Todos os anos é assim

O rastilho foi aceso por Bruno de Carvalho no domingo. Assim que o presidente do Sporting soletrou as silabas das palavras “tudo”, “tem”, “de”, “ser”, “diferente”, tocaram os habituais sinais de alarme. Todos nós sportinguistas estamos carequinhas de saber que tudo tem que ser diferente. No entanto, o presidente do Sporting não contextualizou programaticamente o sentido da sua declaração. Tudo tem que ser diferente como? Mudaremos a política de contratações do clube? Apostaremos mais nos jovens? Teremos finalmente um bom director desportivo capaz de observar bem, comprar bem e barato e realizar a indispensável ligação entre os jogadores e a equipa técnica e a direcção? Os arautos da desgraça vieram imediatamente atirar as suas achas para a fogueira da pura especulação. Está encontrado o guião para a nova novela que irá decerto animar o verão e alimentar todos aqueles que infelizmente ficam vários meses sem poder ganhar o seu pão assim que termina a temporada. Sem bola a rolar, não existem motivos suficientes para se dar à língua. Continuar a ler “Todos os anos é assim”

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Notas sobre a vitória do Sporting em Setúbal

1. Em primeiro lugar, quero dar os meus parabéns ao Setúbal pela esforçada exibição realizada no jogo desta noite. Já tínhamos visto ao longo deste campeonato (em especial nos jogos realizados contra os grandes) que a equipa de José Couceiro é uma equipa muito bem trabalhada defensivamente. É uma equipa que consegue dar a posse de bola em grande parte do jogo, fechar-se lá atrás (bloco médio baixo muito pressionante) e resistir aos sucessivos ataques lançados pelas equipas adversárias. Para além da elevada capacidade de pressão de quase todas as unidades, em particular de Costinha e de Mikel, é uma equipa que raramente se desequilibras nas alas, não permitindo a obtenção de superioridade numérica por parte dos adversários. Acresce ainda o facto de ter dois belíssimos centrais (um deles falhou como as notas de mil no jogo de hoje) e um grande guarda-redes. No entanto, não posso deixar de referir que a pressão executada durante todo o jogo bem como a rapidez com que os jogadores do Setúbal atacavam o portador da bola parecia digna de uma equipa que estava a lutar pela vitória na Liga dos Campeões. Sim, é isso! Depois do que aconteceu no caso dos emprestados, e das declarações proferidas pelo presidente do Vitória de Setúbal há algumas semanas atrás, este jogo tornou-se de vida ou morte para os sadinos. Felizmente, não puderam dar a “machadada final” numa equipa que está, como se previa, a finalizar em crescente como o treinador pretendia.

2. O Edinho… bem, o Edinho está na primeira liga porque um empresário e um clube assim o querem. Se assim não fosse, o Edinho, pelas limitações técnicas crónicas que possui, estaria provavelmente num Farense ou num Real Massamá…

3. João Costinha. A prova em como há muito talento nas divisões secundárias do futebol português? Sabem onde é que estava o jovem conimbricense há 2 anos atrás? Estava no Lusitano de Vildemoinho, equipa da cidade de Viseu que milita no CNS. Sabem onde é que este jogador merece estar no final desta temporada? Sim, no Sporting. Duvido que os responsáveis leoninos consigam convencer Fernando Oliveira a vender o jogador depois da borrasca que aconteceu com os emprestados (se a nota aparecer, Oliveira vende pois claro!) mas uma coisa é certa: o substituto perfeito para Adrien mora ali na equipa do Vitória de Setúbal.

4. Vamos agora escrever sobre o que interessa. Alan Ruiz: caramba homem! Que exibição de chave de ouro para retribuir as palavras de Jorge Jesus. O argentino está a tornar-se um caso sério? O Nuno Farinha do Record não achava há bem pouco tempo atrás. Mas o que é certo é que não é preciso ter uma database extensa de vídeos para o Youtube para perceber que o jogador afinal até é bem parecido com Juan Román Riquelme. Bastou ver a trivela de classe na assistência para Dost (acho que nem o Aimar sacava aquela), ou o toque de calcanhar que tirou um setubalense da jogada para dar a “assistência” para um torto remate de fora da área de Adrien. Ou a forma em como pé ante pé o segundo avançado argentino se move no último terço, oferecendo linhas de passe quer no corredor central (entre a linhas adversárias) para dar progressão ao jogo, quer naquele spotzinho que Jesus tanto gosta na quina da área (o espacinho entre os centrais e os laterais) para mover aquele jogo de triangulações que permite ao lateral ou ao extremo uma boa plataforma para criar, e\ou que permite uma triangulação que desmarque o lateral dentro da área. Schelotto é efectivamente um dos amplos beneficiários da qualidade do argentino… e

5. De Adrien. O capitão. Critério na transição, critério na pressão e um toque de midas clássico do médio quando recebe o esférico no último terço à entrada da área.

6. Os laterais do Sporting. Cobras e lagartos. Eu próprio me insiro nos autores das críticas. “Eles não sobem bem”, “não fecham bem”, “nunca lá estão quando o adversário faz a transição para o contra-ataque em profundidade”, “não atacam a bola”, “colam-se em demasia aos centrais”, “tem um medo tremendo de jogar para dentro”, “não cruzam bem”, “não são inteligentes nas acções que tomam no último terço” – parece-me que cada vez mais tanto Zeegelaar como Schelotto acabaram por fazer a temporada que fizeram por uma questão de forma física. Se os dois tivessem estado em forma na 1ª metade da época, seguramente que o Sporting teria mais 8 ou 9 pontos na tabela classificativa.

Jornalismo de sarjeta

A roçar o nível da sarjeta. Ou não viram pura e simplesmente, ou viram aspectos positivos que eu não vi da exibição do jogador. Não podendo afirmar nenhuma das duas, vou só simplesmente concluir que o artigo bem como a pontuação gentilmente oferecida ao jogador pelo referido órgão de comunicação social é parte integrante da mesma estratégia (paga para escrever bem) que lhe tem granjeado todo o hype e que o conseguiu vender pelo preço que foi vendido. Mas este tipo de situação não é nova no jornalismo português.

Denota-se desde há uns meses a esta parte uma estratégia bem montada por parte de alguém para levar os jornais a colocar na berlinda jogadores como Renato Sanches (todas as semanas vemos as notícias que a imprensa portuguesa planta sobre o jogador; quando as procuramos em alguns órgãos de comunicação alemães percebemos que as declarações que são atribuídas a jogadores, treinador e dirigentes do Bayern nunca foram proferidas), João Cancelo (que está a fazer uma época horrível) Bernardo Silva, Hélder Costa, Ivan Cavaleiro, André Silva, André Gomes, Pizzi, Gonçalo Guedes, Nélson Semedo, Ederson, Wallace, Nélson Oliveira, Soares. O que é que todos tem em comum? Sim. Isso. Precisamente. Sim. Está a seguir a linha de raciocínio correcta: todos eles são jogadores da Gestifute de Jorge Mendes. Até o “desaparecido” Fábio Coentrão, jogador que não é tido nem achado (literalmente no bolso de trás das calças de Zidane) tem vindo à baila nos últimos dias porque naturalmente, o Jorginho Mendes ainda precisa de facturar mais umas comissões com a eventual transferência do jogador para outro clube no final da época.

Como Gelson Martins não é um jogador agenciado por Jorge Mendes, de nada lhe valeu a fabulosa assistência de trivela para Cristiano Ronaldo – “comeu” com a mesma nota de um jogador que mal se sabe posicionar em campo e calou.

Já sabia que a Gestifute é uma das principais mecenas do jornalismo português. Contudo, fiquei a saber nos últimos anos que a Gestifute vai patrocinando os jornais desportivos portugueses e espanhóis à medida das suas necessidades. Trata-se de um jornalismo à la carta: ora escreves bem deste agora, ora escreves bem de outro depois e por aí adiante até que sejam todos despachados.

O Jornalismo desportivo bateu no fundo

record 4

Colocar um jornalista de cronómetro em punho a rever o Porto vs Vitória de Setúbal para contabilizar os tempos de paragem dos jogadores para saber se existiram ou não motivos para o árbitro da partida dar 12 minutos de compensação no referido jogo é um sinal visível que o jornalismo desportivo português está a bater no fundo. Não posso achar esta infografia menos do que absolutamente ridícula. Qualquer dia veremos o Record a encomendar pelo menos 2000 cronómetros para que os seus trabalhadores possam registar os tempos de paragem de todos os jogos que se disputam no nosso país de forma a encherem pelo menos 10 páginas com a detalhada informação no que concerne a este aspecto.

São este tipo de notícias que me causam a repulsa aqui descrita. Para além de desnecessárias, porque não acrescentam qualquer conhecimento ao leitor, este tipo de notícias só servem para aumentar o clima de crispação existente no futebol português. O jornalismo desportivo está efectivamente doente no nosso país. E não há ninguém capaz de travar esta marcha sensacionalista que não cumpre os principais requisitos da profissão: informar bem e com a qualidade.