Aquele momento em que Mauro Icardi rebenta com os centrais da Atalanta

Esta espécie de contra-movimento é de Ponta-de-lança com P grande e de Killer com K. Que valente dummy pregado no central da Atalanta.

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Bloco de Notas da História #38 – Obrigado e até sempre Grande Regista (2ª parte)

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A 1ª parte deste post pode ser consultada aqui. 

Costumo dizer, em tom sério, que no futebol italiano, a vida de um calciatore goza de um estado de excepção raro no futebol europeu. O calciatore, herdeiro em certa parte do estatuto e da função outrora possuída pelos gladiadores romanos na tradição clássica do “Panis et circensis” (o entertainer das “massas”; o mantedor da paz social; a peça chave da promoção política de um espectáculo selvático, sensacionalista e enleante da atenção das massas como o mais eficaz método de controlo social e de manutenção do status quo do próprio agente político) possui, à semelhante dos felinos, 7 vidas para ir gastando ao longo da sua carreira. A experiência que adquiri ao longo de 22\23 anos de observação ao interessantíssimo fenómeno (complexo até à medula) que é o futebol italiano, fez-me chegar a uma conclusão que me parece ser do mais amplo interesse para compreender a cultura futebolística daquele país: um calciatore jamais sucumbe ou é ostracizado em função de uma má experiência num dos maiores clubes daquele campeonato, facto que não acontece noutros países. Em Portugal, quando um jogador é dispensado por um clube grande muito dificilmente voltará a jogar por esse ou por outro dos grandes do nosso país, embora, tenham havido várias excepções históricas a esta regra. Quando um jogador cai da 1ª para a 2ª liga, o estigma criado (a descida de divisão) torna-o menos apetecível. Ninguém pretende pagar para ter a desgraça à sua porta. Quando um jogador que fez 2 ou 3 ou até 5\6 anos na 1ª liga cai para uma 2ª divisão B, muito dificilmente regressa aos campeonatos profissionais, a não ser que, porventura, apareça um conhecido a dar a mão. No futebol, não existem almoços grátis. Nem mesmo para aqueles que são empurrados pelos empresários das divisões amadoras para as divisões profissionais. Na hora de assinar, o empresário aparecerá para reclamar o seu verdinho, estropiando o produto, independentemente do esforço que o seu “servo” fez para subir. No futebol italiano a coisa é ligeiramente diferente. O jogador que hoje não serve para uma Juventus, poderá daqui a 2 anos servir para um Milan se fizer um bom percurso no Genoa. O que não singra num Inter, poderá dentro em breve constituir-se como a peça chave para a conquista da Roma, se mostrar em Sassuolo que tem capacidades para preencher os parâmetros de jogo definidos pelo treinador da Roma. Tal cultura de rotatividade, cultura que oferece ao jogador a possibilidade de, anualmente, acumular, nos mais variados aspectos do jogo, experiências com treinadores que pensam e vêem o jogo de forma divergente, que possuem diferentes ideias de jogo, diferentes princípios, diferentes processos, diferentes perspectivas em relação às dinâmicas individuais e colectivas, diferentes metodologias de trabalho, diferentes objectivos pessoais até, contudo, quase sempre dentro dos moldes gerais em que foi construída a identidade do futebol daquele país, torna o jogador italiano um jogador riquíssimo nas várias dimensões do jogo, com especial enfoque para as dimensões táctica e psico-cognitiva. Riquíssimo porque, tacticamente, já experimentou um pouco de tudo e já foi experimentado\rotinado em várias posições do campo. O futebol italiano é um futebol que contempla uma certa atitude experimental de aprendizagem por tentativa\erro. Riquíssimo porque o jogador conhece amplamente o jogar de vários treinadores e as valências de todos os adversários, adversários que poderão ter sido nas épocas anteriores, colegas de equipa.

O treinador italiano raramente ensina o quer que seja ao nível de técnica individual ou raramente trabalha o físico do jogador. O jogador é responsável pelo cultivo do seu físico, devendo apresentar-se no início da cada temporada com o aporte físico e fisiológico necessário para começar a trabalhar intensivamente as ideias de jogo do seu treinador. O jogador é responsável pela sua alimentação e pela indispensável frugalidade dos seus hábitos de vida, embora, nesse campo, os italianos estejam 20 anos à frente do resto do mundo, podendo-se até mesmo dizer que os profissionais que trabalham nos laboratórios dos clubes (fisiologistas, especialistas em medicina desportiva, fisioterapeutas, nutricionistas, biólogos) conseguem prever, com algum rigor, através da análise detalhada a uma série de factores intrínsecos iunerentes ao organismo do atleta  (flexibilidade, histórico de lesões, características antropométricas, densidade óssea, composição corpórea e condicionamento cardiovascular) a duração da carreira de um atleta, os factores de risco causadores de lesões, o tempo exacto da carga suportável por cada atleta, entre outras coisas giríssimas que tenho aprendido nos últimos meses. Continuar a ler “Bloco de Notas da História #38 – Obrigado e até sempre Grande Regista (2ª parte)”

A humildade de Buffon

buffon

“Cada um tem o seu tempo. Sou obrigado a respeitar as decisões do clube, que compra guarda-redes mais novos e talvez melhores do que eu. Quero encerrar a carreira da melhor forma possível, honrá-la até ao último dia” referiu o guarda-redes no final da partida disputada entre a Juve e o Milan.

Não é falsa modéstia, é humildade.

Como? Repete lá? Melhores que quem? Quantos? Quantos é que o podem dizer no teu país? Sim, em toda a história do futebol italiano? Quantos no Mundo? Quantos na história? Paremos por breves segundos para esquadrinhar de fio a pavio a história do futebol. Quantos guarda-redes foram tão influentes na sua história do futebol? Quantos é que podem olhar em retrospectiva para a sua carreira de forma a poder afirmar: “Sim, a minha carreira é ou foi equiparável ao nível de grande à do Buffon” – Poucos. Certamente poucos. E actualmente? Sim, actualmente? Quantos? Quantos dos “novos” é que possuem a tua agilidade? Quantos é que ainda possuem a tua flexibilidade? E os teus reflexos? Quantos é que algum dia poderão atingir o teu nível e estatuto na história do futebol? Um, talvez. O teu homónimo Gigi Donnaruma. Se continuar a evoluir como tem evoluído. Se. Suposição. Quando tinhas a sua idade, no Parma, já ninguém alimentava qualquer suposição em relação ao teu potencial. Lembro-me perfeitamente. Já não eras o “se”. Eras o futuro. Contudo, neste momento, no futebol poucas são as certezas. Promessas haverão de existir sempre muitas porque o futebol vive literalmente de dúvidas, dívidas e promessas, mas certezas existirão sempre poucas. Quantos é que possuem ou possuíram o elan com que tu comunicas para a tua defesa, bastando por vezes uma única palavra para os galvanizar para uma excelente exibição, bastando por vezes um “estou aqui” para transformar um lance com potencial para o adversário numa bola que morre lentamente nas tuas mãos… Quantos guarda-redes é que poderão dizer que ofereceram segurança a mais de 3 gerações de defesas? Quantos? A verdade é só: uma grande parte daqueles que jogaram nestes últimos 20 anos à tua frente cresceram porque tu estavas lá, porque tu acrescentavas segurança e confiança a toda a equipa! O Lilian Thuram, o Paolo Montero, o Giorgio Chiellini, o Robert Kovac, o Domenico Criscito, o Balzaretti, o Fabio Cannavaro, o Jean-Alain Boumsong, o Alessandro Birindelli, o Jonathan Zebina, o Martin Cáceres, o Fabio Grosso, o Nicola Legrotallie, o Zdenek Grygera, o Leonardo Bonucci, o Andrea Barzagli – todos. Todos sabiam que em caso de falha, tu estarías nas suas costas, ávido para a compensar com uma das tuas monumentais estiradas junto ao poste. Todos sabiam que não bastava ao adversário passá-los em velocidade, dobrá-los com uma rabona, saltar mais alto nos pontapés de canto: havia uma muralha intransponível nas suas costas. Uma muralha que todos queriam bater. Ainda há poucos meses, o rapazito do Mónaco (actualmente no PSG), o Kylian, referiu, que o maior sonho da vida dele era marcar-te um golito. Ele bem tentou, mas tu estragaste-lhe, por ora, o desiderato.

Se efectivamente for verdade o que dizes, Gigi, os dirigentes da Juve revelam o que facto meia Itália pensa a seu respeito: os ingratos Agnelli pertencem à escola mais perigosa do capitalismo selvagem. Pertencem à escola daqueles que gastam vidas humanas até à exaustão para seu próprio benefício, descartando-os à posteriori com um belo de um chuto no rabo quando sentem que é hora de passar para outro que lhes possa dar mais rendimentos. É um pouco disso que se trata. Tu não estás velho por mais que o teu BI diga que já passaste dos 4. Todas as pessoas que te vêem semanalmente o compreendem facilmente. Tu poderás estender a tua carreira até ao ponto em que digas: “não estou em condições de ter um rendimento minimamente aceitável” ou simplesmente, “estou farto disto. Quero fazer mais da minha vida” – se te retirares por esses motivos, toda a sua gente te compreenderá e toda a gente saltará do sofá ou da cadeira de estádio para te prestar aquela longa salva de palmas que bem mereces na tua despedida. O que se trata neste caso é que os tipos da tua direcção acham que está na hora de contratar o teu homónimo do Milan para facturar mais uns milhões com a venda de camisolas e de direitos de imagem. Mesmo que não estivesses em condições de continuar, jamais seria capaz de te despedir dessa forma porque tu não foste somente importante nos títulos conquistados pelo clube, não foste somente importante no título conquistado pelo teu país em 2006, não foste somente importante no estilo que criaste, não foste somente importante pelas causas pelas quais deste a cara ao longo destes 20 anos – quer tu queiras, quer não queiras, tu foste o responsável pela saída de milhares de pessoas de uma condição de miséria absoluta. Não tenhas a menor dúvida. Esse será o teu maior legado. Podes não te aperceber mas foram centenas, provavelmente milhares aqueles que do nada, ao ver os teus voos estampados nos posters colados à chapa das suas habituações, interiorizam para consigo: “Um dia quero voar de poste a poste como o Buffon” – E voaram, tornando-se profissionais de futebol.

Esse é o teu legado.

Os golos do dia

Ainda sobre a ronda de jogos que se disputaram a meio da semana enquanto se pisca o olho à nova jornada que está aí à porta com vários jogos na noite desta sexta-feira.

Um classico à Kolarov

No 2º golo da goleada infligida pela Roma ao “pobre” Benevento, equipa que ainda não somou qualquer ponto no seu regresso ao convívio com os grandes 82 anos passados da sua primeira participação no campeonato do primeiro escalão do futebol transalpino. Acção individual clássica do possante lateral esquerdo internacional sérvio, jogador que reforçou a formação de Eusébio Di Francesco na presente temporada, após ter sido dispensado por Pep Guardiola.  Continuar a ler “Os golos do dia”

Os golos da jornada

Começo este post com o lance que deu origem ao primeiro golo do Inter na vitória dos nerazzurri por 2-0 sobre o recém promovido SPAL no jogo disputado durante a tarde de hoje no Giuseppe Meazza. A equipa de Luciano Spaletti está a conseguir realizar um prometedor arranque de temporada. Com 3 vitórias em 3 jogo e um futebol de um grau de qualidade muito aceitável, Spaletti parece estar a querer elevar o nível na formação nerazzurri. Veremos até onde este ciclo de vitórias se poderá estender.

Frente ao SPAL, modesta equipa patrocinada pela histórica e homónima empresa de porcelanas mundialmente conhecida que tem a sua sede na cidade de Ferrara (Emília Romagna; zona do vale do Pó) a formação do Inter teve algumas dificuldades para conseguir chegar ao primeiro golo em função das dificuldades criadas pela boa cobertura posicional do adversário no seu bloco recuado. Uma boa jogada realizada no interior do bloco adversário valeu a conquista (a João Mário) da grande penalidade que Mauro Icardi concretizou.  Continuar a ler “Os golos da jornada”

Os golos do dia

Começo pelo quentinho clássico disputado no Olímpico entre a Roma e o Inter (1-3) mais concretamente pelo lance do golo que deu vantagem aos romanos numa partida em que a formação de Eusébio Di Francesco mandou 3 bolas aos ferros da baliza de Samir Handanovic.

Bom trabalho de Grégoire Defrel a encontrar a linha de passe para Naingollan perante a desvantagem que possuia frente aos 2 jogadores do Inter que estavam a realizar a cobertura. O cruzamento do belga é soberbo assim como também é a desmarcação do ponta-de-lança bósnio no meio dos dois centrais da formação de Spalletti. Aproveitando a falha de marcação, o bósnio pede atempadamente a bola para as costas, posiciona-se no limite da linha defensiva, entra nas costas dos centrais, mata a bola no peito e coloca um daqueles remate secos dignos do killer instinct que só os grandes pontas-de-lança conseguem ter no momento de finalizar.

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Análise – Final da Champions – Juventus 1-4 Real Madrid – Que vendaval foi aquele que passou em Cardiff?

Que espécie de vendaval passou por Cardiff na noite de hoje? Que espécie de apagão, que autêntico reset foi aquele que se verificou na máquina de Massimiliano Allegri? Como é que se explica o facto de uma equipa experiente e cínica como a Juve, capaz de se adequar a todos os adversários sem abdicar dos seus princípios e da sua identidade, tenha tombado daquela forma em 45 minutos? Como é que se explica o facto desta equipa ter cometido mais erros defensivos em 45 minutos do que aqueles que tinha cometido em 12 partidas? Foi a pressão do momento? Foi o cansaço? Foi um enorme bloqueio emocional? Foi a maior frescura física das unidades adversárias? Foi o incansável trabalho dos médios merengues? Foi o maior dinamismo de todas as unidades do Real Madrid? Aqueles que viram o jogo com um mínimo de atenção conseguirão facilmente encontrar as pistas que ajudam a explicar a 12ª vitória na competição do bicampeão europeu Real Madrid.

Os merengues foram efectivamente mais fortes. Foram mais fortes e mais rígidos no plano defensivo. Foram mais fortes nas batalhas a meio-campo vencendo praticamente todos os duelos individuais. Foram mais fortes no capítulo da marcação ao adversário. Foram mais dinâmicos, fazendo da sua dinâmica posicional a sua melhor arma para destruir por completo o rígido bloco defensivo bianconeri. Foram também mais criativos, mais interventivos, mais cientes daquilo que pretendiam fazer com o jogo. Criaram mais oportunidades de ouro e voltaram a beneficiar do poder de finalização da sua grande máquina, do seu grande Deus do futebol. Aproveitaram as segundas bolas como se de oportunidades de ouro, de vida ou morte, se tratassem. Pudemos verificá-lo nos 2 golos que mudaram por completo uma partida que até teve uma primeira parte minimamente encaixada dentro das expectativas iniciais de equilíbrio. Os bianconeri fizeram um percurso perfeito na competição. Os madridistas não realizaram um percurso tão perfeito na competição. Pode-se até mesmo dizer que em determinadas ocasiões (contra o Sporting, contra o Bayern, contra o Atlético) a equipa foi conseguindo chegar ao seu objectivo final através de uma estrada cheia de solavancos, pedras e ressaltos. Mas, ao fim de 9 meses, pode-se dizer que foram a formação mais competente, revalidando o seu domínio quase completo do futebol europeu na presente década.

Claro que tenho pena que Gigi Buffon não tenha ganho o seu merecido troféu de campeão europeu. Por tudo o que deu ao futebol, o veterano merecia ter vencido a final de hoje. A formação de Turim voltou nos últimos anos a afirmar-se de acordo com os pergaminhos da sua imensa história. Allegri devolveu o orgulho europeu à Velha Senhora. O treinador italiano voltou a fazer da Juve um crónico candidato ao título europeu. O importante agora é não desistir. Se voltar a arrepiar caminho, os bianconeri terão o seu momento.

Cristiano Ronaldo volta, por outro lado, a fazer história. 600 golos como profissional. 12 golos na edição da Champions deste ano, voltando a coroar-se como o melhor marcados da história da competição. 4ª champions no bolso e a 5ª bola de ouro a caminho, numa temporada que promete voltar a ser inesquecível para o internacional português se aos quatro títulos conquistados na presente temporada (ao qual escapou apenas a Copa del Rey), o português puder novamente assinalar no seu palmarés a conquista da Taça das Confederações ao serviço da selecção portuguesa.
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