Há uns dias, na habitual rubrica Golos do Dia, escrevi algumas notas sobre os problemas defensivos pelos quais está a passar a formação do Real Madrid, notas que são obviamente resultantes das várias percepções que tem surgido no meu pensamento a propósito dos vários erros defensivos que são cometidos pela formação merengue.

Na partida de quarta-feira, duelo cujo desfecho foi favorável à formação inglesa, Maurício Pochettino aproveitou os processos de jogo operacionalizados com a equipa e uma janela de oportunidade oferecida pelo jogo (a lesão de um dos seus centrais) para alterar a estrutura da sua equipa de forma a capitalizar sobre um dos problemas defensivos do adversário, acrescentando-lhe outro: a forma em como a sua defesa defende os lances de área criados pelo adversário.

 

No lance do primeiro golo dos londrinos, a formação madrilena aparece na sua habitual disposição quando é obrigada a recuar o bloco até às imediações da área. Sem a presença de Ronaldo e Benzema no processo defensivo, como podemos ver na imagem em baixo…

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Isco desce no terreno para evitar que os londrinos tenham superioridade numérica no flanco esquerdo, e Casemiro aparece mais uma vez colado junto aos centrais. Tal disposição, do brasileiro, leva a que Kroos esteja completamente desguarnecido no corredor central. Apercebendo-se dessa situação, Maurício Pocchettino aproveitou a a lesão do central Toby Alderweireld para lançar Moussa Sissoko de forma a alterar drasticamente a esquemática até aí verificada, de forma a capitalizar a situação enunciada com a entrada de mais um jogador a meio-campo e a colocação em definitivo de Marco Dele Alli na área. Kroos passou a ter que defender todo aquele espaço central em inferioridade numérica.

Numa jogada em que os comandados do argentino conseguem bascular o jogo da esquerda para o centro, Sissoko entra à frente de Kroos para oferecer a Harry Winks uma belíssima oportunidade para abrir o jogo para o flanco direito, flanco onde o lateral Kieran Tripper, como é seu apanágio, aparece bem projectado no último terço, nas costas de Marcelo. A defesa do Real está como se pode ver bastante comprimida no corredor central.

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Admito que o lateral brasileiro possa dar esse espaço nas costas a Trippier, embora não o deva porque, como sabemos, o lateral inglês junta ao mais amplo conhecimento das rotinas trabalhadas pela equipa uma mortífera capacidade de último passe de primeira para o surgimento em zona de finalização de Kane ou Dele Alli. No entanto, esse espaço pode ser dado ao lateral inglês pelo lateral brasileiro, se os centrais se posicionarem na mesma linha da bola no momento do cruzamento de forma a poderem atacá-lo convenientemente se o cruzamento for realizado numa linha imaginária mais recuada em relação à linha imaginária que passa pela pequena área ou então, na linha da pequena área nas situações em que o adversário cruze junto à linha final…

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se Nacho não deixar que o adversário ganhe a frente do lance, o que efectivamente não veio a acontecer. Por outro lado creio que face à ausência dos centrais, Kiko Casilla também poderia ter feito muito mais na saída ao cruzamento visto que a bola passa-lhe mesmo à frente da viseira numa zona em que este tem obrigatoriamente de intervir. O lance é, de uma ponta à outra, muito mal defendido.

A título de exemplo, deixo-vos este lance, jogada onde a formação madrilena corrige alguns dos erros verificados no lance anterior, mantendo porém outros por corrigir:

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Presença de Modric no corredor central, embora desta feita seja Kroos quem demora a retomar posição.

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Nacho vê a entrada de Dele Alli mas não se preocupa em posicionar-se de forma a fechar a linha de passe. Enorme distanciamento entre centrais. Se a bola entra em Dele Alli, o avançado não iria certamente perdoar. A bola é variada novamente para a entrada de Trippier nas costas de Marcelo. Sérgio Ramos orienta-se para a direita, acreditando que Nacho vai ajusar a marcação em Dele Alli, emendando o erro cometido no lance do primeiro golo.

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Marcelo e Ramos estão em linha com o cruzamento. Como podemos verificar, Nacho não e deixa que o adversário lhe ganhe novamente a frente do lance porque não foi rápido a ajustar. O cruzamento sai, valendo a intervenção rápida de Kiko Casilla na zona por onde nunca deveria ter deixado passar a bola no lance do primeiro golo.

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Os golos do dia (1ª parte)

Começo pela sensacional reviravolta operada pelos Hammers de Slaven Bilic (a imprensa britânica decidiu qualificar esta vitória como um glorioso momento no qual os jogadores londrinos foram buscar engenho e forças ao fundo do poço para resgatar o seu treinador; técnico que estaria certamente por horas em caso de derrota, em virtude dos maus resultados que a equipa tem averbado para a Premier; Bilic rejeitou no entanto a crítica que lhe foi feita pela imprensa em relação ao estado de forma física da equipa) no derby londrino realizado na quarta-feira à noite frente ao Tottenham de Pocchettino em jogo a contar para os oitavos-de-final da Taça da Liga Inglesa.

A coisa não começou manifestamente bem para os Hammers no capítulo da organização da pressão, e da organização defensiva. Nos primeiros minutos da partida Bilic mandou subiu o bloco, colocando a sua defesa apontada na linha divisória do meio-campo, de forma a fazer subir as duas linhas que jogam à sua frente no terreno para pressionar em terrenos adiantados a saída para o jogo do adversário, estratégia que visou sobretudo a prossecução de 3 objectivos muito básicos: em primeiro lugar, impedir impedir que a formação de Maurício Pocchetino pudesse dominar a partida através da posse no seu meio-campo. Em segundo lugar, a estratégia inicial traçada pelo croata visou impedir que a formação de Pocchettino pudesse sair no contra-ataque, transição na qual os Spurs se tem revelado muito eficazes nos últimos jogos. Em terceiro lugar, a pressão alta poderia permitir à sua formação recuperar bolas para manter viva a sua iniciativa no meio-campo adversário, obrigando o adversário a encolher-se nos seu último reduto.

O primeiro golo do Tottenham nasce de um conjunto de erros cometidos pelos jogadores de West Ham na pressão e no capítulo da transição e organização defensiva.

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O Rei Midas voltou

É inacreditável. Christian Eriksen é uma verdadeira barbaridade de futebol nos pés. Observe-se o comportamento do internacional inglês (Marco Dele Alli) assim que a bola chega aos pés do dinamarquês “na sua carreira de cruzamento” – O médio ofensivo sabe com precisão o espaço para o qual deve entrar e sabe que o médio dinamarquês vai lá colocar a bola (numa zona de morte para o guarda-redes; ou é rápido a sair ou corre o risco de ficar a meio da viagem).

Se me dessem a escolher um reforço para o meio-campo da minha equipa sem olhar a custos, escolhia o dinamarquês do Tottenham. A sua objectividade é por demais incrível. Os recursos técnicos que possui e a inteligência com que cria as suas próprias situações, tornam o futebol tão simples e tão eficaz.

Breves notas sobre a vitória do Chelsea sobre o Tottenham

As duas equipas que melhor futebol praticam em Inglaterra (em conjunto com o Everton, na minha modesta opinião) deram um fantástico espectáculo de futebol a quem pode assistir. Com o campeonato totalmente em aberto quando faltam 6 jornadas para o fim (o Chelsea tem neste momento 4 pontos de vantagem na tabela sobre os Spurs e um calendário bem mais agradável até ao final da prova, no qual a deslocação mais difícil será ao terreno do Everton; já os Spurs terão jogos difíceis em White Hart Lane frente a Arsenal e Manchester United e 3 difíceis deslocações aos terrenos do Leicester, West Ham e Crystal Palace) os Blues eliminaram os Spurs nas meias-finais da Taça de Inglaterra no jogo disputado esta tarde em Wembley. O pace a que foi disputada a partida foi simplesmente frenético em várias partes do jogo , quase todos os jogadores demonstraram uma intensidade incrível na disputa pela bola e os espectadores ainda ganharam vários brindes de oferta com os golaços de Willian, Marco Dele Alli, Hazard e Nemanja Matic e com as fabulosas assistências (e exibição) de Christian Eriksen.

Um facto curioso que me tem suscitado algum interesse nas últimas semanas prende-se com a utilização de esquemas tácticos similares ao que é utilizado por António Conte no Chelsea por parte das equipas que os londrinos tem defrontado. A utilização do esquema 3x4x2x1 (alguns consideram que o esquema táctico é um 3x4x3; Willian e Pedro não actuam como extremos puros mas antes como dois médios ofensivos nas costas do ponta-de-lança visto que o Chelsea projecta sempre os seus alas no ataque, alas que são devidamente cobertos pelos centrais que tem a missão de fazer a cobertura defensiva das faixas) por parte de alguns treinadores (Slaven Bilic do West Ham, Eddie Howe do Bournemouth e agora por parte de Maurício Pocchettino do Tottenham) são explicados pela necessidade de promover uma maior adequação das equipas ao sistema de Conte, “encaixando” mais as marcações que se pretendem realizar ao longo da partida. Continuar a ler “Breves notas sobre a vitória do Chelsea sobre o Tottenham”