O Bloco de Notas da História #8

O “queniano” faz hoje 30 anos! É pena que Ramires, uma das adaptações bem sucedidas de Jorge Jesus nos primeiros anos no Benfica, se tenha retirado do futebol europeu tão cedo. Para a memória colectiva fica o golaço do internacional pela canarinha ao Barcelona, naquele eléctrico desafio em Nou Camp que valeu a passagem à final da prova (e consequentemente a vitória na prova nessa final) aos Blues de Roberto DiMatteo.

Anúncios

Bas Dost e Islam Slimani no mesmo onze? Sim, é possível

Quando o ponta-de-lança holandês chegou a Alvalade para substituir o ponta-de-lança argelino, toda a imprensa bem como alguns adeptos do Sporting não se fizeram rogados para apontar as diferenças nas características dos dois jogadores, sem atentar ao que Slimani era quando chegou a Alvalade em 2013 ou ao normal período de adaptação de Bas Dost ao novo país, à nova cidade, à lingua e à cultura do nosso país, aos métodos de treino do seu novo treinador e aos processos colectivos e individuais trabalhados por este.

Efectivamente, o ponta-de-lança holandês é um jogador que actua preferencialmente como referência de área, como target man, ou seja, um jogador que põe praticamente toda a equipa a jogar para ele. O que acontece é que Slimani também o era com Leonardo Jardim e com Marco Silva em virtude das suas limitações técnicas. Uma das grandes virtudes do trabalho realizado por Jorge Jesus com o jogador foi precisamente na evolução deste nas vertentes técnico-tácticas. Slimani saiu do casulo onde passava jogos inteiros para vir atrás participar nos processos de jogo da equipa, começou a segurar melhor a bola e a praticar melhor as tabelas (principalmente com João Mário, Adrien e Bryan Ruiz), começou a ir às alas buscar jogo para esticar os lançamentos de linha lateral (processo de jogo que tantos centrais arrastou e que tantos espaços abriu para a obtenção de golos) e começou a pressionar melhor, o que efectivamente dificultava a construção a partir de trás da equipa adversária.

Quando Bas Dost chegou, toda a gente lhe impingiu que fosse uma cópia de Slimani. O holandês não é Slimani. Tecnicamente é ligeiramente melhor que Slimani mas não é tão rápido a executar. Ao nível de processos tem vindo a melhorar porque Jorge Jesus executou com o holandês a mesma fórmula que já tinha executado com Slimani e ao nível de finalização, fazendo jûs às características dos pontas-de-lança holandeses (jogadores de um toque, o da finalização) é ligeiramente melhor que Slimani, precisando de menos oportunidades crassas para enfiar o seu golito na baliza adversária.

Os dois jogadores são incompatíveis se vierem a jogar juntos?

Não, não são.

Continuar a ler “Bas Dost e Islam Slimani no mesmo onze? Sim, é possível”

Os jornalistas desportivos portugueses são medíocres e cretinos

rui jorge

No passado dia 26 de Fevereiro escrevi aqui algumas linhas gerais sobre a minha opinião acerca do comportamento e das escolhas que são realizadas pela imprensa portuguesa. Escrevi na altura o seguinte:

“Nos últimos tempos tenho sentido menos curiosidade e uma maior repulsa para ler os jornais portugueses quer na suas edições físicas quer nas suas versões online. Aborrece-me ter que andar minutos à pesca de notícias ou crónicas relevantes assim como me aborrece andar a fazer scrolls na página do record à procura daquela notícia relevante que foi empurrada para o fundo de página para dar lugar no seu topo à gaja das mamas y que anda com o jogador x, ao jogador x que foi apanhado a fumar umas pampas ali pró lado de Jerez de La Frontera, sem descurar o clássico jogo de bastidores Sporting-Benfica-Porto, as polémicas da Liga de Clubes ou da Federação, o ataque cerrado às arbitragens ou as futilidades dos dias em forma de vídeo-notícia.

Outro jornalismo desportivo diferente é aquele que fazem por exemplo, o L´Equipe em França, a BBC, o Irish Examiner (apesar de ser generalista) e a Gazzetta dello Sport. Esses sim são órgãos de comunicação sociais sérios que promovem a notícia e a crónica (quase sempre feita por experts que são profundos conhecedores dos assuntos ou dos factos que visam narrar e descrever) sem terem que se vender ao sensacionalismo, escrevendo muitas vezes para nichos de mercado reduzidos mas fiéis à compra das suas publicações porque a informação e a opinião é boa, sem descurar portanto a sua própria sustentabilidade. Não são raras as vezes em que o L´Equipe abre a sua edição impressa com rugby e com ciclismo ou que a BBC dá um destaque principal no seu site a outros desportos que não o futebol.”

Essa repulsa pelo jornalismo estende-se ao jornalismo que também é feito por alguns jornalistas dos canais de televisão portugueses, mais concretamente pelo jornalistas da edição de desporto da CMTV e da RTP.
Na conferência de imprensa dada ontem pelo seleccionador de sub-21 Rui Jorge, a RTP voltou a colocar o seu espírito conflituoso em campo quando o seu enviado à conferência de imprensa perguntou ao seleccionador português “qual era a importância de ver Francisco Geraldes e Daniel Podence crescerem e mudar de contexto competitivo para serem aposta de um grande em Portugal” – o seleccionador caiu na esparrela montada pela pergunta do entrevistador e desatou a falar da passagem dos jogadores no Moreirense para realçar que a aposta tinha sido feita pelo Moreirense (o clube para o qual os dois jogadores foram rodar por não terem espaço no plantel idealizado no início da temporada por Jorge Jesus) e não pelo Sporting, o clube que mais aposta na formação de jogadores em Portugal. A pergunta tinha obviamente uma armadilha e pretendia colher da boca do seleccionador uma resposta que fosse passível de voltar a fazer transparecer a ideia que o treinador do Sporting não aposta na formação.

Como seleccionador de uma selecção nacional Rui Jorge não deveria ter veiculado aquela resposta tão tendenciosa contra um clube (por culpa do seu treinador e das guerrinhas da imprensa contra o treinador do Sporting) que ano após ano, década após década demonstra a sua força na formação, enchendo as selecções nacionais de futebol de talentos que ajudam o nosso país a atingir patamares e conquistas de excelência no cenário internacional. Mas mais culpado foi o jornalista que foi à cidade do futebol misturar alhos com bugalhos para tirar, literalmente, nabos da púcara ao seleccionador nacional, para voltar a dotar a imprensa de argumentos contra Jorge Jesus. Ao medíocre jornalismo português cada vez menos interessa discutir sistemas tácticos, formas de jogar, rendimento de jogadores, opções tomadas pelos treinadores, e métodos de treino. Não interessa discutir futebol pelo futebol, futebol a sério. Interessa sim meter todos contra todos, causar discórdia, a discórdia que vende.

Essa atitude do jornalista da RTP é reveladora da campanha desde há muito montada pela RTP contra o Sporting, campanha que começou quando um jornalista da estação, Gonçalo Ventura, conseguiu manipular a informação para colocar Rui Vitória contra Jorge Jesus. Tudo começou aqui numa flash interview da Sporttv após a vitória do Sporting em Setúbal:

José Goulão (SPORTTV): Ficou surpreendido com as declarações do treinador do Benfica ontem?

Jorge Jesus: Não. Não. Cada um diz aquilo que pensa e que quer e ele tem o direito de dizer. Vivemos num país livre. Porque é que não há-de dizer o que pensa?

Na conferência de imprensa, Gonçalo Ventura da RTP carregou sobre o treinador do Sporting:

Gonçalo Ventura (RTP): A outra pergunta tem a ver com o que disse ontem o treinador do Benfica. Sentiu muito isso? É obcecado pelo Benfica é mau colega e tem mau carácter!
Jorge Jesus: Ele disse essas 3 questões? Tou a perguntar? Que eu não posso responder… Disse? Disse? – mostrando admiração pela pergunta que acabava de lhe ser feita, procurando saber a veracidade da afirmação em forma de interrogação que o jornalista da RTP tinha acabado de realizar.

Jorge Jesus na flash interview anterior já tinha respondido a essa pergunta quando afirmou à Sportv, voltando a acrescentar na conferência de imprensa:
Em relação ao meu colega. Tou obcecado? Tou obcecado pelo Benfica. Tou obcecado pelo Porto. Tou obcecado por todos os meus adversários e principalmente por aqueles dois rivais que sei que vão estar na luta direta para a conquista deste campeonato e portanto, procuro estar cada vez mais com essa obsessão para quando for a quarta vez voltar a ganhar e ser quatro vitórias. (esta resposta foi mais ou menos aquela que Jesus tinha dado no flash interview ao jornalista da Sporttv)
Conhecer bem a minha obsessão pelos meus adversários. A minha obsessão leva-me para o trabalho, para o conhecimento do trabalho, para o conhecimento do que daquilo que normalmente é a minha obsessão em função do meu trabalho e dos meus adversários. Neste momento estamos num campeonato com vários adversários mas há dois, como é óbvio que são aqueles que estão com os mesmos objectivos em relação ao adversário.

A outra questão… Mau colega? Treinador? Como eu não o qualifico com treinador não sou mau colega! Para ser treinador tem que ser muito mais! “

Resumindo: Rui Vitória nunca fez tais acusações, acusações que foram inventadas pelo jornalista da RTP para provocar discórdia, o que efectivamente conseguiu. O mau jornalismo de Gonçalo Ventura foi na altura alvo de censura e respectiva reprimenda por parte do director de informação da RTP Paulo Dentinho. Contudo, o abanão interno provocado por Dentinho não foi suficientemente forte para dissuadir certos jornalistas a não voltar a tentar realizar este péssimo serviço jornalístico.

A RTP não se ficou por aqui. Da discórdia criada nas conferências de imprensa passou a achincalhar a instituição e os seus dirigentes nos afamados spots televisivos. O primeiro visado foi Jorge Jesus:

O segundo foi obviamente Bruno de Carvalho, quando a RTP foi buscar as declarações proferidas pelo presidente do Sporting num determinado contexto passado para as capitalizar no contexto do momento. A cretinice jornalística sem limites, portanto…

Essa cretinice, promovida pelos jornalistas desportivos portugueses está a fazer muito mal ao futebol português. O constante clima de crispação promovido pelos jornalistas é o clima que leva as pessoas a afastar-se dos estádios de futebol e a considerar que não vale a pena pagar bilhetes caríssimos por um espectáculo viciado. Quando as pessoas deixam de falar e discutir sobre o que se passa dentro das 4 linhas para discutir polémicas completamente acessórias ao futebol, ou seja, polémicas que são altamente dispensáveis, o futebol perde a incandescência que lhe dá sabor e que o torna um desporto tão belo e tão admirável.

Os putos… é preciso apostar nos putos… Parte 2

ricardo esgaio

O golaço de Ricardo Esgaio frente ao Freamunde.

Por inexistência de melhor, o jogador está a ser utilizado na esquerda da defesa por Jorge Jesus. Contra o Vitória de Guimarães denotei que Ricardo Esgaio teve alguma dificuldade para se posicionar defensivamente assim como teve dificuldades para parar o irrequieto dribbling de Hernani. Não é porém isso que venho analisar. Venho apenas colocar duas perguntas:

1. No plano técnico, Ricardo Esgaio perde para Ezequiel Schelotto em quê?

2. Jorge Jesus é propenso a promover adaptações a torto e a direito, promovendo por vezes algumas que são simplesmente do arco da velha. Porque é que Ricardo Esgaio, um jogador que tem uma capacidade de drible e de finta 1×1 fantástica, não tem uma oportunidade a médio ala esquerdo ou até mesmo atrás do ponta-de-lança ou não é por exemplo a segunda opção para o lugar de Gelson?

Os putos… É preciso apostar nos putos

putos

A matéria prima com que Jorge Jesus deverá trabalhar nos próximos anos. Indiscutivelmente. A formação obviamente que não chega per se para que o Sporting possa lutar por títulos. Poucos são os clubes mundiais com uma essência e uma filosofia exclusivamente formativa capazes de lutar por títulos todos os anos. O Ajax deverá ser a única excepção porque pertence a uma realidade completamente diferente, uma realidade que até se pode considerar como contra-corrente ao futebol europeu, ou seja, a realidade do futebol holandês, um futebol onde praticamente todos os clubes apostam na formação local ou no desenvolvimento de jovens jogadores.  Continuar a ler “Os putos… É preciso apostar nos putos”