Bloco de Notas da História #28 – A melhor abordagem de sempre a um contra-relógio

Miguel Indurain. 13 de Julho 1992. 9ª etapa da 79ª edição Tour de France. 1994. Bergerac. Um orgasmo de competência no contra-relógio. Dois vídeos (e um rendimento) que deveriam ser vistos por todos aqueles cujas pretensões não são alcançadas em virtude dos seus fracos desempenhos no contra-relógio.

Indurain media 1,86 e pesava 80 kg. Face aos grandes contra-relogistas daquela era, o espanhol era significativamente mais pesado que todos. Chris Boardman era 10 kg mais leve que Indurain. Mesmo assim, em 1994, no brilhante contra-relógio de Bergerac, o ciclista britânico, ciclista que haveria de protagonizar, uns meses mais tarde, uma titânica luta frente ao espanhol pelo recorde da hora, apanhava 5 espantosos minutos do navarrenho! Nesse contra-relógio também aconteceu algo curioso…

Um tal de Lance Armstrong, campeão do mundo de estrada em 1993 na cidade de Oslo, ciclista que viria a ser, alguns anos mais tarde, um “dos melhores contra-relogistas” do cenário velocipédico mundial, era literalmente dobrado de “mota” pela 500cc de Indurain.

Melchior Mauri era 6 kg mais leve. Olano 8. Zulle era um peso pluma de 69 kg. Ao nível de peso (muscular) o espanhol tinha vantagem sobre os restantes, facto que lhe permitia efectivamente rolar melhor. No entanto, nas subidas, os restantes ciclistas mencionados tinham um processo de “watts saving” superiores aos do Extraterrestre. A massa gorda no corpo de Indurain era, na altura, superior à de Alex Zulle.

Os extraordinários contra-relógios de Indurain não se resumiam porém às questões morfológicas. Na vertente física, o espanhol preparava-se muito bem para as provas de contra-relógio. Como estudava minuciosamente os traçados nos momentos de preparação para a prova, Indurain conhecia na perfeição o terreno que iria correr bem como a cadência que deveria colocar nos diversos segmentos de terreno na sua desmultiplicação 54×12 que o fazia avançar 9 metros por pedalada! Isso permitia-lhe gerir com uma eficácia tremenda o esforço realizado ao longo do crono. O prego a fundo era importante mas…

Uns anos antes tinha existido um senão quando o ciclista tinha cometido um erro na montagem da sua bicicleta. Ao subir em demasia o guiador da sua bicicleta, o ciclista ia tão agachado que não conseguia desenvolver correctamente a sua pedalada nem tão pouco ter uma respiração correcta para o esforço energético que estava a despender. Os resultados levaram o ciclista e a sua equipa a formular vários projectos para a constituição de um bicicleta com a qual o atleta pudesse tirar o maior rendimento. Os projectos da Banesto com a Pinarello, redundaram na célebre Espada que foi utilizada pelo atleta na tentativa do recorde da hora.

  • 7.2 kg de peso.
  • Quadro revolucionário fabricado numa só peça com um espessor mínimo de 1,5 km.
  • Pedais preparados para uma sapatilha especial, criadas propositadamente para o pé do atleta. As sapatilhas permitiam-lhe a sensação de ter o pé e a perna “unificados” ao pedal.
  • Um sistema de acoplamento que viria a ser adoptado por todas as marcas nos anos seguintes.
  • Rodas lenticulares de fibra de carbono, extremamente leves. A roda traseira tinha um diâmetro maior que a dianteira.
  • O selim colocado milimetricamente de acordo com a altura e a aerodinâmica do ciclista.

Esta bicicleta, haveria de ser uma das múltiplas bicicletas criadas pela Pinarello para Indurain.

A postura corporal, em especial do tronco: o espanhol não mexia um milímetro durante a prova, fosse a prova de 10 minutos ou de uma hora. As linhas de corrida eram sempre aquelas que permitiam aproveitar todo o pedaço de estrada que melhorasse a velocidade.

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Volta à Suiça – Etapas 1 e 2

A 81ª edição da Volta à Suiça arrancou no passado sábado. A sobreposição de provas (as primeiras duas etapas da prova helvética sobrepuseram-se ao momento de todas as decisões no Criterium Dauphiné)  levou-me a demonstrar alguma preferência pela cobertura da parte final da prova francesa para depois me dedicar em exclusivo até ao próximo domingo na cobertura da outra grande prova de preparação para o Tour.

A Volta à Suíça é desde há muitos anos uma das principais antecâmaras de preparação para a Grande Boucle pelo carácter exigente do seu traçado (2 contra-relógios e 4 etapas de média e alta montanha) em conjunto com o Criterium Dauphiné e com a Route Du Sud. Estabelecida como o último balão de ensaio para todos aqueles precisam de melhorar a sua condição antes da prova francesa, a prova helvética reserva a todos os participantes um grau de dificuldade alto na montanha. Com um historial de vencedores muito rico (o nosso Rui Costa já venceu a geral individual da prova em 3 ocasiões nos anos 2012, 2013 e 2014) vários foram os nomes sonantes da história do ciclismo que já ergueram a camisola amarela no final dos 9 dias de corrida de prova. Entre os vencedores absolutos da prova helvética podemos encontrar nomes históricos do ciclismo como de Gino Bartali, Eddy Merckx, Roger de Vlaeminck, Giuseppe Saronni, Sean Kelly, Pavel Tonkov, Stefano Garzelli, Alex Zulle, Alexandre Vinokourov, Jan Ullrich, Roman Kreuziger, Fabian Cancellara, Frank Schleck, Levi Leipheimer ou Rui Costa. Continuar a ler “Volta à Suiça – Etapas 1 e 2”