O Aves de Lito Vidigal

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Ao longo da vida, é natural ou pelo menos deve ser considerado como natural a simpatia ou a preferência por determinadas pessoas ou personagens em detrimento de outras, cuja personalidade, carácter ou feitio choca directamente com a nossa(o), ou com aquelas cujas atitudes ou comportamentos praticados não se enquadram nos moldes dos valores éticos ou nos comportamentos que acreditamos, defendemos, ensinamos e praticamos. No entanto, o facto de não gostar da personalidade de determinada pessoa ou dos comportamentos que esta pratica, não me tolda ao ponto de não reconhecer a grandeza dos seus feitos, o luminoso brilho do seu pensamento ou a grandeza da sua obra. Ao contrário do português comum, o sucesso alheio não me cria qualquer espécie de confusão nem sequer uma pontinha de inveja. Infelizmente sei que vivo em completa contra-corrente em relação à realidade do país. Os portugueses têm uma certa tendência para idolatrar deuses com pés de barro que nada de útil tem para oferecer à sociedade e para ferrar o seu mesquinho bico naqueles que realmente tem conteúdo para oferecer. O português tem uma natural tendência para querer ter em igual marca e espécie o carro que o vizinho comprou. Se não consegue igualar o seu fato ou o seu feito, o português não descansa enquanto não descer o vizinho ao seu nível de mediocridade. A propósito disto um dia escreveu Torga nos seus diários:   “Só há uma solução quando se vive num ambiente medíocre, entre medíocres: recusar a mediocridade” – ao longo destes últimos meses, tenho-a recusado insistentemente, “afastando de mim esse cálice” – como um dia cantaram Milton e Chico Buarque. Continuar a ler “O Aves de Lito Vidigal”

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A horrível abordagem defensiva realizada pela formação portuguesa frente aos Estados Unidos

  1. 2018, será um tempo de renovação em parte do sector defensivo desta selecção. Se nas laterais, Fernando Santos ou, outro treinador que possa vir a assumir a equipa para o próximo ciclo em caso de uma estrondosa hecamtombe na Rússia, cenário que não acredito de todo que vá acontecer  (como sabem eu não sou particularmente fã do estilo de jogo desta selecção; mas, mesmo apesar de não ser um fã deste estilo de jogo que considero profundamente anacrónico e antagónico à identidade do jogo português, atribuo, no pior dos cenários, francas possibilidades de conseguirmos, pelo menos, chegar aos quartos-de-final; por outro lado só atribuo favoritismo a três selecções: Alemanha, Espanha e Brasil) está bem servido (embora reconheça que foram até ao momento raras as boas exibições defensivas de Nelson Semedo), no centro da defesa, poderemos ter que vir a renovar toda a frota findo o mundial. Nem José Fonte pode vir a escapar em virtude dos seus actuais 33 anos, embora me pareça que o central do West Ham tem condições físicas para continuar a servir a selecção pelo menos por mais dois anos. Abrindo-se a porta da saída a Pepe e Bruno Alves, abre-se a porta a uma renovação total no eixo do sector defensivo.

2.Sempre fomos um país formadores de razoáveis\bons defesas centrais. De Vicente Lucas a Pepe e Bruno Alves, passando por Humberto Coelho, Rui Rodrigues, Lima Pereira, Eurico Gomes, Fernando Couto, Jorge Costa, Ricardo Carvalho ou Jorge Andrade, o longo dos últimos 50 anos foram raros os momentos em que a nossa selecção teve dificuldades em encontrar uma dupla sólida para o sector. Esse estado pode efectivamente alterar-se no final do mundial. Pese o facto de existirem neste momento alguns jogadores com um futuro prometedor, e desses mesmos jogadores já terem dado provas no nosso campeonato, nas nossas selecções jovens ou noutros campeonatos (falo designamente de jogadores como Luis Neto, Ruben Semedo, Ricardo Ferreira, Fábio Cardoso, Frederico Venâncio, André Pinto, Josue Sá, Domingos Duarte) e de ainda estarem a maturar alguns talentos nos sub-21 (entre os quais Ruben Dias, o mais promissor dos centrais portugueses) neste momento, creio que neste momento nenhum destes dá sólidas garantias se for obrigado a assumir a titularidade da selecção. Ruben Dias é, repito, na minha opinião, o mais talentoso desta geração e é, aquele em quem mais deposito fé. Eu sou um apreciador de algumas das características de Rúben Semedo, mas reconheço-lhe por outro lado, noutros aspectos as suas evidentes falhas. Continuar a ler “A horrível abordagem defensiva realizada pela formação portuguesa frente aos Estados Unidos”

Keita e Forsberg – as chaves do sucesso do Leipzig. Um conjunto de notas sobre a derrota do FC Porto na Alemanha

forsberg

A deslocação do FC Porto ao reduto do Leipzig antevia-se naturalmente difícil, não obstantes as boas (e sólidas) exibições protagonizadas pelos portistas nos dois anteriores testes de exigência máxima realizados frente ao Mónaco e Sporting, partidas nas quais Sérgio Conceição conseguiu arranjar uma forma de suplantar o descarrilamento verificado frente ao Besiktas no Dragão, com uma profícua mudança no onze (a colocação de Herrera perto de Aboubakar) que tem permitido à formação da Invicta uma maior acutilância no capítulo da pressão à saída de jogo adversária e uma maior eficácia defensiva a meio-campo. A deslocação dos portistas ao terreno do 2º classificado da Bundesliga 2016\2017 e actual 3º classificado (a 3 pontos da liderança) da actual edição do principal escalão do futebol alemão, antevia-se difícil por várias razões: a primeira e mais destacável reside na qualidade dos processos de jogo da equipa orientada pelo austríaco Ralph Hasenhuttl. A segunda e não menos importante era ditada pela necessidade de somar pontos. As duas derrotas somadas frente ao Mónaco e ao Besiktas, obrigavam os alemães a vencer para acalentar o sonho de ainda poderem vir a discutir o apuramento para os oitavos-de-final. A terceira e também não menos importante, reside na qualidade individual de alguns dos seus artistas.  Continuar a ler “Keita e Forsberg – as chaves do sucesso do Leipzig. Um conjunto de notas sobre a derrota do FC Porto na Alemanha”

Frente a uma equipa extremamente competente, o empate foi um mal menor

gelson

Confesso que estive aqui meia hora a sistematizar o jogo na minha cabeça para que nenhum pormenor me pudesse escraver na altura de escrever este post. O meu exercício acarreta porém, quase sempre uma inevitabilidade. Por mais que a tente fintar, o meu exercício acaba sempre gorado: a multiplicidade quase milionária de acções, posicionamentos, processos, situações, frames muito específicos nos quais virtudes e forças, erros e fraquezas, impedem-me de conseguir escarrapachar tudo no teclado.  A minha sistematização ajudou-me porém a compreender que o Sporting não fez contra o Porto um jogo tão bom quanto o que foi realizado contra o Barcelona. Já o FC Porto fez um jogo tão bom quanto o que fez no Mónaco, claudicando apenas na hora de finalizar. Muito mais fortes e mais competentes que os leões no primeiro tempo (no segundo tempo padeceram do estado físico que acompanhou a formação leonina durante os 90 minutos), a exibição do onze portista faz-me lembrar aquelas partidas de bilhar nas quais, em 7 tacadas, um jogador limpa o bolo de uma assentada mas não consegue finalizar a partida por falta de engenho para meter a bola preta à tabela.

Ao contrário do que aconteceu na partida realizada na quarta-feira frente aos culés, o Sporting não se exibiu a um nível tão eficiente no quadro da fase de organização defensiva (razão que explica em parte as 3 ou 4 situações de golo que os portistas tiveram no primeiro tempo) e ofensivamente voltou a padecer de vários males, males que de resto têm atormentado as exibições da equipa nos últimos jogos: os erros cometidos na transição ofensiva (uma amálgama de passes falhados e de decisões mal tomadas na hora de sair a jogar), indefinição na criação ofensiva (mais uma vez, o Sporting criou poucos lances de perigo real junto à área adversária) e dois matchpoints capitais desperdiçados por falta de engenho dos respectivos intervenientes. Se Bruno Fernandes… Se Bas Dost… Se William… se se se – uma equipa que quer praticar um futebol mais cínico nos jogos contra equipas grandes não se pode dar ao luxo de perder oferta que seja nem pode viver do se nos poucos lances que constrói. Tem que ser eficaz, segura e mais ousada do que aquilo que foi.

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Os golos da jornada (1ª parte)

A importância de uma boa saída na transição para o contra-ataque: o segredo da vitória do FC Porto em Vila do Conde. 

Começo este post com um par de notas sobre a vitória dos portistas em Vila do Conde.

A equipa de Sérgio Conceição teve na primeira parte algumas dificuldades para contrariar a bem montada estratégia de jogo por parte de Miguel Cardoso, estratégia que diga-se de passagem é a mais verdadeira matriz identitária desta equipa. À imagem e semelhança daquilo que fez contra o Benfica, nos primeiros 45 minutos, o treinador do Rio Ave (agente cujo “berço de treino” foi precisamente a formação do FC Porto) apostou nos habituais e bem trabalhados\apurados processos de construção da equipa (iniciados a partir de trás, dos pés do guarda-redes Cássio) para dominar a posse de bola, acima de qualquer outro aspecto, conseguir ultrapassar as duas primeiras linhas de pressão do 4x3x3 subido escalonado por Conceição para colocar os seus médios ofensivos, Tarantini e Barreto de frente para o jogo e com espaço para acelerar a construção ofensivo no meio-campo adversário, aproveitando o espaço existente entre a linha média e a linha defensiva da formação portista.  Continuar a ler “Os golos da jornada (1ª parte)”

Conceição e a “mudança do chip” para as competições europeias

sérgio conceição

“Se alguém é culpado desta derrota sou eu. A abordagem estratégica a este jogo não foi boa.»

Conceição deu a cara pela derrota mas não revelou, por motivos óbvios, aquilo que toda a gente pode ver à vista desarmada no jogo desta noite: uma equipa de meio-campo partido, no qual Danilo foi demasiado exposto a situações de inferioridade numérica em função das subidas de Oliver no terreno e do expresso apoio que é dado pelo médio ofensivo espanhol ao sector mais avançado, facto que o tornou o trinco incapaz para apagar todos os fogos na saída para o contra-ataque do adversário.  Continuar a ler “Conceição e a “mudança do chip” para as competições europeias”

Aspectos positivos e negativos que me agradam\desagradam neste Porto de Sérgio Conceição

  • Transição apoiada e muito dinâmica, na qual todos os jogadores procuram mover-se para oferecer linha de passe e baralhar por completo a defesa adversária. Oliver é o cérebro da construção. Entradas de jogadores entre linhas. Vejam-se por exemplo as movimentações de Brahimi e Corona dentro do bloco adversário ao minuto 1:58.
  • O comportamento de Danilo quando a equipa tem a posse de bola não é uma novidade. Quando o trinco se junta aos centrais num sistema de 3 em posse, permite a abertura dos centrais e a projecção dos laterais no terreno. Os centrais interligam o jogo com o interior (laterais) e a projecção dos laterais permite aos extremos adoptar uma posição mais interior. Conforme o posicionamento que aqui vemos:

A vermelho: os dois laterais (Ricardo e Telles subidos, projectados), Brahimi e Corona, dentro do bloco adversário.

A azul: os centrais a interligar rapidamente o jogo com os laterais.

A preto: o espaço dado pelo lateral do Portimonense. Pode ser atacado rapidamente pelo lateral do Porto ou pode dar azo rapidamente a um 1×2 em virtude do posicionamento de Corona. Bastará que o extremo se aproxime e tabele para colocar o seu lateral com possibilidade de cruzar sem oposição ou lançar Aboubakar na área.

A defesa do Portimonense irá ser naturalmente arrastada para o flanco esquerdo. Se eventualmente o lateral devolver o passe ao central, este pode tentar variar imediatamente para o outro lateral.

  • Os triângulos nas alas oferecidos pelos avançados ou pela entrada dos médios interiores nos corredores. Superioridade numérica no seu expoente, sem que os avançados descurem o trabalho de área que tem que realizar:

Soares

Herrera

Herrera\André André – excelente incursão sem bola deste último para o espaço vazio para o qual Hernani vai passar. Adorei este lance. Excelente futebol.

  • Pressão média (a caminhar naturalmente para o modelo de Conceição, ou seja média\alta no meio-campo adversário, logo à saída de jogo) algo eficaz mas com uma pescadinha de rabo na boca.

Nesta jogada (minuto 5:55 do vídeo) Alex Telles está claramente a dormir. O posicionamento do lateral obriga a equipa a meter um jogador adicional no momento de pressão ao adversário. Os jogadores da formação algarvia conseguem retirar a bola da zona de pressão, para a entrada de um jogador numa posição que não está ocupada. Acresce o facto de Danilo estar ligeiramente mal posicionado. Nem está perto o suficiente para cortar logo o tempo e o espaço para pensar e executar ao jogador nem está a fazer a marcação ao avançado.

O desequilíbrio está criado. Ricardo Pessoa tem duas linhas de passe. Na esquerda (Ricardo foi obrigado a vir ao meio compensar) e no próprio avançado. Optou e bem pela colocação da bola no flanco esquerdo.

Ou muito me engano ou este Porto será muito permeável assim que as equipas adversárias conseguirem ultrapassar a pressão que é executada pela sua linha média.

  • Os laterais encontram em demasia aos centrais e dão muito espaço.

A única excepção é, para já, Maxi.