Bloco de Notas da História #35 – A noite em que os cagaréus apagaram a Luz do novo estádio

Wijnhard

2 de Novembro de 2003. O recém inaugurado Estádio da Luz, palco que tinha recebido, 9 dias antes, o seu baptismo num jogo amigável realizado entre os encarnados e o Nacional de Montevideu (2-1) cumpria a sua estreia em jogos oficiais frente ao Beira-Mar de António Sousa. Ao “último Beira-Mar” decentemente orquestrado (desde as contratações até ao modelo de jogo operacionalizado) por António Sousa, histórico treinador vencedor da Taça de Portugal em 1999, agente que uns anos mais tarde, na sua última passagem pelo clube, na temporada 2008\2009, haveria de estragar toda a admiração, perdão, todo o culto que lhe era prestado pelos aveirenses (creio que este é o termo que melhor se emprega para definir com a exactidão e o rigor que se exige a relação existente outrora entre as pessoas da região e o treinador natural de São João da Madeira), quando decidiu mover uma acção de penhora sobre os bens do clube a troco do pagamento de uma dívida irrisória (falando-se na altura em valores na ordem de grandeza de 10 mil euros), coube a honra de se tornar a primeira equipa portuguesa a pisar e a vencer o Benfica no Estádio da Luz. Continuar a ler “Bloco de Notas da História #35 – A noite em que os cagaréus apagaram a Luz do novo estádio”

Bloco de Notas da História #12 – Emmanuel Amunike

Nos últimos dias, a propósito da brilhante reportagem que a televisão brasileira fez com Ivaylo Iordanov, do 51º aniversário do seu compatriota Krasimir “Mágico” Balakov (um dos meus ídolos de infância, apesar de alguns amigos da minha família terem ganho o hábito de me chamar Cadete; acima de Balakov, só o próprio Luís Figo) e de outras recordações como o fantástico golo de bicicleta de Juskowiak ao Boavista, hoje recordado pela página de facebook do Sporting, veio-me à cabeça o nigeriano Emmanuel Amunike, um dos melhores senão o melhor jogador africano que passou pelo futebol português.

Indissociável do jogador está na minha memória, este jogo, o da “pedrada” em Amunike. Logo que o nigeriano marcou, mesmo ali à frente dos meus olhos, um ignóbil adepto do Beira-Mar ligado aos Comandos Duros, a antiga claque dos aveirenses tratou de o arrumar com uma pedrada na cabeça. O nigeriano ficou imediata e irremediavelmente estendido junto à bandeirola de canto até ser assistido durante largos minutos pela equipa médica da equipa leonina. No fundo, ele só queria comemorar o golo ao jeitinho de todos os jogadores africanos com as suas bizarras danças.

Estávamos no tempo em que tudo parecia difícil. O Sporting poderia ter de longe um plantel muito superior aos dos outros rivais, mas aquele título, aquele título que escapava pelas mãos há mais de uma década, estava tão mas tão longínquo. Para minha sorte, o meu sportinguismo e o sportinguismo dos meus pais e do meu avô materno Zé (o outro era dado a coisas de lampiões, pese embora não ligasse muito a futebol; só ficava danado quando o Jardel marcava) era uma fé muito mais imbatível que me permitiu, a toque de caixa, ver mais jogos do Sporting no estádio que o meu irmão. Nem que isso implicasse ter que andar a fugir de bancada em bancada das pedradas dos adeptos do Vitória de Guimarães no antigo D. Afonso Henriques. Foi assim que cultivaram o amor romântico que ainda hoje possuo pelo clube. O Sporting fez e fará sempre parte da minha vida. Uma parte gigantesca da minha vida. O meu amor (doentio e incurável) pelos rapazes de verde e branco é fonte que nunca terminará de jorrar.

Mesmo assim aquele Sporting de Queiroz e aquele Sporting de Robson era um fenómeno louco que arrastava mais multidões para todo o lado que as multidões que Jesus Cristo e os seus discípulos arrastavam na Galileia. Apresentado como um jogador altamente promissor, Amunike fez parte desse fenómeno, aquecendo os corações dos sportinguistas de esperança.

Feita esta divagação romântica inicial, o que me leva a escrever é o mago africano. Pobre carreira de um jogador que tinha tudo para ser um dos melhores do mundo dos anos 90, carreira manchada sucessivamente pela lesão crónica naquele joelho. Emmanuel Amunike não era um poço de técnica, apesar de não ser um jogador tecnicamente rude, mas era um poço de força. Parte da maravilhosa selecção nigeriana que foi campeã olímpica em Atlanta´96, a geração que levou todo o mundo a acreditar que África poderia ter em breve uma equipa campeã do mundo, Emmanuel Amunike não era o mais brilhante dos nigerianos no plano técnico quando comparado por exemplo com o trato de beldade que Jay Jay Okocha ou Finidi George (campeão europeu pelo Ajax em 94) davam ao esférico, mas era efectivamente o repentista, era o virtuoso que sacava o possível dentro de uma conjuntura impossível. Como nos poderemos esquecer daquelas arrancadas de campo a campo com a bola nos pés? Como nos poderemos esquecer das jogadas em que o nigeriano conseguia passar por 4 adversários? Como nos poderemos esquecer daquele individualismo tão ingénuo dos africanos e das bombas que o nigeriano disparava? Como nos poderemos esquecer das danças deste e de Oceano nos festejos dos golos?

Hoje Escreves Tu #5 – O Jogo da Vida do Beira-Mar

Beira

Por Nuno Quintaneiro Martins, antigo presidente-adjunto do Beira-Mar

Todos reconhecemos que o fenómeno desportivo, cuja prática é tão saudável e recomendada para o desenvolvimento humano, simultaneamente desperta os instintos mais primários do homem que, em muitas ocasiões, o transportam para um registo comportamental que não encontra correspondência noutras dimensões da vida.

Se ao nível da prática desportiva cada vez mais se reforça a aposta em medidas pedagógicas e de prevenção que promovam uma competição sadia, também ao nível da educação dos adeptos tem existido um esforço considerável no sentido de se promover uma maior integração dos agentes e, por conseguinte, uma menor conflituosidade. É um trabalho contínuo que nunca estará acabado.

Nesta dinâmica civilizacional em torno do fenómeno desportivo assume particular importância a capacidade, formação e competência dos dirigentes. Num quadro cada vez mais especializado e que implica avultados investimentos, mais exigente e qualificada tem de ser a gestão. É neste ponto que encontro uma manifesta incompatibilidade entre o modelo clássico do associativismo e a especial complexidade que envolve uma boa gestão das entidades com grandes responsabilidades desportivas.

No caso do Beira-Mar, fruto de gestões impreparadas, assistimos na segunda metade da década passada ao declínio dum clube que é ainda dos mais prestigiados em Portugal e um símbolo-referência duma das mais importantes regiões do país. Nesse contexto, instalou-se um clima de crispação no seio da massa crítica do clube e o consequente afastamento das pessoas mais qualificadas. O desespero financeiro e a sobrevivência de egos de alguns dirigentes tomaram conta da gestão e encaminharam o futebol para uma SAD desestruturada que terminou como todos, certamente, se recordam.

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