Os elementos da direcção dos Belenenses desconhecem o país real

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O Estádio Municipal João Cardoso, visto a 250 metros, na madrugada de domingo para segunda.

Por mais que tente compreender, e juro que intelectualmente estou a fazer um enorme exercício de imaginação, para tentar colocar-me na pele dos dirigentes da SAD dos Belenenses de forma a compreender, não consigo entender as razões invocadas pela SAD dos Belenenses (não devemos confundir a direcção dos Belenenses com os quezilentos dirigentes da SAD dos Belenenses; gente que certamente não gosta do futebol nem respeita os mais basilares elementos que consubstanciam o desporto) para não anuir o adiamento do jogo de domingo para uma altura em que nos seja mais favorável.

Perdõem a crítica de um pobre beirão adoptado por uma terra de gente boa, de gente, honesta, simples mas acolhedora, sofredora, gente que faz do arreganho a sua escola de vida. Sei, pelas estatísticas que vou recebendo que uma generosa fatia dos leitores que recebo neste humilde espaço residem na área de Lisboa. Não vos vou tomar como um todo, porque sei que nessa falange de leitores, muitos são, como eu, “lisboetas” adoptados. Lisboetas provenientes dos sete ventos deste nosso Portugal. Não gosto também de embarcar em generalizações radicais ou bacocas, porque a utilização de generalizações é, na maioria das vezes, uma redundância argumentativa falaciosa, que visa somente causar dano em outrém, preterindo a discussão do essencial.

Nós, beirões, visitamos regularmente e conhecemos minimamente Lisboa. Gostamos de visitar Lisboa porque a capital é efectivamente o expoente da nossa nação. Por outro lado, somos quase que impelidos a conhecer a realidade de Lisboa, porque efectivamente uma generosa fatia das notícias que diariamente conhecemos e dos problemas deste país versam sobre as incidências e os problemas Lisboa. Ainda há bem pouco tempo, fomos obrigados a seguir a par e passo, nas televisões que pagamos (com os nossos impostos ou com as nossas subscrições de televisão por cabo) in loco, toda a campanha eleitoral para as câmaras municipais da área de Lisboa. Estou certo que a corrida eleitoral para a Câmara Municipal de Tondela, por exemplo, não teve, nos órgãos de comunicação social 1\100 avos da exposição mediática que por exemplo teve a corrida eleitoral para a autarquia de Loures, nem 1\1000 avos da exposição mediática que foi atribuída à corrida autárquica para a Câmara Municipal de Lisboa. Como referi no início deste parágrafo, nós conhecemos bem a realidade de Lisboa e conhecemos bem uma boa parte dos problemas das suas pessoas. Nós visitamos Lisboa quase todos os anos. Dúvido é que alguns dos lisboetas (dos alfacinhas puros) nos visitem com tanta regularidade, e conheçam tão bem, a fundo, os nossos problemas locais. Nós fazemos parte de um país que não interessa a uma boa percentagem dos alfacinhas. De um país onde não há nada, como diria outrora um ministro das obras públicas. De um país de gente feia. De um país onde, para uma boa parte, ignorante, vivemos do ferro e da madeira.

Quero com isto dizer que muitos lisboetas nunca viram um fogo a consumir mato à sua frente. Nunca viram a sua casa ameaçada por um fenómeno incontrolável. Nunca foram obrigados a pegar de uma mangueira para proteger o que é seu. Nunca viram o seu trabalho de uma vida ameaçado por um designio criminoso ao qual são profundamente alheios. Nunca sentiram o que é perder familiares e amigos num incêndio. Nunca viram o pânico que se instala numa pobre vila, ou numa pobre cidade (curiosamente eu sou natural da cidade que milita orgulhosa e galhardamente do outro lado da serra do caramulo: Águeda) quando o fogo desce, vertiginiosamente, a levar tudo por onde passa naquelas encostas. Estou certo que grande parte dos lisboetas, nunca sentiram o que é passar um verão inteiro de coração nas mãos. Sim, de coração nas mãos. Noites e noites sem dormir. Noites muito mal dormidas, porque o perigo espreita a qualquer momento.

Só para que os dirigentes dos Belenenses saibam, em Tondela perderam-se ou ficaram parcialmente destruídas 140 habitações e cerca de duas dezenas de empresas. Cerca de sensivelmente 300 concidadãos do concelho estão neste momento sem tecto, a deitar contas à vida. Outras tantas centenas perderam temporariamente os seus postos de trabalho. O estádio onde vós quereis jogar a toda a força no domingo esteve a um pequeno passo de ser consumido pelas chamas. O ar estava profundamente irrespirável naquele dia. Mesmo assim, os nossos bravos jogadores, esqueceram toda a miséria que lhes estava envolta naquele dia para se prepararem o melhor que podiam para vos receber… Vejam aqui…

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Sim, o treino de segunda feira do plantel sénior do Tondela foi feito nos corredores do Estádio Municipal. Foi, digamos, o possível, para não quebrar a forma física dos nossos bravos guerreiros. Achais portanto que estamos em condições iguais para competir? Não creio que estejamos em pé de igualdade.

O desporto é acima de tudo, uma escola de vida. É a vida que o consubstancia, que o consolida. Quando um lote de jogadores sente que a vida que os rodeia, perdeu efectivamente qualidade de vida, digam-me lá vocês, que vontade tem esses jogadores de competir? Que vontade tem este concelho para vos receber? Este concelho adora o desporto, mas, perante tamanha catástrofe estou certo que este concelho só terá nos próximos meses, uma única vontade colectiva: reconstruir o que foi destruído. Reconstruir a paz social.

Vós, dirigentes do Belenenses, não conheceis o país real. Estais muito longe de conhecer o país real. Como cantou Sérgio Godinho:

Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amor
escrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos

E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e mal eu gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar inteiro entrou na minha casa

E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade

Da tempestade, o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é frágil o pano
que veste as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo

Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?

Mudemos de assunto – editado nos álbuns Campolide (1979)e Irmão do Meio (dueto com Jorge Palma) em 2003

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À lei da bomba – 5 breves notas sobre a vitória do Sporting

1 – Os problemas criados pela boa organização defensiva do adversário – O Tondela de Pepa sabia muito bem o que vinha buscar a Alvalade e estava ciente do estilo de jogo que tinha que realizar para alcançar o resultado pretendido: o empate. A estratégia de jogo executada pelos tondelenses desde cedo revelou a carta de intenções para o jogo de Alvalade.

Com um bloco recuado no seu meio-campo em 4x4x2, sistema desdobrável no plano ofensivo para um 4x2x3x1 com Tomané solto na frente de ataque (a estratégia ofensiva delineada pecou em parte por falta de apoio ao avançado; por outro lado, sempre que recuperava a bola, a equipa não conseguiu ter algum critério na construção de jogadas), Pepa montou um bloco recuado e compacto com 3 linhas de pressão bastante activas e funcionais que visavam sobretudo contrariar a 1ª fase de construção do Sporting e anular o jogo interior entre as suas linhas.

Deixando os centrais de fora, a pressão de Pedro Nuno e Tomané activou-se sempre que William pegou no jogo. A equipa tondelense recusou portanto o convite que habitualmente é feito pelos centrais do Sporting quando saem a jogar a partir de trás. Tanto Coates como Mathieu tentaram em várias saídas chamar a equipa contraria à pressão, processo que visa abrir, a partir do adiantamento das linhas adversárias, espaço para Bruno Fernandes e William construir jogo com espaço e sem grande pressão adversária.

Com linhas muito próximas, pensadas para encurtar espaços e para ter sempre jogadores próximos para intervir (para pressionar e roubar para depois poder ter bola nos pés de forma a lançar o contra-ataque) em todas as zonas do terreno, muito bem orientadas e coordenadas pelos dois médios de cariz mais defensivo, sem saídas precipitadas de qualquer jogador para pressionar à toa (qualquer falha poderia libertar o espaço necessário para os leões praticarem outro tipo de futebol) a equipa tondelense esforçou-se para tentar limitar a construção de Bruno Fernandes (impedindo o médio de se virar de frente para o jogo) e para impedir que Alan Ruiz pudesse receber entre a linha média e a linha defensiva.  Continuar a ler “À lei da bomba – 5 breves notas sobre a vitória do Sporting”

Jogada do dia

Das várias que vi hoje, a que mais me encantou foi a do golo do Boavista (Iuri Medeiros aos 66″) na vitória por 1-0 dos axadrezados frente ao Tondela no Bessa.

Dou de barato o péssimo posicionamento de vários jogadores do Tondela (com o lateral direito David Bruno à cabeça) na jogada assim como o facto de Pedro Nuno não ter conseguido acompanhar a entrada do lateral Tiago Mesquita (passou que nem uma flecha pelo antigo jogador da Académica) para fechar por dentro face ao movimento de Kaká. O momento de desequilíbrio foi obviamente criado pela desmarcação do maltês Andre Schembri, arrastando consigo o experiente central brasileiro, de forma a “criar o espaço” com que depois serviu, com inteligência, a entrada de Tiago Mesquita na área com um esplêndido passe de calcanhar.