Análise: Real 3-0 Atlético – Uma orgia de futebol do Real

Hat-trick feito. Eliminatória que nunca o chegou a ser. Orgia de futebol colectivo, a essência do futebol, polvilhada com a frieza do suspeito do costume na hora de atirar à baliza. Uma equipa que chega às meias-finais de uma competição como a Champions, a jogar fora perante a equipa que está em melhor forma no cenário europeu, sem qualquer intensidade (nos momentos de pressão, nos momentos de construção), sem ideias para contrariar o sistema defensivo montado pelo adversário, incapaz de se reinventar face aos problemas colocados pelo adversário, inoperante e cheia de problemas no sector defensivo e na sala de máquinas do meio-campo, jamais poderá sonhar com o quer que seja. Essa equipa, completamente descaracterizada face aos moldes trabalhados e apresentados (com distinção) nos últimos anos foi a equipa de Diego Simeone. A extraordinária equipa que conhecemos nos últimos anos pela sua enorme capacidade de subir e baixar linhas conforme o momento do jogo, de rapidamente de se organizar defensivamente num intransponível bloco baixo, intensa na pressão, agressiva no capítulo de recuperação da bola, assertiva nos duelos na área, eficaz no alívio, e muito criativa e eficaz na transição para o contra-ataque com recurso a poucas unidades nesse processo, já não existe.

O caso ficou completamente sentenciado na 1ª mão.  Continuar a ler “Análise: Real 3-0 Atlético – Uma orgia de futebol do Real”

Análise: Real Madrid 4-2 Bayern – Um hino ao futebol ferido de morte pela arbitragem

Podia ter começado este post com a habitual adjectivação que é utilizada para qualificar os grandes jogos de Champions. Desta vez não o farei. Não o farei por respeito ao futebol transparente que sempre defendi e defendo. Direi apenas que foi um grande jogo de futebol jogado por duas grandes equipas, muito emotivo nos 210 minutos jogados, até porque o Bayern fez das tripas coração para virar o resultado desfavorável somado na primeira-mão em casa, mas, na verdade, só uma delas estava autorizada a passar às meias-finais da prova: o Real Madrid. A arbitragem da equipa comandada pelo húngaro Viktor Kassai assim o provou no Bernabeu, perdoando em 3 ocasiões a expulsão a Casemiro, expulsando Artur Vidal num lance completamente limpo no qual o chileno só joga a bola e validando um golo completamente irregular a Cristiano Ronaldo.

Ir contra a corrente do pensamento trigueiro de alguns portugueses é uma tarefa hercúlea. Num país maioritariamente assente em três tendências dominantes (Benfica, Cristiano Ronaldo e Renato Sanches) ai de quem ouse sequer questioná-las. Questionar esta vitória do Real Madrid e até a própria prestação de Ronaldo na partida (tirando os golos contra 10, onde é que esteve o internacional português durante 75 minutos e o que é que realmente fez na partida?) é correr o risco de ter que passar uma noite inteira a responder aos habituais comentários de trolls que só medem exibições pelo número de golos que tal jogador marca. Uns chamam-lhe legado. Eu chamo-lhe somente eficácia nos momentos decisivos. Porque da exibição de Ronaldo, só vieram os golos no momento certo. Exibições fizeram sim Carvajal, Marcelo, Luka Modric, Phillip Lahm, Arjen Robben, Arturo Vidal, Franck Ribèry, David Alaba, Manuel Neuer, Sérgio Ramos. Esses sim fizeram grandes exibições!
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Como não amar o futebol de Isco?

Da suada vitória do Real Madrid nas Astúrias sobressaiu obviamente a grande exibição de Isco. Francisco “Isco” Alarcón, o menino que deu nas vistas em Málaga na temporada 2011\2012 está outro jogador com Zinedine Zidane. Posso mesmo afirmar sem qualquer pejo, numa altura em que se tem falado que o jovem de 24 anos poderá sair do clube, que este ficará em Madrid porque está a ser moldado pelo treinador francês à sua imagem e semelhança. E como precisou a equipa do Real dos pezinhos de veludo do criativo espanhol para ajudar a resolver uma partida muito complicada face a uma equipa do Sporting de Gijón que conseguiu defender de forma muito compacta no último terço.

A exibição do médio vai muito mais além da linda jogada individual que realizou no lance do primeiro golo. Muito mais. A equipa precisou como do pão para a boca da capacidade de pensamento do médio ofensivo. O Isco de Málaga, aquele que só sabia fazer incursões em drible do flanco esquerdo para o meio de forma a puxar do seu arqueado remate acabou. Estamos a falar de um jogador diferente, que conhece o ritmo ideal que deve imprimir em cada jogada, que joga de cabeça levantada a ler todas as soluções que lhe são possíveis realizar no momento em que tem a bola (e que muitas vezes tem que estar focado em dois lances, no que está a disputar e no movimento dos seus colegas) e que quando não tem uma linha de passe segura que permita acrescentar à equipa progressão e\ou continuidade na acção ofensiva, parte ele próprio à aventura, porque tem, de resto, os skills necessários para o fazer no capítulo da finta. Zidane também era assim. Se havia alguém que conseguia repentinamente colocar várias mudanças da velocidade para desequilibrar adversários, esse jogador era o astro francês. Se havia jogador que partia sempre para a finta quando não existiam linhas de passe, esse jogador era Zidane. Se havia jogador que conseguia focar em diversos aspectos do jogo que se passava em seu redor, esse jogador era Zidane. Se havia jogador que acrescentava ideias quando o colectivo não as tinha… e por aí adiante! Isco está a tornar-se exactamente o mesmo jogador e é indubitavelmente uma arma muito valiosa para este tipo de jogos, ou seja, para jogos contra equipas mais recuadas e mais fechadas.

O algodão não engana. A inteligência está lá. E lateralizar não é mau quando se permite por exemplo criar uma data de situações em que o lateral (Danilo) tem todo o espaço e muito tempo para colocar um cruzamento atrasado. Tal situação permitiu por exemplo a Morata a obtenção do segundo golo dos madrilenos. Quem é que esperou pela subida do lateral para lhe criar a situação de cruzamento mais profícua de uma zona mais recuado? Isco, pois claro. A situação que acima enunciei foi uma constante no jogo ofensivo do Real Madrid.