mundial de elite do escalão.

A partida terá transmissão em directo na página da World Rugby. 

Para chegar à final, a selecção nacional bateu a selecção anfitriã do Uruguai por 20-18, a selecção de Hong Kong por 31-24 e a forte selecção das Fiji por 16-13. Já a formação japonesa bateu a formação do Chile por 28-22, a selecção do Canadá por 50-12 e a Namíbia por 33-13.

O seleccionador nacional Luís Pissarra fez uma breve antevisão à partida.

Fica aqui a nota de repúdio

rugby 11

A selecção nacional de sub-20 de Rugby conseguiu durante esta noite (tarde no Uruguai) uma fantástica vitória por 16-13 frente às Ilhas Fiji, uma das principais candidatas à vitória no Trophy (Mundial B do escalão), triunfo que para além do pleno no que à fase de grupos diz respeito (a equipa já tinha somado duas vitórias contra a formação anfritriã do Uruguai e contra a selecção de Hong Kong) garante aos jovens lobos a inédita presença na final do torneio, partida que irá garantir, ao vencedor, a subida ao torneio que é disputado por toda a elite mundial.

Fazendo jus às palavras do capitão António Vidinha, os underdogs voltaram a provar, no Uruguai, de que matéria (bem dura por sinal) são feitos. Sabemos que a casa (leia-se, a FPR) está neste momento a arder e que o Rugby é uma modalidade com uma expressão muito reduzida em Portugal, mas o facto de nenhum diário desportivo português ter dado o devido destaque aos incríveis feitos que esta selecção está a realizar no Uruguai, repetindo a façanha heróica realizada no campeonato Europeu do escalão disputado na primavera na Roménia, é de uma insensibilidade tremenda para com o esforço destes jovens. Não considero de todo normal que a imprensa portuguesa dê, diariamente, imenso destaque a atletas que não alcançam, nem de perto, nem de longe, resultados de semelhante escala de importância ou centenas de páginas a estéreis mexericos relacionados com o futebol, mas não tenha por outro lado qualquer interesse em colocar um dos seus colaboradores (porque todos os jornais portugueses tem um ou outro colaborador com conhecimento na modalidade) para cobrir a participação desta selecção numa das mais importantes provas de selecções da modalidade.

Um ensaio que ficará para a História do Rugby Português

minuto 1:15

A portentosa arrancada do primeiro centro (interior) do Grupo Desportivo de Direito José Luís Cabral para o 2º ensaio obtido na partida de ontem frente à selecção uruguaia.

Uma estreia de sonho vale a primeira vitória aos portugueses no Mundial de sub-20 (Trophy)

mundial

créditos: Federação Portuguesa de Rugby

Uma das coisas que me dá algum conforto em saber é que o futuro do rugby português nos próximos 12 a 15 anos está bem assegurado nas mãos destes meninos e das gerações que aí vem. No meio de todo o clima de todo o clima de instabilidade, decadência, caos financeiro, falta de ideias exequíveis para todos os departamentos do rugby português (ou ideias irrealizáveis a mais, segundo a óptica de alguns), do recrudescimento de uma atitude bairrista em certos clubes, e acima de tudo, na letargia que impele alguns decisores de tentar dar a volta ao lodo em que nos encontramos através de atitudes, acções e comportamentos mais inclusivos ao invés dos clássicos comportamentos exclusivos e marginalizadores em relação aqueles que tem o rugby no sangue mas “não são da malta”, encontramos uma geração que em em meia dúzia de momentos bem conseguidos (suados, trabalhados, sangrados, chorados) consegue dar-nos um bote salva vidas para nos agarrarmos ao futuro. Estas vitórias (a vitória no Campeonato Europeu) tem sido para nós, os que observamos, os que perdemos dias inteiros à chuva a tentar fazer algo de produtivo pelo Rugby Nacional, o “elemento combustor” de um mecanismo de perda de memória em relação ao que não vai bem no Rugby Nacional.

A todos eles:

  • Jogadores que deram o litro numa verdadeira serenata à chuva, que nunca se desviaram do caminho a seguir, que nunca cederam às tentações da Juventude, que nunca atiraram a toalha ao chão…
  • Seleccionador nacional Luís Pissara, adjuntos, demais técnicos que colaboraram na formação destes atletas, aguadeiros, médicos, fisioterapeutas, team managers e todos os dirigentes que perderam uma boa parte dos últimos anos a projectar este resultado, a moralizar os miúdos e a dar-lhes alma a conteúdo…
  • Pais – o verdadeiro móbil que garante a existência e a prática desta modalidade em Portugal. Se não fossem os pais, esta modalidade teria uma expressão ainda mais diminuta daquilo que tem.
  • Dirigentes e Treinadores dos clubes

O nosso obrigado.

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Meia dúzia de fases e o adversário na linha de ensaio – Uma noite de terror em Sydney

Nunca em toda a minha vida vi uma selecção australiana a jogar um rugby miserável e a apresentar uma equipa tão vulnerável do ponto de vista defensivo e tão pouco esclarecida e produtiva no plano ofensivo. Noutros tempos, não muito distantes, quando o país era a verdadeira nação do rugby de ataque, do rugby das sensacionais e vertiginosas combinações entre as linhas atrasadas, do rugby de choque, uma exibição como que a que foi produzida pelo XV que foi copiosamente vergado em Sidney frente aos neozelandeses, garantia, literalmente, o direito a Michael Cheika de se por no olho da rua em dois tempos sem qualquer direito a indemnização ou a orientar uma selecção provincial ou equipa do campeonato nacional durante uma boa quadra de anos. No entanto, esta é a Austrália que temos actualmente: uma selecção a viver sobre brasas que representa um Rugby a viver sobre brasas, falido, no qual, nenhuma alminha caridosa consegue apresentar uma ideia capaz de inverter o actual cenário em que o rugby australiano caiu. Cheika conseguiu descer até mínimos históricos nunca antes vistos nos 118 anos de história da formação australiana: nunca a selecção australiana tinha falhado um total de 35 placagens ao longo de 80 minutos assim como nunca nenhuma selecção australiana tinha saído para as cabines a perder por uma diferença tão grande, para não lhe chamar de obscena. Continuar a ler “Meia dúzia de fases e o adversário na linha de ensaio – Uma noite de terror em Sydney”