Faraó (tiveste mais sorte)

Continuamos em jeito de despedida, a carpir as mágoas de termos visto sair de cena os nossos grandes ídolos. Continuo a achar que com um bocadinho mais de esforço e de sacrifício, ainda ias a Tóquio sacar o ouro ou uma medalha de prata ou bronze na Maratona. Com a tua resistência, podes ganhar o que quiseres. Compreendo o teu cansaço e compreendo que é hora de passares o tempo que não pudeste passar durante todos estes anos com os teus putos. Esta vida exigiu muito de ti durante muito tempo. Passaste anos meses a comer o que nunca quiseste comer, a horas certas. A descansar às horas certas. A privar-te das coisas mais simples do mundo, como, dar uma volta com os teus filhos no parque. Viveste debaixo de uma enorme pressão. É hora de descansares e de possivelmente cumprires os sonhos que adiaste em prol da tua longa e vitoriosa carreira. Continuar a ler “Faraó (tiveste mais sorte)”

As inexplicáveis contradições deste mundo

Este mundo está definitivamente repleto de inexplicáveis contradições. O mesmo estádio que ontem aplaudiu, de pé, em puro estado de euforia colectiva, a vitória de um atleta somali naturalizado britânico (a família de Farah fugiu para Inglaterra da sangrenta guerra civil somali quando o jovem Mohammed ainda era uma criança de 8 anos) foi o mesmo estádio que, no ano passado, indivíduo a individuo, aprovou a construção, por parte do Ministério do Interior Britânico, de um muro em Calais para conter a migração para o Reino Unido dos refugiados sírios e africanos que se encontram espalhados pelo território francês.

O mesmo universo que idolatra o excepcional fundista é precisamente, ao mesmo tempo, o mesmo universo que teima em não conceder oportunidades a quem, procura na Europa, a mesma janela de oportunidade (para a vida) que foi procurada pela família do atleta no início dos anos 90.

farah

A corrida do somali-britânico foi pura e simplesmente fenomenal. Para bom entendedor, “meio acto basta” – para perceber o desfecho da prova, apenas precisei de ver os dois esticões promovidos pelo veterano aos 10 e aos 22 minutos da corrida. Já se previa a possibilidade dos quenianos virem a utilizar lebres para tentar desgastar o veterano mas Farah nem quebrou nem torceu. No último km, voltou a repetir o ritual que lhe granjeou tantos fãs ao longo desta última década. Com um passo decidido, o atleta foi para a frente e nem os dois tropeções na última volta o afastaram daquele que será, à priori (eu creio que Farah ainda tentará encetar uma breve carreira na Maratona para conquistar uma medalha nos Jogos de Tóquio) o seu último título da carreira.