Padrões de comportamento em futebol

A identificação de padrões de comportamento é o principal objectivo da análise táctica, é o mantra que norteia todo o processo de observação, interpretação e análise, contextualização e transmissão das informações sobre o “jogar” de determinada equipa. As equipas tem modelos de jogo elaborados pelos seus treinadores e construídos nas sessões de treino. Padrões de comportamento são acções que se repetem porque são treinadas exaustivamente pelos treinadores nessas sessões de treino. Faço uma pausa à narrativa para mostrar um exemplo muito concreto de uma sessão de treino comandada pelo Deus Arrigo num treino da selecção italiana em 1992:

Um processo de jogo ofensivo passível de se constituir como um padrão do jogar daquela equipa. Sacchi era um treinador que defendia a construção de uma identidade e a ideia de que a equipa deveria em qualquer circunstância ditada pelo adversário manter-se fiel à sua identidade ou seja, aos processos construídos. Sacchi era portanto um treinador que não dava muito espaço para a inovação.

Qualquer análise ao jogar de uma equipa deve portanto decifrar as orientações transmitidas pelo treinador aos seus jogadores. Essas orientações são no fundo os princípios (dinâmicas individuais e colectivas; acções tomadas por um jogador em determinado momento sob determinado contexto) que o treinador visa trabalhar nos seus jogadores para que o futebol da equipa tenha uma sequência lógica e possa contrariar a acção adversária, quer no plano defensivo, quer no plano ofensivo. A execução sistemática desses princípios em competição, revela comportamentos susceptíveis de exibir traços que permitem ao observador identificar padrões de jogo. A observação de uma sequência de jogos clarifica ainda mais estes padrões, evidenciando portanto um conjunto de informações que auxilia o observador a trabalhar a equipa de forma a contrariar esses mesmos padrões.

Nem todo o futebol é, porém, padronizado. O Mestre Júlio Garganta escreveu há uns anos, uma frase que me ficou retida no pensamento a propósito desse assunto: “O comportamento dos jogadores e das equipas, embora repousando sobre uma organização sustentada numa isonomia de princípios (os mesmos princípios valem para todos), movem-se entre dois pólos: o vínculo, ou seja, o estabelecido, as regras; e a possibilidade, a inovação”</em

O mestre abre portanto a porta para a autonomização dos jogadores em relação aos princípios trabalhados pelo treinador. Essa autonomização pode ser tomada de forma espontânea pelos jogadores ou incentiva pelo treinador. Ernesto Valverde é por exemplo um treinador que pede sistematicamente aos jogadores que expressem toda a sua criatividade, privilegiando a inovação em relação aos processos trabalhados. No entanto, Valverde não pode, de forma alguma fazer tábua rasa aos processos de jogo trabalhados anteriormente por Guardiola ou Tito Vilanova (ou até pelos treinadores de formação da formação culé visto que o jogar de Guardiola foi adoptado como a filosofia da formação do clube) porque como sabemos, o grau de assimilação dos jogadores a esses mesmos processos é, em virtude da repetição, enorme. No entanto, tenho denotado ao longo desta época que os jogadores culés tem revelado algum espírito de abertura para a realização de processos inovadores, introduzidos pelo treinador ou espontâneos.

O treinador do Dortmund Peter Bosz é um treinador que incute aos jogadores a necessidade de “pensar fora da caixa” quando os processos trabalhados (padronizados) não conseguem contrariar a acção defensiva adversária, aplicando-se portanto o conceito de “inovação” preconizado pelo Mestre Júlio Garganta. Existem regras e existe um trabalho que está estabelecido. Mas se esse trabalho não é suficiente para desmontar a organização defensiva adversária, os jogadores devem inovar, surpreendendo o adversário.

A equipa alemã é uma equipa que pratica, na saída de jogo, a clássica saída verticalizada. A ideia na saída de jogo passa pela verticalização do jogo dos centrais para os médios pelo corredor interior, procurando estes assim que recebem, lançar, com um passe a rasgar, em profundidade, as desmarcações dos extremos para as costas da defesa ou as desmarcações de Aubemeyang para as costas da defensiva adversária. Este é um dos processos padrão. Outro é este, um processo muito idêntico pese embora as assinaláveis diferenças registadas nas dinâmicas individuais requeridas a Andriy Yarmolenko:

Yarmolenko entra no corredor central e tenta servir em profundidade.

Como a formação inglesa conseguiu muito bem, pressionar a saída (nunca deixando os centrais procurar o jogo interior) e condicionar a acção dos interiores quando eram solicitados com passes verticais, para activar o jogo interior, a equipa alemã teve que recorrer a outro tipo de processos, inovando. Com uma saída em U, ou seja, uma saída lateral-central-central-lateral, a equipa pretendeu, circular para as alas numa primeira fase para atrair jogadores para aquela zona de forma a realizar uma rápida variação do centro de jogo visto que a maior concentração de adversários no corredor ou na zona interior daquele flanco, libertava mais espaço para jogar no corredor central e no outro flanco. Assim sendo, os centrais Schmelzer procurava Guerreiro e Guerreiro procurava imediatamente servir Kagawa ou Weigl em zona interior. Com espaço livre para progredir, Weigl procurava atacar o espaço (atraindo os defensores) antes de libertar para Gotze, que, poderia optar por progredir mais em condução ou tentar servir as desmarcações de Aubemeyang, Toljen (inserido na jogada abaixo linkada entre os defensores da formação inglesa) ou abrir para o flanco para Yarmolenko.

Aqui: minuto 10:15 até ao minuto 10:43 – este processo foi executado 2 ou 3 vezes durante o primeiro tempo. Assim que Aubemeyang marcou, a equipa deixou de o realizar. O dito processo não é portanto um processo padronizado mas sim um acto de inovação motivado pelas dificuldades criadas pelo adversário.

No lance do golo, a equipa decidiu voltar aos processos trabalhados. Weigl desceu no terreno para vir “pegar jogo” aos centrais, procurou servir o apoio frontal oferecido entre linhas por Kagawa

kagawa

O que é que o japonês poderia fazer nesta situação concreta? Como Raphael Guerreiro não se encontrava, no momento da recepção, a postos de explorar a profundidade caso o japonês decidisse rodar para o lançar em profundidade, o japonês recebeu o esférico, entendeu as intenções do companheiro, temporizou para aguardar pela chegada ao português (que já estava em flexão para o centro) e cruzou com ele, numa espécie de intercessão…

raphael guerreiro

(…) que ofereceu ao jogador português espaço para romper pelo interior e linha de passe para Yarmolenko. Como podemos ver neste frame, assim que o português entra no espaço livre, Yarmolenko, jogador que podemos ver junto aos centrais no primeiro frame, sai da marcação para oferecer uma linha de passe, e Pierre Emerick Aubemeyang dispara em velocidade para as costas dos centrais porque já sabe que a decisão do seu colega de equipa irá contemplar o seu movimento.

Quando vemos os jogadores a praticar “comportamentos em cadeia”, ou seja, comportamentos que são adoptados por determinado jogador em função do sucesso da acção de um companheiro, compreendemos que estamos perante um processo trabalho nas sessões de treino.

 

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Os golos da Champions

Peter Bosz é um homem de colhões no sítio. 

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Muitos dirão que o bloco defensivo subido (com a linha defensiva no meio-campo) apresentado pelo treinador holandês nos primeiros minutos da recepção caseira do Borussia de Dortmund ao Real Madrid é uma verdadeira estratégia de suicídio face a uma equipa que apresenta tanta qualidade de passe, mobilidade e rapidez na circulação da bola na fase de construção e dois avançados carnívoros (duas autênticas gazelas) no capítulo do ataque à profundidade. Para além do mais esta organização defensiva comporta os riscos que podemos ver no vídeo acima postado. A defesa subida abre um mar de espaço por atacar nas costas da defesa e qualquer falha de marcação pode não ter compensação possível ou pode obrigar um defesa a sair da sua marcação para fazer a compensação.

dortmund

Omer Toprak abandona a sua marcação para fazer a compensação (vulgo, dobra) a Toljan. Isto porque o lateral esquerdo internacional pelos sub-21 da Alemanha falhou por completo na marcação a Carvajal 

toljan

Eu prefiro porém qualificar a estratégia de jogo apresentada pelo técnico holandês, treinador que conduziu o Ajax à final da última edição da Liga Europa como uma prova de coragem. Coragem para obrigar o adversário a cometer erros no início da construção (perdendo a iniciativa), cumprindo uma das ideias-chave do jogo muito peculiar de Bosz: a recuperação da posse por parte da sua equipa num tempo inferior ou igual a 5 segundos. Contudo até a própria coragem tem que ter limites e efectivamente teve (aos 11″, após 2 lances de perigo no qual se evidenciaram vários erros, quer na pressão, quer na marcação, a equipa abandonou a estratégia traçada pelo treinador e baixou linhas; no segundo lance, valeu por exemplo uma rápida recuperação de Lukasz Piszczek para desviar atempadamente a assistência de Ronaldo) quando os resultados alcançados não são os resultados previamente pretendidos ou idealizados pelo treinador (este formato defensivo requer outro tipo de intensidade e agressividade na pressão; intensidade e agressividade que o Ajax de Peter Bosz efectivamente tinha e que só as equipas de Simeone e de Alegri conseguiram nos últimos anos ter nos últimos anos quando utilizaram um bloco subido frente a Barça e Real; facto que explica portanto a razão pela qual a equipa colchonera foi aquela que nos últimos anos conseguiu obter melhores resultados contra o Barça e o Real e a razão pela qual a Juve eliminou o Barça na Champions na temporada passada). No entanto fica aqui a minha nota de apreço em relação ao louco plano de jogo de Peter Bosz. E…

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O bailado de Son Heung-Min

 

O arrebatador drible do extremo sul-coreano sobre o central Sokratis Papastathopoulos numa sublime bicicleta na qual o jogador, passando a bola do pé direito para o pé esquerdo trocou por completo as voltas ao central grego e arranjou espaço para disparar aquele indefensável míssil que Roman Burki só pode ver passar. A vantagem de ser um jogador ambidestro.

Os golos do dia

Uma estreia de sonho para Ben Woodburn. Frente à selecção austríaca, na sua primeira internacionalização pelo País de Gales, o criativo extremo esquerdo de 17 anos, jogador que na temporada passada convenceu Jurgen Klopp a promovê-lo da equipa de sub-16 do clube à equipa principal manteve intactas as esperanças do País de Gales no Grupo D de qualificação. 5 minutos depois de ter entrado para o lugar de Tom Lawrence, o jovem de 17 anos conquistou os 3 pontos para os galeses com este golaço ao ângulo num remate de meia distância. Enquanto os austríacos estão praticamente eliminados (8 pontos frente aos 13 da Irlanda; selecção que hoje empatou na Geórgia), os galeses ganharam com este golo um novo balão de oxigénio na sua campanha, nas vésperas de um decisivo Sérvia vs Irlanda.

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Verticalidade, Pragmatismo e Finesse na Finalização

Como construir um golo em 8 toques. A verdadeira essência do futebol alemão resume-se a isto: cada falha do adversário é capitalizada com frieza e eficácia.

Bloco de Notas da História #21 – Lars Ricken – Dois golos que não me saem da cabeça

De vez em quando vem-me à memória, fazendo-me prender 30 ou 40 minutos numa viagem ao passado. 20 anos decorridos (como o tempo passa) sobre a grande vitória do BVB (leia-se em língua alemã BfB) na primeira edição do formato moderno da Liga dos Campeões frente à Juventus, ainda recordo com algum carinho a campanha da pragmática (para não dizer cínica; mais cínica que a Juve de Marcelo Lippi) equipa orientada por Otmar Hitzfeld. Continuar a ler “Bloco de Notas da História #21 – Lars Ricken – Dois golos que não me saem da cabeça”