60 anos depois, a fava calhou aos italianos

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Foi com o rosto lavado em lágrimas, apoiado no carinho fraternal que lhe foi oferecido imediatamente por Robin Olsen, um dos carrascos da selecção italiana na noite do San Siro, que Gigi Buffon disse adeus à Squadra Azurra conforme tinha prometido na conferência de imprensa caso a selecção italiana viesse a ser eliminada.

“Não tenho pena por mim mesmo, mas sim por todo o futebol italiano. Falhámos em algo que poderia ter um significado também a nível social. Lamento por tudo terminar assim, não pela passagem do tempo. Aqueles que jogaram sabem o quão duros são estes jogos. Não fomos capazes de nos exibirmos ao nosso melhor nível. Faltou-nos capacidade para marcar. Os playoffs são decididos em detalhes e, hoje, os detalhes estiveram contra nós. Mas conseguimos perceber quando ficamos em falta… Tivemos orgulho, força e fomos persistentes. Sabemos o que temos de fazer para nos levantarmos, como sempre fizemos. A culpa é para ser distribuída por todos. Não pode haver bodes expiatórios. Ganhamos juntos; perdemos juntos. Estou a deixar uma Itália que saberá falar por si mesma. Abraços a todos, especialmente para aqueles que partilharam esta maravilhosa jornada comigo”.

Quer queiramos quer não, aos olhos do povo italiano só haverá por estes dias um um único culpado por esta eliminação: Giampiero Ventura. É natural que assim o seja. No fundo do seu bau repleto de senso comum e até de de desconhecimento sobre o jogo e sobre os processos de treino, é natural que o povo tenda a projectar levianamente todas as culpas do fracasso no treinador para salvaguardar (e valorizar) o esforço de todos os atletas, descurando por vezes pequenos pormenores que fazem toda a diferença para explicar um bom rendimento de um mau rendimento desportivo. A culpa foi exclusivamente do retrógrado modelo ultradefensivo preconizado e operacionalizado pelo treinador? Terão os jogadores assimilado totalmente esse modelo nas sessões de treino? Terá o treino feito todos os esforços para passar correctamente a sua ideia de jogo e tudo aquilo que este pretendia do rendimento de cada jogador? Terão os jogadores aplicado em campo tudo o que foi trabalhado? Terão alguns jogadores sentido o desgaste da relação com o treinador, visto que muitos destes trabalharam vários anos com Ventura? Terão sentido vontade para triunfar? Por vezes, a vontade de vencer, o querer, a vontade de ir lá e esganar com todas as forças um adversário para ter uma oportunidade para brilhar ao mais alto nível (só Deus sabe quanto os jogadores suspiram pela oportunidade de jogar num mundial, não só pelo prestígio e orgulho que tal participação lhes confere como pelo cartão de visita que tal participação poderá deixar nas suas carreiras; como sabemos as exibições de um determinado jogador num Mundial é mais valorizada para efeitos de mercado do que a regularidade demonstrada numa época inteira, por exemplo) é o clique que supera qualquer desentendimento pessoal ou qualquer situação menos positiva existente no grupo de trabalho. Não quero de todo prestar-me ao papel de advogado do diabo de Giampiero Ventura porque ao fazê-lo estaria a ser incoerente com o que escrevi aqui a propósito do empate somado frente à ascendente Macedónia. Ventura possui inegavelmente a sua quota parte de culpas no cartório. Ventura teve dois anos para trabalhar com este grupo de jogadores. O resultado do seu trabalho não foi zero. Foi pior que zero. Arrisco-me a dizer que até Delio Rossi, o mais medíocre dos medíocres, atrasadinhos e anacrónicos treinadores italianos, conseguiria fazer melhor que Ventura. Esta Itália apareceu, quase em toda a fase de grupos, sem capacidade para assumir o jogo contra selecção inferiores (aspecto que se apresenta como um denominador comum com o “seu Torino” – uma equipa excessivamente formatada para os processos defensivos e para sair no contra-ataque), com processos de jogo básicos, privilegiando sempre o jogo de exterior e altamente padronizados (criando uma certa previsibilidade junto do adversário; até os macedónios no mês passado conseguiram contrariar com facilidade esses processos de jogo; processos de jogo que também eram no fundo a mais fiel imagem do seu Torino; “Bruno Peres, vai à linha, cruza e Immobile de cabeça, já está” – tudo correu bem até ao momento em que Immobile saiu para Dortmund e Cerci saiu para Madrid) quando foi obrigada a ter que assumir os desafios em ataque posicional, com uma opção ultradefensiva que já não se utiliza (os três centrais e os dois trincos) e cujos custos foram facilmente observáveis a olho (um meio-campo sem qualquer ponta de criatividade; em determinados jogos, contra selecções como a Macedónia ou a Albânia ou até na partida desta noite, um meio-campo sem qualquer utilidade a partir do momento em que os centrais se sentiram confortáveis para subir no terreno face à disposição adversário para serem eles mesmos a iniciar e a manobrar a construção de jogo) e com uma falta de rigor nas fases defensivas que não é nada habitual no futebol italiano.  Recordo-me do jogo contra a Macedónia. No segundo tempo dessa partida, o espaço concedido entre linhas pelos italianos no seu bloco defensivo recuado foi um verdadeiro convite a um fartar vilanagem que os macedónios naturalmente aproveitaram.

Esta ideia fica latente: quando os adversários foram capazes de trocar as voltas aos italianos, impossibilitando-os de jogar confortavelmente de cadeirinha no seu meio-campo e de fazer a diferença no contragolpe, a formação de Ventura ficou completamente desamparada e seca de ideias.

Contudo, o maior culpado desta eliminação é obviamente o actual presidente da FIGC Carlo Tavecchio. De entre todas as escolhas nacionais e internacionais possíveis para o cargo de seleccionador Tavecchio foi escolher certamente o pior treinador em mãos. Quando Ventura foi contratado, a FIGC já sabia o difícil ciclo que teria em mãos e já saberia o quão difícil seria bater a Espanha na fase de grupos. Os responsáveis da FIGC já sabiam que o desfecho da qualificação poderia ser este. No entanto, nem a leitura nem o conhecimento de tal cenário fez imperar a necessidade de iniciar um ciclo de tamanho grau de complexidade de montar num curtíssimo espaço de tempo uma equipa combativa que pudesse preferencialmente bater o pé aos espanhois, ou, na pior das hipóteses ter um estilo de jogo que tornasse a ida aos playoffs uma viagem mais segura e sobretudo mais confiante. Basta olhar para o curriculum de Ventura enquanto treinador para perceber que só em situações de extraordinária demência poderia alguém confiar-lhe nas mãos semelhante tarefa: Napoli zero. Messina zero. Verona zero. Pisa zero. Bari zero. Torino terá sido seguramente a melhor experiência de Ventura enquanto treinador, encontrando-se aqui a relação causal que explica a razão pela qual a FIGC avançou para a sua contratação, dados os vários convocáveis que este pode orientar naquela cidade. No entanto, um ou dois pequenos exitos alcançados naquele clube, em condições que não podem de forma alguma ser exacta e rigorosamente replicáveis noutra experiência futura porque entretanto todos os jogadores sofrem pequenas mudanças em função das experiências adquiridas noutros clubes com outros treinadores, vêem os seus quadros (físico, mental, psico-cognitivo) alterados, não servem de garantia para nada. Com alguns destes jogadores, Ventura saiu do Torino em alta com uma histórica qualificação para a Liga Europa e saiu da selecção italiana prontinho para a reforma, ou, na melhor das hipóteses, para assumir um Pordenone ou um Varese.  Continuar a ler “60 anos depois, a fava calhou aos italianos”

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Um verdadeiro show de bola oferecido pelas duas melhores equipas da actualidade do futebol alemão

Gelsenkirchen Deutschland 19 09 2017 1 Bundesliga 5 Spieltag FC Schalke 04 FC Bayern Muenche

Feliz e de barriga cheia deverá ter ficado aquele que, de toda a generosa oferta existente durante a noite de hoje, escolheu ver a partida disputada (a contar para 2ª ronda da DFB Pokal, para infelicidade do Leipzig, equipa que poderia ter outro destino na prova se não tivesse que enfrentar numa fase tão precoce da competição o poderoso Bayern) entre o RasenBallsport Leipzig e o Bayern de Munique. A partida foi muito mais do que unanimemente foi declarado pelos comentadores da Sky Sports Deutschland no final dos 90 minutos regulares quando exclamaram: “bem, não vimos o tempo a passar nestes 90 minutos de puro e expressivo momento de futebol, daquele futebol sem amarras que gostaríamos de ver mais vezes no nosso campeonato” – a partida foi um verdadeiro momento de afirmação, um momento de declaração de interesses quiçá tão solene quão solene foi em 1987 aquele célebre discurso no qual, à frente do muro de Berlim, em 4 actos, o presidente norte-americano pediu ao seu congénere soviético e ao seu camarada Erich Honecker para que a cortina de ferro fosse derrubada: “Mr Gorbatchov, open this cage. Mr Gorbatchov, tear down this wall”. 

Foi mesmo disso que se tratou toda a atitude positiva de entrega, espírito de combate, espírito de superação dos homens da casa: este Leipzig de Ralph Hassenhuttl, projecto bem ambicioso que está a ser extraordinariamente bem coordenado pela Red Bull, quer mesmo contribuir para o derrube do muro que separa o Bayern das restantes equipas alemães. E quer derrubá-lo pela força, ciente que só uma desrespeituosa atitude (ousada e irreverente mas ao mesmo tempo ciente das adversidades que lhe esperam quando os seus principais craques forem naturalmente seduzidos pelos milhões de outras paragens mais atractivas; Naby Keita, por exemplo, rumará a Liverpool na próxima temporada) pode efectivamente ajudá-los à concretização deste objectivo. Quando todos os clubes (até o próprio Borussia de Dortmund) têm olhado para o solo no momento de prestar vassalagem a este Bayern, os Saxões perderam completamente o medo e olharam de frente o pentacampeão.  Continuar a ler “Um verdadeiro show de bola oferecido pelas duas melhores equipas da actualidade do futebol alemão”

Keita e Forsberg – as chaves do sucesso do Leipzig. Um conjunto de notas sobre a derrota do FC Porto na Alemanha

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A deslocação do FC Porto ao reduto do Leipzig antevia-se naturalmente difícil, não obstantes as boas (e sólidas) exibições protagonizadas pelos portistas nos dois anteriores testes de exigência máxima realizados frente ao Mónaco e Sporting, partidas nas quais Sérgio Conceição conseguiu arranjar uma forma de suplantar o descarrilamento verificado frente ao Besiktas no Dragão, com uma profícua mudança no onze (a colocação de Herrera perto de Aboubakar) que tem permitido à formação da Invicta uma maior acutilância no capítulo da pressão à saída de jogo adversária e uma maior eficácia defensiva a meio-campo. A deslocação dos portistas ao terreno do 2º classificado da Bundesliga 2016\2017 e actual 3º classificado (a 3 pontos da liderança) da actual edição do principal escalão do futebol alemão, antevia-se difícil por várias razões: a primeira e mais destacável reside na qualidade dos processos de jogo da equipa orientada pelo austríaco Ralph Hasenhuttl. A segunda e não menos importante era ditada pela necessidade de somar pontos. As duas derrotas somadas frente ao Mónaco e ao Besiktas, obrigavam os alemães a vencer para acalentar o sonho de ainda poderem vir a discutir o apuramento para os oitavos-de-final. A terceira e também não menos importante, reside na qualidade individual de alguns dos seus artistas.  Continuar a ler “Keita e Forsberg – as chaves do sucesso do Leipzig. Um conjunto de notas sobre a derrota do FC Porto na Alemanha”

Momentos da jornada europeia de qualificação para o Mundial

O fantástico momento individual do extremo bielorusso Pavel Savitskyi na vitória de Bielorussia frente à Bulgária por 2-1 no jogo a contar para o grupo A. Jogada de processos simples dos bielorussos. Passe muito bem calculado em profundidade do centrocampista Stanislav Dragun para a corrida do seu avançado frente ao central búlgaro Vasil Bozhikov. Com um drible para o interior, o avançado bielorusso do modesto Neman Grodno da liga bielorussa, tirou o seu oponente directo do caminho antes de realizar a preciosidade técnica que só parou no fundo das redes de Nikolai Mihaylov. Continuar a ler “Momentos da jornada europeia de qualificação para o Mundial”