O cavalar PSG de Unay Emery – algumas notas sobre o sistema táctico e o modelo de jogo do espanhol (processos ofensivos – 1ª parte)

Unay Emery

Há poucos dias pude ler, algures por aí nas redes sociais, um comentário de um indivíduo “cá dos meus”, desses que ainda acreditam e defendem com unhas e dentes a veia romântica do futebol, cujo argumento, in loco, me desarmou por completo, deixando-me sem resposta possível, pelo menos naquele instante. Decorridos 5 minutos, após ter realizado um pequeno brainstorming para remoer a coisa e aclarar as ideias, fiz questão de entabular uma interessante conversa na qual contra argumentei as afirmações do ditocom uma série de exemplos históricos. Escrevia o indivíduo que para ele, neste momento, “não fazia o mínimo sentido perder horas a analisar e a descrever tácticas e modelos de jogo de várias equipas” quando, “com um punhado de milhões no bolso, um único agente detém o poder de deitar tudo por terra, construíndo, com minúcia, uma equipa de estrelas passível de tudo conquistar apenas pela qualidade dos jogadores” –  a minha experiência na observação deste fenómeno dita-me que esta é uma das tentações em que todos nós podemos incorrer quando vemos uma ninhada de estrelas a rumar, de uma vez só, a uma equipa. Assim o foi por exemplo nas equipas “galácticas” do Real Madrid de 2000 a 2005, no dia em que Zlatan Ibrahimovic aterrou em Barcelona para actuar naquela dominadora equipa do Barcelona, assim o foi em 2013 quando o campeão europeu em título, o Bayern foi pescar ao seu maior rival (interno e europeu) o seu melhor jogador (Pep também trouxe Thiago do Barcelona) ou por exemplo no mês (Junho de 2009) em que Florentino Perez decidiu contratar de uma assentada Kaká, Cristiano Ronaldo, Karim Benzema, Raúl Albiol, Xabi Alonso e Esteban Granero. Nesses momentos as pessoas tendem, naturalmente, a sobrevalorizar a qualidade dos jogadores (atribuíndo-lhes automaticamente e euforicamente o domínio sem ver o produto final) em detrimento do trabalho que tem forçosamente de ser realizado pelos treinadores para meter as “máquinas a mexer e a render títulos” – por mais que as máquinas venham calibradas, no auge do seu futebol, serão incapazes de obter bons resultados sem a presença de um bom organizador, ou seja, sem alguém que saiba potenciar o seu rendimento e saiba construir um bom colectivo com as individualidades que possui – A verdade é que nas últimas décadas vários já foram os fracassos de grandes máquinas devido à falta de um treinador capaz ou por ineficácia do trabalho de um bom treinador. O Manchester United de Louis Van Gaal foi o último exemplo de um fracasso retumbante num grande clube europeu, mas houve mais exemplos de treinadores que falharam os seus objectivos em anos de forte investimento por parte do clube e\ou nos anos em que pescaram jogadores nos rivais  – Manuel Pellegrini não conquistou qualquer título na primeira temporada ao serviço do Real e o futebol do Real nessa temporada não foi quanto a mim, esteticamente interessante. Foi eficaz, creio até que Pellegrini somou nesse ano a melhor pontuação da história do clube (pontuação que foi insuficiente para conquistar a Liga) mas esteticamente não foi bonito. O futebol do Bayern de Pep Guardiola deslumbrou na primeira época de Munique com as várias revoluções realizadas pelo técnico catalão em relação ao modelo de Jupp Heynckes (quem não se lembra da colocação de Lahm no meio-campo ou da ideia super inovadora operacionalizada por Pep quando decidiu colocar o “joker” Alaba no eixo de uma defesa a 3, com permissão para subir até ao meio-campo quando a equipa necessitasse que o austríaco subisse no terreno para fazer subir um dos seus médios no terreno?) mas não reconquistou a Champions para o emblema bávaro. A Carlo Ancelotti e Laurent Blanc por exemplo também foram dadas verdadeiras equipas de assalto ao título europeu – ambos fracassaram, cumprindo os objectivos mínimos a que estavam sujeitos pela direcção do clube parisiense: a conquista de vários títulos nacionais. Unay Emery é, um ano depois do choque com a realidade (a saída de Zlatan para o United enfraqueceu imenso o potencial do PSG) um treinador dotado de um verdadeiro conjunto de estrelas para atacar o Olimpo do futebol europeu. Por mais que muitos queiram vender (até a transformar numa verdade universal) a mentira  que o PSG tem gente capaz de conquistar títulos em piloto automático, este post visa desmentir essas mesmas pessoas e desmitificar o bom futebol que está a ser construído na capital francesa pelo consagrado treinador espanhol, técnico que venceu 3 Ligas Europas consecutivas ao serviço do Sevilla. Continuar a ler “O cavalar PSG de Unay Emery – algumas notas sobre o sistema táctico e o modelo de jogo do espanhol (processos ofensivos – 1ª parte)”

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Os golos da Champions

Uma aposta de risco de Rui Vitória. Um par de notas sobre a estreia ao mais alto nível de Mile Svilar

Incontornável assunto colocado à discussão na ordem deste 19 de Outubro foi o ridículo golo sofrido por Mile Svilar na derrota caseira averbada pelo Benfica por 1-0 frente ao Manchester United. Assim que Bruno Varela deixou entrar (por manifesto excesso de confiança) aquela bola saída dos pés de Renato Santos na derrota dos encarnados no Estádio do Bessa, creio que seria lógica e natural a possibilidade de Rui Vitória vir a trocar de guarda-redes nos jogos seguintes, para, numa fase mais adiantada da temporada, promover, na altura certa, quando o jogador já se encontrasse totalmente adaptado à sua nova realidade e às rotinas trabalhadas na equipa, o jovem talento Mile Svilar. O ridículo golo sofrido na noite de ontem em nada beliscou aquilo que penso sobre o jovem guardião belga: Svilar tem um potencial infinito por explorar, talento no qual sobressai um estilo muito peculiar (é um guarda-redes que gosta de actuar ligeiramente mais subido no terreno; característica clássica dos guarda-redes belgas), uma boa capacidade de recuperação na baliza, felino no voo, bastante ágil e flexível, e muito rápido a sair aos pés dos adversários – como ponto fraco parece-me ter somente a saída ao cruzamento por questões meramente posicionais, como pudemos reparar no lance do golo. Svilar não me parece ser aquele tipo de guarda-redes incisivo, agressivo e decidido a sair a cruzamentos, mas, os seus 18 anos, e as 2 temporadas que passará certamente na Luz (podem vir a ser mais ou até menos consoante o grau de evolução) conferem ao treinador de guarda-redes dos encarnados Luís Esteves algum tempo para poder calmamente lapidar os pontos fracos deste diamante em bruto.

A aposta de Rui Vitória no jovem guardião belga, jogador que cumpriu ontem o seu segundo jogo no escalão sénior e o primeiro na principal prova do futebol europeu, tornando-se o mais jovem guardião a alinhar num jogo a contar para a Champions, para um jogo no qual o Benfica teria obrigatoriamente que marcar pontos para continuar a acalentar o sonho de poder discutir o acesso aos quartos-de-final foi por motivos óbvios uma aposta de risco. Mesmo sabendo que estava a submeter o miúdo a um ambiente de extrema complexidade de pressão, frente a uma das mais poderosas equipas do futebol mundial, numa competição onde cada falha é aproveitada pelo adversário e cada falha comprometedora é obviamente sentida de maneira diferente por um jovem em início de carreira, o treinador do Benfica quis obviamente aproveitar a ocasião para correr o risco, ou seja, para dar estaleca ao miúdo, consciente que o belga “saíria em ombros da Luz” se fizesse uma monumental e galvanizadora exibição (exibição que efectivamente realizou até sofrer aquele golo) e muito dificilmente seria criticado ou até gozado (pelos adeptos do clube) se cometesse uma falha grave. Os adeptos dos rivais obviamente passaram o dia a capitalizar sobre a falha, mas isso é uma questão tão antiga quanto a origem do vento e não deverá influir com a psique do jogador. Pelo que tenho visto, confiança não faltará ao jogador para dar a volta por cima nas cenas dos próximos capítulos. Quando, em 2006, nos primeiros jogos de leão ao peito, Rui Patrício falhou, os adeptos dos clubes rivais também cairam sobre o pobre keeper sportinguista. Rui Patrício teve na altura, força mental para aprender com os erros cometidos, para superar os seus próprios fracassos, para se sedimentar como titular da baliza leonina naquela temporada (na altura, o Sporting vivia uma situação muito idêntica à que vivia o Benfica; mesmo apesar das falhas esporádicas que o jovem guardião ia cometendo aqui e ali, Paulo Bento continuou a segurá-lo e a dar-lhe a sua confiança) e acima de tudo para trabalhar com confiança, tornando-se o assombro de guarda-redes que hoje efectivamente é.  Continuar a ler “Os golos da Champions”

Os golos da jornada (1ª parte)

A importância de uma boa saída na transição para o contra-ataque: o segredo da vitória do FC Porto em Vila do Conde. 

Começo este post com um par de notas sobre a vitória dos portistas em Vila do Conde.

A equipa de Sérgio Conceição teve na primeira parte algumas dificuldades para contrariar a bem montada estratégia de jogo por parte de Miguel Cardoso, estratégia que diga-se de passagem é a mais verdadeira matriz identitária desta equipa. À imagem e semelhança daquilo que fez contra o Benfica, nos primeiros 45 minutos, o treinador do Rio Ave (agente cujo “berço de treino” foi precisamente a formação do FC Porto) apostou nos habituais e bem trabalhados\apurados processos de construção da equipa (iniciados a partir de trás, dos pés do guarda-redes Cássio) para dominar a posse de bola, acima de qualquer outro aspecto, conseguir ultrapassar as duas primeiras linhas de pressão do 4x3x3 subido escalonado por Conceição para colocar os seus médios ofensivos, Tarantini e Barreto de frente para o jogo e com espaço para acelerar a construção ofensivo no meio-campo adversário, aproveitando o espaço existente entre a linha média e a linha defensiva da formação portista.  Continuar a ler “Os golos da jornada (1ª parte)”

O golo do dia

O golo de Adrien Rabiot na goleada por 6-2 do Toulouse ao PSG.

Desde que se estreou pela formação principal do clube parisiense, nunca consegui compreender com exactidão o potencial do médio de 22 anos formado a “meias” por vários clubes, do Créteil ao Paris Saint Germain, passando pelo Manchester City, clube onde atleta permaneceu durante 6 meses durante o ano de 2008, altura em que apenas tinha 13 anos. As características tão díspares apresentadas pelo jogador (que o tornam ao mesmo tempo, um médio tão completo; daí advém o facto do PSG não só nunca se ter livre dele mesmo quando não fazia parte das escolhas de Ancelotti, Blanc ou Emery e de lhe ter renovado o contrato até 2019 quando Arsenal e Tottenham se preparavam para o atacar) nunca me deram a segura percepção em relação à posição em que o jogador poderia render mais. Continuar a ler “O golo do dia”

O adeus de Monchi Rodriguez ao Sevilla

 

Por detrás do trabalho que é realizado no campo e nos balneários pelos jogadores, treinadores, preparadores físicos, olheiros, enfermeiros, fisioterapeutas, médicos existe por vezes nos clubes, uns a trabalhar mais na penumbra que outros, uma figura que também é muito importante na conquista de resultados desse mesmo clube: a figura do director desportivo. O Sevilla acabou de perder o melhor da actualidade para a AS Roma: Monchi Rodriguez.

O grande obreiro da ascensão protagonizada pelo Sevilla na última década, quer no cenário espanhol quer no cenário europeu, ascensão coroada com a conquista de 6 títulos europeus e 3 espanhóis, irá mudar-se (em boa hora) para a AS Roma de James Palotta. O multimilionário americano (de origem italiana) apercebeu-se finalmente que a Roma só poderá aspirar a títulos quando tiver um director desportivo capaz de pensar uma estratégia a médio e longo prazo ao invés da estratégia temporada-a-temporada que tem sido pensada desde que o clube se sagrou campeão italiano pela última vez em 2001.

Monchi foi essencial no rumo que o Sevilla trilhou nos últimos 15 anos. Quando o dirigente assumiu o cargo de director desportivo do clube em 2001, 1 ano depois de se ter despedido das balizas do clube, o clube sevilhano era um clube afogado em dificuldades financeiras e sem um rumo definido, oscilando entre a primeira divisão e a segunda divisão. Monchi haveria de revolucionar por completo a política do clube, constituindo-se actualmente como um modelo de gestão desportiva a seguir: o Sevilla precisava em primeiro lugar de criar condições infraestruturais e técnicas para formar bem (ao nível dos maiores clubes espanhóis) e de contratar a baixíssimo custo sem olhar a nomes. Se olharmos actualmente para o clube pensamos que as conquistas europeias (6) custaram muita massa aos cofres do clube. Mentira! O jogador mais caro que os sevillhanos compraram nos últimos anos custou 15 milhões de euros (Franco Vasquez). Quem é que não gostaria de vencer 5 Ligas Europas com investimentos em contratações inferiores a 35 milhões de euros por temporada?

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