Para quando uma investigação a toda a linha em Portugal?

O médio de 34 anos do Burnley Joey Barton (internacional inglês em 1 ocasião) foi hoje suspenso por 18 meses e multado em 35 mil euros pela FA devido ao facto de ter violado as regras daquele organismo no que respeita à realização de apostas desportivas por parte de atletas profissionais. Durante 10 anos, Barton realizou mais de 1200 apostas em jogos de futebol numa plataforma online e sensivelmente 15000 apostas no global, realizando uma média de 177 euros por aposta realizada, inclusive contra as equipas onde alinhou.

Não lamento a decisão. Apesar do jogador ter considerado a decisão injusta e de ter apresentado ao organismo um relatório médico que confirma o seu vício pelo jogo, o desfecho obtido hoje (o fim da carreira) foi o desfecho para o qual trabalhou o jogador durante vários anos. Perdeu-se uma carreira interessante (não se pode dizer que o jogador passou ao lado de uma grande carreira porque nunca teve futebol para “ter uma grande carreira”) por falta de cabeça do próprio e a bem da verdade, ainda muito aguentaram os clubes que lhe deram sucessivas oportunidades para se reerguer quando ninguém “apostava” num jogador que era sistematicamente notícia de jornal pelos piores motivos.

Contudo, a decisão da FA, assim como a investigação movida pelo organismo contra o jogador, move-me para o cenário português. Quando é que as autoridades responsáveis (pela lei; Decreto-Lei 66\2015) pelo controlo, inspecção, regulação, prevenção e punição de eventuais práticas ilícitas que possam ser realizadas em matérias de apostas desportivas (o Turismo de Portugal através do seu Serviço de Inspecção e Regulação dos jogos; as autoridades policiais) promovem uma investigação a toda a linha para detectar ou despistar a participação de agentes desportivos (jogadores, treinadores e dirigentes) neste tipo de fenómenos? Quando é que poderemos finalmente perceber o que é que se passa na 2ª liga? Quando é que poderemos ter a certeza de que os espectáculos que compramos não são viciados pelos próprios intervenientes?

A ponta do iceberg da manipulação de resultados em Portugal

O que se passou ontem em Freamunde no Freamunde vs Penafiel foi de facto algo muito estranho mas não tenho dúvidas para afirmar que se trata de mais um esquema de viciação de resultados na 2ª Liga. Onde há fumo há fogo e esta história, se for bem investigada pela Polícia Judiciária, poderá guiar os inspectores a outras histórias de manipulação de resultados.

O súbito aparecimento de uma desconhecida “coach” de jogadores (pelo menos a fiar pelas declarações que foram proferidas pelo presidente da SAD do Freamunde) as mensagens por esta divulgadas ao referido dirigente (sms que continham o resultado exacto que se iria verificar no intervalo e no final da partida), a estranha actuação do árbitro Hélder Malheiro (validou 1 golo irregular ao Penafiel, anulou 2 ao Freamunde e ficaram, segundo a opinião dos homens da casa por assinalar 2 grandes penalidades a favor da turma da casa; no meio do turbilhão em que foi colocada a arbitragem portuguesa, estes erros de arbitragem até podem ser considerados normais, mas, cruzados com os outros factos, já não são assim tão normais…) e as odds verificadas nas casas de apostas (o Penafiel, 4º classificado da Liga, chegou a ter uma odd de 7 euros por cada euro apostado face aos 2 euros no Freamunde, equipa que neste momento está a um passo de descer de divisão) são per se factos verdadeiramente anormais. E não estão a meu ver associados com a Operação Jogo Duplo.   Continuar a ler “A ponta do iceberg da manipulação de resultados em Portugal”

Parcial impunidade

Nos 30 dias de suspensão aplicados a meio desta semana ao director geral do Porto Luís Gonçalves por injúrias proferidas contra o árbitro Hugo Miguel (injúria, ameaça dolosa e coacção física e moral na forma consumada, a meu ver; deixam de ser matérias estritamente desportivas para passarem a ser crimes semi-públicos que devem ser julgados na justiça civil) existe uma certa brandura que não seria decerto aplicada nos mesmos moldes se fosse outro o dirigente (aquele que nós sabemos) que decidisse dizer ao árbitro “que a sua carreira iria ser curta” – a frase em si é reveladora de uma coisa: o FC Porto queixa-se que os órgãos federativos estão dominados pelo Benfica (e estão, na verdade) mas um dos seus dirigentes deixa transparecer que o Porto ainda domina qualquer coisita. Na Liga, é por demais óbvia a relação entre o Porto e Pedro Proença. Se não dominasse qualquer coisita, não haveria lugar a semelhante ameaça e, obviamente, o Conselho de Disciplina da Federação não seria tão rápido a aplicar a sanção aplicada ao dirigente do Porto.

Contudo, perante a gravidade dos factos, uma suspensão por 30 dias é muito branda. Não tenho dúvidas que se este caso se passasse em Inglaterra ou na Alemanha, Luís Gonçalves seria provavelmente castigado por uns anos valentes, se não fosse mesmo convidado a sair da esfera do futebol.

O Sporting ganha alguma coisa com a estratégia de comunicação de Bruno de Carvalho?

Não, a minha resposta é não! Bruno de Carvalho continua a insistir nos erros que provocam o ódio dos rivais em relação à sua figura, que lhe garantem processos disciplinares atrás de processos disciplinares e suspensões atrás de suspensões e que prejudicam a imagem bem como os resultados do futebol do Sporting. Por mais que nos revoltem algumas situações a nós adeptos, e que revoltem ao presidente do Sporting os desvios cometidos pelos órgãos que tutelam o futebol português a favor do cliente do costume (porque acreditar no contrário, ou seja, que não existe um favorecimento expresso aos interesses do Benfica por parte dos órgãos federativos, é negar o óbvio) o presidente do Sporting precisa de ser (continuo a defender) comedido nas palavras.  Continuar a ler “O Sporting ganha alguma coisa com a estratégia de comunicação de Bruno de Carvalho?”

A notícia do dia

via Sapo Desporto

Ora aí está uma bela medida de apoio aos talentos do “desporto amador”. Apesar da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa ser uma entidade de direito privado tutelada directamente pelo Ministério da Segurança Social, continuo a lamentar o facto deste tipo de atletas não serem apoiados directamente pelo Estado através de um regime de profissionalização devidamente contratualizado entre o atleta e o estado (a sociedade), regime que é adoptado em vários dos países ditos “evoluídos”.
Outra questão parece-me pertinente: tal medida deveria ser alargada a atletas com o estatuto de alta competição (inseridos ou não nos projectos olímpicos) não-estudantes que conciliem a sua prática com a sua profissão. A meritocracia não se poderá medir apenas pela observância dos critérios que foram observados nesta atribuição de bolsas. Existem atletas-estudantes de modalidades não-olímpicas e atletas-trabalhadores (de modalidades olímpicas e de não-olímpicas) que tem tão ou mais mérito na conciliação de actividades que aqueles cujas bolsas foram atribuídas. Esses também merecem ser fortemente apoiados.