Os golos do dia (1ªparte)

Um auspicioso início de temporada para Romelu Lukaku

Ultrapassada que está, creio, a ligeira incongruência cometida por José Mourinho relativa à contratação de um jogador, por 75 milhões de euros, duas épocas depois de o ter dispensado quando era treinador de um adversário directo do United, num processo que conduziu à sua contratação por parte do clube que vendeu o jogador à posteriori para o clube de Manchester, a cada vez mais influência do jogador no futebol do United está à vista.

Eu não sou muito fã de estatísticas, reconheço. No entanto sei reconhecer a sua preciosa utilidade para avaliar determinados aspectos de evolução técnica ou táctica de um jogador e utilizo-as de vez em quando para esse efeito quando as estatísticas desse jogador combinam com uma ou mais observações nas quais vislumbro qualidade nas acções. Ao contrário do que vejo por aí em alguns jornais, sites e blogs de especialidade não as utilizo de forma abundante para explicar o quer que seja porque não sou, de todo, adepto de modelos de observação tecnocratas mas sim de modelos de observação qualitativos, modelos nos quais os aspectos matemáticos do jogo são meros exemplos complementares para reforçar essa mesma qualidade. Não me adiantam portanto os milhares de quadros estatísticos disponíveis em vários sites para perceber se um rendimento de um jogador traz qualidade ao futebol de uma equipa porque a qualidade nas várias vertentes do jogo só pode ser aferida qualitativamente através dos proveitos que o seu rendimento traz para o futebol dessa equipa, mediante a satisfação de um conjunto de factores de aferição nos quais devem estar sempre presentes o sistema táctico e modelo de jogo utilizado\operacionalizado pelo seu treinador, a interacção com os companheiros de equipa no terreno jogo e o benefício ofensivo ou defensivo que certa acção praticada oferece ao jogo da equipa.  Continuar a ler “Os golos do dia (1ªparte)”

A arte de um bom médio

Receber o esférico, levantar a cabeça para ler o cenário de jogo na sua totalidade (o posicionamento adversário e o mar de movimentações dos seus companheiros na abertura de linhas de passe) e procurar sempre a melhor solução de passe (a que acrescente progressão no terreno, criação de situações de desequilíbrio ou a que permita à equipa continuar a ter a posse de bola) nem que para o efeito tenha que contemporizar, guardando a bola nos seus pés (mesmo que a pressão adversária chegue, Matic tem mecanismos para a suplantar) até ao momento em que um companheiro oferece a solução ideal, ou seja, a solução que proporciona ganhos à equipa.

O sérvio cumpre as mais elementares regras da “boa definição de lances” quando tem a bola nos seus pés. A circulação de bola do United ganhou imenso com a chegada do sérvio. É ele que liga o jogo entre sectores, que faz a bola circular de flanco a flanco (processo tão necessário contra equipas bem organizadas num bloco recuado; caso do Everton na primeira meia-hora do jogo de domingo) e que liberta todos os jogadores que jogam à sua frente para funções mais criativas, sem nunca, se expor muito no terreno para não prejudicar o equilíbrio defensivo da equipa de Mourinho. Se a equipa perde o esférico (mesmo nas situações em que o sérvio falha um passe) Matic está lá rapidamente para tentar matar a transição adversária.

Antonio Valencia

Sensacional patada do equatoriano numa jogada extraordinariamente pensada (completamente fora da decisão clássica que é tomada pelos jogadores naquela situação concreta; o cruzamento para a área) por Nemanja Matic.

Os golos da Champions

Contra todas as opiniões que tenho ouvido sobre o valor do jogador nos últimos anos, depois de ter feito sensacionais temporadas no Everton no qual foi “um pau para toda a obra de 80 metros de comprimento” para David Moyes, eu compreendo as declarações de Mourinho quando afirmou que o belga Marouane Fellaini é um jogador com uma importância superior na equipa (e nos seus processos; quer nos ofensivos, quer nos defensivos) aquela que tanto a imprensa como os adeptos lhe tem atribuído.

Contra o jogador belga incorrem as justas críticas que lhe apontam os defeitos do seu jogo: o belga é lento a pensar e a executar (critério que faz toda a diferença no frenético pace do futebol inglês) erra muitos passes fáceis, não toma as melhores decisões, é muito perdulário e perdeu ao longo dos anos aquela que era a sua principal característica ofensiva: o remate de meia distância. No entanto, creio que José Mourinho fez um belíssimo trabalho de remodelação do jogador ao seu pragmático modelo de jogo. O belga é hoje um jogador híbrido (um médio que entra muito bem em zona de finalização) que cumpre as funções que lhe são requeridas pelo treinador português quer no plano ofensivo, quer no plano ofensivo.  Continuar a ler “Os golos da Champions”

Aquele momento em que a imprensa internacional engoliu todo o seu sensacionalismo e o seu fatalismo

Ouviram bem, jornalistas? Ele voltou. Um verdadeiro campeão não se rende “por dá cá aquela palha” no primeiro grande obstáculo que é chamado a atravessar. Não tenho quaisquer dúvidas e volto a reafirmar o mesmo que afirmei a 24 de Abril neste espaço: sendo um jogador bastante forte no plano mental, o sueco vai regressar em breve aos relvados. E vai regressar com tanta ou mais vontade de vencer do que aquela que tinha quando se lesionou naquele jogo frente ao Anderlecht. Nem que seja para voltar a ter o prazer de calar um bando de mentirosos e especuladores que só “sabem viver” à custa da miséria dos outros e da constante invenção de notícias especulativas sem qualquer fundo de veracidade.

O golo do dia

Se na terça-feira, no jogo da Supertaça Europeia, a equipa de José Mourinho apresentou algumas dificuldades para sair no contragolpe naquela fase da partida em que foi remetida ao seu meio-campo em virtude “do jogo de movimentações” dos homens do Real, frente ao West Ham, a saída em transições rápidas foi uma constante ao longo do primeiro tempo. Continuar a ler “O golo do dia”

Descubram as diferenças entre o Mourinho de 2002 e o Mourinho de 2017

Em 2002, Mourinho era um treinador convicto, confiante e até arrogante para quem, na altura, nada tinha conquistado no mundo do futebol. Não menosprezando de todo a equipa que possuía, uma equipa de tostões, diga-se, na altura, poucos eram aqueles que acreditavam que o treinador seria capaz de criar o monstro que criou com jogadores (alguns dispensados, outros inadaptados; outros recrutados em equipas com poucas ambições) como Paulo Ferreira, Nuno Valente, Costinha, Maniche, Alenitchev, o próprio Deco (à era, o 10 era um jogador muito errático, irregular do ponto de vista exibicional e até envolto em alguns problemas; constava-se nos meandros que na temporada anterior, Deco tinha passado por uma clínica de desintoxicação na Suíça para resolver a sua grave dependência de Cocaína) Cândido Costa, Marco Ferreira, Derlei ou César Peixoto.

Em 2017, Mourinho é o treinador de uma das sociedades desportivas com maior poder financeiro no futebol mundial. O dinheiro corre a rodos em Manchester e o treinador teve, nos últimos defesos, milhões à larga na carteira para construir uma equipa de sonho. Mourinho apostou todas as fichas num jogador langão que tem uma tomada de decisão horrível, assim como continua, com alguma estranheza, a apostar num sistema de marcação homem-a-homem (acorda homem!! Já não estamos em 1985!!) e em processos de jogo que já não se utilizam (resumidamente e em calão, para me expressar na perfeição, o modelo de jogo consiste basicamente no seguinte: quando recuperas, depois de teres corrido 30 metros atrás do teu adversário directo, sais em velocidade e tentas levar a bola até ao avançado; tabelas com o avançado e entras na área; se não der para tabelar com o avançado, olha, paciência, tenta entrar na área e remata porque alguma será capaz de entrar; se não conseguimos conquistar absolutamente nada durante 70 minutos com esta estratégia de jogo, coloco um gajo alto com uma cabeleira farfalhuda na frente começamos a colocar jogo directo para o gajo). O futebol que é praticado pelo United de hoje consegue ser mais disforme que o futebol de Alex Ferguson nos primeiros anos em Manchester. Para isso não era preciso contratar um treinador consagrado como o português: qualquer José Rachão servia.

O José Mourinho de 2002 metia-me respeito, fazia-me tremer as pernas sempre que o Sporting tinha de jogar contra uma das suas equipas. O Mourinho de 2017 mete-me imensa pena. Para além de estar nitidamente passado conceptualmente, também me parece algo passado metodologicamente. Quando um treinador com 25 títulos conquistados em menos de 20 anos usa e abusa de um rol de justificações para tentar mascarar o mau futebol que a sua equipa pratica desde que chegou ao comando técnico do clube, algo vai mal com a psique desse treinador.

Não, claro que não existem Toni Kroos, Luka Modrics ou Casemiros com fartura. São únicos. Se os tivéssemos em duplicado ou em triplicado, qualquer treinador gostaria de ter um na sua equipa. No entanto, 100 milhões de euros podem comprar e jogadores como William Carvalho, Christian Erikssen, Ever Banega, Nemanja Maksimovic, Adrien Silva, Allan, Amadou Diawara, Jorginho Emre Can, Sebastian Rudy, Dani Ceballos, Ross Barkley, Michail Antonio, Danny Drinkwater, Johannes Geis, Raja Naingollan, Lorenzo Pellegrini, Maximilian Arnold, Max Meyer. Em suma, com aquela espécie de “jogadores esfomeados” com quem, historicamente, Mourinho construiu as suas raízes históricas.