O Aves de Lito Vidigal

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Ao longo da vida, é natural ou pelo menos deve ser considerado como natural a simpatia ou a preferência por determinadas pessoas ou personagens em detrimento de outras, cuja personalidade, carácter ou feitio choca directamente com a nossa(o), ou com aquelas cujas atitudes ou comportamentos praticados não se enquadram nos moldes dos valores éticos ou nos comportamentos que acreditamos, defendemos, ensinamos e praticamos. No entanto, o facto de não gostar da personalidade de determinada pessoa ou dos comportamentos que esta pratica, não me tolda ao ponto de não reconhecer a grandeza dos seus feitos, o luminoso brilho do seu pensamento ou a grandeza da sua obra. Ao contrário do português comum, o sucesso alheio não me cria qualquer espécie de confusão nem sequer uma pontinha de inveja. Infelizmente sei que vivo em completa contra-corrente em relação à realidade do país. Os portugueses têm uma certa tendência para idolatrar deuses com pés de barro que nada de útil tem para oferecer à sociedade e para ferrar o seu mesquinho bico naqueles que realmente tem conteúdo para oferecer. O português tem uma natural tendência para querer ter em igual marca e espécie o carro que o vizinho comprou. Se não consegue igualar o seu fato ou o seu feito, o português não descansa enquanto não descer o vizinho ao seu nível de mediocridade. A propósito disto um dia escreveu Torga nos seus diários:   “Só há uma solução quando se vive num ambiente medíocre, entre medíocres: recusar a mediocridade” – ao longo destes últimos meses, tenho-a recusado insistentemente, “afastando de mim esse cálice” – como um dia cantaram Milton e Chico Buarque. Continuar a ler “O Aves de Lito Vidigal”

Aspectos positivos e negativos que me agradam\desagradam neste Porto de Sérgio Conceição

  • Transição apoiada e muito dinâmica, na qual todos os jogadores procuram mover-se para oferecer linha de passe e baralhar por completo a defesa adversária. Oliver é o cérebro da construção. Entradas de jogadores entre linhas. Vejam-se por exemplo as movimentações de Brahimi e Corona dentro do bloco adversário ao minuto 1:58.
  • O comportamento de Danilo quando a equipa tem a posse de bola não é uma novidade. Quando o trinco se junta aos centrais num sistema de 3 em posse, permite a abertura dos centrais e a projecção dos laterais no terreno. Os centrais interligam o jogo com o interior (laterais) e a projecção dos laterais permite aos extremos adoptar uma posição mais interior. Conforme o posicionamento que aqui vemos:

A vermelho: os dois laterais (Ricardo e Telles subidos, projectados), Brahimi e Corona, dentro do bloco adversário.

A azul: os centrais a interligar rapidamente o jogo com os laterais.

A preto: o espaço dado pelo lateral do Portimonense. Pode ser atacado rapidamente pelo lateral do Porto ou pode dar azo rapidamente a um 1×2 em virtude do posicionamento de Corona. Bastará que o extremo se aproxime e tabele para colocar o seu lateral com possibilidade de cruzar sem oposição ou lançar Aboubakar na área.

A defesa do Portimonense irá ser naturalmente arrastada para o flanco esquerdo. Se eventualmente o lateral devolver o passe ao central, este pode tentar variar imediatamente para o outro lateral.

  • Os triângulos nas alas oferecidos pelos avançados ou pela entrada dos médios interiores nos corredores. Superioridade numérica no seu expoente, sem que os avançados descurem o trabalho de área que tem que realizar:

Soares

Herrera

Herrera\André André – excelente incursão sem bola deste último para o espaço vazio para o qual Hernani vai passar. Adorei este lance. Excelente futebol.

  • Pressão média (a caminhar naturalmente para o modelo de Conceição, ou seja média\alta no meio-campo adversário, logo à saída de jogo) algo eficaz mas com uma pescadinha de rabo na boca.

Nesta jogada (minuto 5:55 do vídeo) Alex Telles está claramente a dormir. O posicionamento do lateral obriga a equipa a meter um jogador adicional no momento de pressão ao adversário. Os jogadores da formação algarvia conseguem retirar a bola da zona de pressão, para a entrada de um jogador numa posição que não está ocupada. Acresce o facto de Danilo estar ligeiramente mal posicionado. Nem está perto o suficiente para cortar logo o tempo e o espaço para pensar e executar ao jogador nem está a fazer a marcação ao avançado.

O desequilíbrio está criado. Ricardo Pessoa tem duas linhas de passe. Na esquerda (Ricardo foi obrigado a vir ao meio compensar) e no próprio avançado. Optou e bem pela colocação da bola no flanco esquerdo.

Ou muito me engano ou este Porto será muito permeável assim que as equipas adversárias conseguirem ultrapassar a pressão que é executada pela sua linha média.

  • Os laterais encontram em demasia aos centrais e dão muito espaço.

A única excepção é, para já, Maxi.

Hoje Escreves Tu #11

Por Eduardo Barroco de Melo

Se matematicamente ainda é possível, o campeonato acabou hoje. Claro que foi mais um jogo em que o árbitro deixou os cartões em casa e parece incapaz de ver faltas na área, mas que o “jogo externo” está contra o Porto já nós sabemos. Isso não apaga, contudo, as culpas próprias de um clube que anda perdido há muito. Esqueçam lá o “Somos Porto” e o “Só perdes quando desistes de lutar”, isso é bom para enganar tolos. É certo que este clube foi forjado na capacidade de trabalho para ultrapassar os obstáculos que lhe foram colocados no caminho sucessivamente. Mas as frases feitas não fazem nenhuma organização, e se há coisa que define o sucesso é a competência. O Porto foi o clube mais competente no futebol português nos últimos 40 anos, mas andamos há quatro anos (mais?) à deriva.

Acreditei que era possível ganhar apesar do Nuno Espírito Santo, mas o jogo de hoje é prova de que isso não é possível. Tenho imenso respeito pelo que deu como jogador e pela forma como sente o clube, mas a total desorganização em campo não são desculpáveis por isso. Nuno não soube fazer a transição para um clube grande e é confrangedor ver esta equipa a jogar como uma equipa pequena. Jogar a defender com muitos e a despejar bolas na frente de forma absolutamente aleatória tem sido a norma e contra uma equipa que jogou com 11 dentro de área é um suicídio. Ser obrigado a ver como se desvalorizam jogadores como Rúben Neves, Óliver Torres, Otávio, Brahimi e André Silva e ter de ver Maxi, André André ou Soares (que não tem qualidade nem para fazer parte do plantel) é inqualificável.

Há pouco tempo comemoraram-se 35 anos da presidência de Pinto da Costa e estamos todos eternamente gratos pelo que fez pelo clube. Mas, no fim desta época, deixa de haver condições para que mantenha o cargo. Quem não sabe sair por si, tem de sair empurrado. E não há ninguém maior do que o clube, nem mesmo Pinto da Costa.

Rafa vs Mehdi Carcela

Não pude deixar de observar nos últimos dias esta estatística do site Goalpoint.pt. Nos últimos anos, as pessoas tem levado ao extremo a comparação entre jogadores com base nos números estatísticos realizados sem atender a uma multiplicidade de factores como as características e competência individuais e colectivas dos jogadores nos vários planos do jogo, a sua adaptação ao novo clube, a novos métodos de trabalho e a um conjunto de rotinas e processos de jogo, ao trabalho “invisível” que é feito pelos treinadores com determinado jogador (que pode ser visível se o jogador demonstrar em campo uma determinada evolução trilhada) e à  forma em como os treinadores conseguem adequar as suas unidades às matrizes identitárias que são trabalhadas na equipa, optimizando o seu rendimento.

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Um empate que sabe a pouco quando foi feito tanto

Tudo na mesma depois do jogo do título: o empate acaba por ter um sabor agridoce para ambas as equipas. O ponto não satisfaz os interesses traçados pelo Benfica para esta jornada nem reflectiu o que os encarnados fizeram ao longo dos 90 minutos. Há que dizê-lo abertamente: o Benfica fez por merecer a vitória apesar do empate também se justificar pelo excelente arranque de segunda parte que a equipa de Nuno Espírito Santo realizou e pelos problemas que causou à construção de jogo dos encarnados. Por outro lado, um empate na Luz foi um mal menor para os portistas. Estou certo que se vendessem aos adeptos do Porto um empate, 80 a 90% compravam-no antes da partida começar. Como referiu e bem Rui Vitória, o campeonato será disputado até às últimas jornadas. Restará ao Porto continuar a marcar os 3 pontos e ao Benfica ultrapassar o jogo de Alvalade.

Com um início demolidor de jogo (mesmo apesar da pressão no osso que os jogadores do Porto fizeram a meio-campo) principalmente dos jogadores que compõem o seu flanco direito (nos primeiros minutos foi essencialmente Nelson Semedo quem foi carregando a equipa para a frente com as suas fintas e progressões com bola no flanco direito) os encarnados, tal como eu previ neste post de antevisão, tomaram as rédeas do jogo, alcançando o primeiro tento numa grande penalidade que não existe. Jonas cria o desequilíbrio, tirando a bola do raio de acção de Felipe para depois dar aquele impulso enganador a Carlos Xistra porque precisamente teve a noção que poderia não chegar novamente ao esférico. No entanto, acredito que à velocidade a que se disputou o lance, Carlos Xistra tenha sido iludido pela ilusão que o brasileiro criou com o seu movimento. Felipe tenta pisar o pé de Jonas (é notória essa tentativa do central brasileiro nas imagens televisivas que a BTV cedeu) mas creio que acaba por não acertar no pé do brasileiro. Valeu-lhe a experiência para sacar a grande penalidade e convertê-la com muita classe, deixando Casillas cair para um lado antes de rematar para o meio da baliza.

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O que esperar do jogo do título?

Benfica e Porto jogam hoje no Estádio da Luz o 236º clássico da sua história. Cada clássico conta uma história e este não será diferente se atendermos ao contexto específico actual da liga portuguesa e até do panorama de crispação existente entre os dois clubes: apesar dos dois clubes ainda precisarem de vencer muitas batalhas até ao final do campeonato, a existir vencedor no jogo de hoje, essa equipa poderá conseguir encarreirar na Luz a conquista da Liga 2016\2017. Em primeiro lugar, depois do clima de guerrilha (mútua) que se verificou nas últimas semanas, crispação que chegou a meter a “selecção nacional” pelo meio deseja-se que a partida traga o necessário espectáculo e que tudo (dentro ou fora das 4 linhas) possa decorrer sem qualquer tipo de problemas. Isso é efectivamente o valor mais importante. O clima de crispação não pode passar por osmose para os adeptos que hoje se deslocarem ao Estádio da Luz para celebrar a festa do futebol.

Em segundo lugar, pede-se à equipa de arbitragem de Carlos Xistra a mais imaculada exibição possível para bem do futebol, da verdade desportiva e do fim do intolerável clima de desconfiança que se criou nas últimas semanas. Uma exibição agradável da equipa de arbitragem na partida não irá terminar com o clima de desconfiança existente mas irá aliviar a pressão sobre a arbitragem nas próximas semanas.

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Jornalismo de sarjeta

A roçar o nível da sarjeta. Ou não viram pura e simplesmente, ou viram aspectos positivos que eu não vi da exibição do jogador. Não podendo afirmar nenhuma das duas, vou só simplesmente concluir que o artigo bem como a pontuação gentilmente oferecida ao jogador pelo referido órgão de comunicação social é parte integrante da mesma estratégia (paga para escrever bem) que lhe tem granjeado todo o hype e que o conseguiu vender pelo preço que foi vendido. Mas este tipo de situação não é nova no jornalismo português.

Denota-se desde há uns meses a esta parte uma estratégia bem montada por parte de alguém para levar os jornais a colocar na berlinda jogadores como Renato Sanches (todas as semanas vemos as notícias que a imprensa portuguesa planta sobre o jogador; quando as procuramos em alguns órgãos de comunicação alemães percebemos que as declarações que são atribuídas a jogadores, treinador e dirigentes do Bayern nunca foram proferidas), João Cancelo (que está a fazer uma época horrível) Bernardo Silva, Hélder Costa, Ivan Cavaleiro, André Silva, André Gomes, Pizzi, Gonçalo Guedes, Nélson Semedo, Ederson, Wallace, Nélson Oliveira, Soares. O que é que todos tem em comum? Sim. Isso. Precisamente. Sim. Está a seguir a linha de raciocínio correcta: todos eles são jogadores da Gestifute de Jorge Mendes. Até o “desaparecido” Fábio Coentrão, jogador que não é tido nem achado (literalmente no bolso de trás das calças de Zidane) tem vindo à baila nos últimos dias porque naturalmente, o Jorginho Mendes ainda precisa de facturar mais umas comissões com a eventual transferência do jogador para outro clube no final da época.

Como Gelson Martins não é um jogador agenciado por Jorge Mendes, de nada lhe valeu a fabulosa assistência de trivela para Cristiano Ronaldo – “comeu” com a mesma nota de um jogador que mal se sabe posicionar em campo e calou.

Já sabia que a Gestifute é uma das principais mecenas do jornalismo português. Contudo, fiquei a saber nos últimos anos que a Gestifute vai patrocinando os jornais desportivos portugueses e espanhóis à medida das suas necessidades. Trata-se de um jornalismo à la carta: ora escreves bem deste agora, ora escreves bem de outro depois e por aí adiante até que sejam todos despachados.

Duas expulsões imaturas que condicionaram uma eliminatória

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Se os dois lances que motivaram a expulsão de Alex Telles na 1ª mão, o lance que motivou a expulsão de Maxi Pereira no jogo desta noite tirou ao Porto a possibilidade de discutir o resultado com a turma italiana e quiçá tirar algo de proveitoso do jogo: o dinheiro em disputa. No lance em questão aceito o argumento de muitos: “ah e tal são lances em que o jogador lança-se com o instintivo intuito de encher o corpo” – sim, é verdade, milhares de jogadores fariam o mesmo, mas, sem ir com o braço à frente na tentativa de ver o remate adversário embater noutra parte do corpo.

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