Balanço do Giro de Itália – as grandes surpresas e as decepções da 100ª edição da prova italiana (2ª parte)


Nota Prévia: Este post é a 2ª parte do trabalho iniciado durante o dia de ontem no primeiro dos 3 posts dedicados ao Balanço da 100ª edição do Giro de Itália. 

Lukas Postlberger – Bora – Surpresa – Até à primeira etapa da prova, o austríaco Lukas Postlberger era para muitos um perfeito desconhecido. O ciclista só se tinha revelado ao grande público uma ou duas vezes ao longo da sua jovem carreira, quando venceu uma etapa no Tour de L´Avenir (A Volta à França dos jovens) e quando venceu uma das etapas da Volta à Austria. Sendo utilizado naquela primeira etapa como o principal lançador do sprinter que a Bora convocou para o Giro (o irlandês) Sam Bennett, o corredor de 25 anos aproveitou a fase de lançamento do primeiro sprint da prova para realizar um mortífero ataque que deu à Bora o seu principal objectivo para a prova: uma vitória de etapa e o direito a envergar a camisola rosa por um dia.

Patrick Konrad e José Mendes – Decepções – Tanto o português como o austríaco ficaram muito longe dos lugares que se constituíam como os grandes objectivos da equipa para a geral. A equipa pretendia que um dos seus trepadores pudesse obter um lugar no top15. Tanto Mendes como Konrad acabaram por não conseguir andar nos lugares cimeiros nas etapas de montanha, terminando até a sua participação sem terem entrado em qualquer fuga na 3ª semana.

Michael Woods – Cannondale – Decepção – Muitos esperavam, até porque a forma evidenciada do canadiano nas provas de preparação indiciavam que estava a passar por um excelente momento de forma, que este pudesse, em conjunto com Davide Formolo, lutar por um lugar no top10. Formolo esteve perto de atingir os objectivos traçados pela equipa para a sua prestação na prova. Woods esteve bastante longe. Pierre Rolland acabou por conseguir salvar a honra do convento, vencendo uma etapa que premiou a enorme combatividade que demonstrou ao longo da prova.

Jan Hirt – CCC – Surpresa

Jan Hirt sai efectivamente muito valorizado deste Giro. O checo de 26 anos, chefe-de-fila da frágil mas muito combativa formação polaca CCC obteve um extraordinário 12º lugar na geral na sua prova de estreia em provas de 3 semanas. Estamos perante um all-rounder que irá decerto rumar a uma formação mais interessante na próxima temporada. Quer em situações de fuga, tiradas em que o checo tentou a sua sorte, quer nas últimas etapas, tiradas em que o checo mostrou o seu valor junto dos melhores, aguentando as cargas dos principais favoritos, Hirt provou ser um corredor capaz de eventualmente liderar uma equipa de World Tour numa grande prova, com francas possibilidades de vir a lutar por lugares nos 10+. Aguçou o apetite das principais formações do panorama velocipédico actual.

Thibaut Pinot – Française des Jeux – Surpresa – Pela regularidade (estando efectivamente a melhorar a sua regularidade nas provas de 3 semanas; já não tem aqueles dias muito maus que o afastaram há uns anos nas primeiras abordagens à alta montanha da luta pela vitória da geral) e pela ofensividade que o francês demonstrou nas etapas da última semana, sendo de longe o ciclista mais inconformado com a situação de corrida. Se crescer ao nível de forma durante o mês de Junho, vai ser o “caso sério” do Tour deste ano.

Gazprom-Rusvelo – Surpresa – Menção colectiva – A formação Russa não se escondeu no meio do pelotão. O seu director desportivo nunca teve medo de vir para a frente e de expor a sua experiente formação de cara ao vento. Ciclistas como Pavel Brutt, Alexander Foliforov e Evgeny Shalunov rodaram vários quilómetros na frente. Brutt conseguiu fechar no pódio em duas etapas e esteve muito próximo de conquistar a vitória no prémio dos sprints intermédios, perdendo esta categoria para Daniel Teklehaimanot nas últimas tiradas da prova por 1 ponto de diferença. Boa atitude, bom espírito de grupo. Mereciam uma vitória de etapa.

Andre Greipel – Decepção – O alemão foi na minha opinião uma das grandes decepções da prova. À partida, Greipel tinha reunidas todas as condições para poder limpar 3 ou 4 etapas e coroar-se como o rei dos Sprinters. O alemão e a sua equipa não adoptaram ao longo da prova as melhores posturas de corrida. A sua equipa optou por tentar aparecer na frente do pelotão nos últimos quilómetros, colocando apenas uma unidade na dianteira quando a fuga do dia ameaçava fazer ruir a hipótese de uma chegada ao sprint. Não conseguindo impor o seu comboio, porque nesse aspecto tanto a Bora como a Quickstep foram efectivamente mais fortes, a equipa colocou “à nora” o seu sprinter. Greipel apareceu portanto quase sempre muito mal colocado na antecâmara dos sprints finais, facto que explica as razões pelas quais perdeu tantos sprints para Fernando Gaviria. O colombiano teve em Mauro Richeze um excelente lançador. O alemão raramente teve um bom lançador durante a prova. Saiu da prova pela porta pequena assim que terminaram as oportunidades para os sprinters.

Adam Yates – Orica – Surpresa – O britânico foi um dos 3 prejudicados na etapa do Blockhaus. A queda haveria de afastá-lo da luta pela vitória na competição mas não o desmotivou a procurar continuar a estratégia de corrida traçada. Yates mostrou que é um jovem com muito talento e com a cabeça no sítio. O australiano levantou, curou as mazelas físicas provocadas pela queda, recuperou psicologicamente e foi à luta. Uma posição no top10 premeia o seu espírito de sacrifício. Tenho a certeza que Yates terá um futuro tremendo à sua frente.

Ruben Plaza – Orica – Surpresa – O espanhol era o único gregário de montanha que Yates possuía na sua formação. O espanhol voltou a provar no Giro o porquê de muitos o considerarem um dos melhores gregários da actualidade do ciclismo. Numa equipa muito escassa ao nível de soluções para o trabalho na alta montanha (a prioridade da Orica foi desde o início o trabalho para o sprinter Caleb Ewan), Plaza (e Carlos Verona) valeram por várias unidades, desenvolvendo um trabalho fantástico em prol do seu chefe-de-fila.

Fernando Gaviria – Quickstep – Surpresa – A 100ª edição do Giro só veio confirmar o que todos os amantes e conhecedores já suspeitavam sobre o ciclista colombiano: estamos perante um caso sério! O colombiano é nitidamente, um olhar sobre o futuro desta modalidade. Peter Sagan poderá finalmente ter um concorrente à altura na luta pela camisola da regularidade do Tour. A Quickstep trouxe Gaviria à prova italiana porque o ambiente era favorável para testar o actual estado de evolução do colombiano bem como o seu comportamento numa prova de 3 semanas. A ausência de grande parte da actual elite do mundo dos sprints aumentou naturalmente o nível de pressão colocada pela equipa junto do seu sprinter para testar a sua resistência a eventuais derrotas – o colombiano tinha que conseguir vencer pelo menos uma vez! Por outro lado, a formação belga também utilizou a prova para testar a dupla formada pelo colombiano e pelo seu lançador, o argentino Mauro Richeze. Foi portanto um teste em pêras! Apesar de ter perdido as duas primeiras etapas para Lukas Postlberger e André Greipel, o colombiano fez um fantástico poker de etapas que envergonhou André Greipel, salientando-lhe uma certa sensação de impotência.

Profissional e objectivo em todos os momentos, para além das 4 vitórias, o ciclista tentou assegurar desde muito cedo a conquista da camisola fuchsia da regularidade, aproveitando todos os sprints intermédios para marcar pontos. Esteve perto de se tornar o ciclista mais combativo da prova.

Dimension Data – Desilusão – A equipa sul-africana apresentou-se em prova com a formação mais fraca dos últimos anos. Sem grandes aspirações na geral (só um grande Igor Antón seria capaz de eventualmente conseguir batalhar por um lugar no top15) a equipa sul-africana virou-se para a caça às vitórias em etapas (obteve com Omar Fraile) e para os prémios – venceu o dos sprints com o eritreu Daniel Teklehaimanot. Fraile e Anton deixaram escapar a montanha para Mikel Landa e Kristian Sbaragli não conseguiu vencer ao sprint apesar de se ter feito a vários com relativo sucesso.

José Gonçalves – Decepção – Katusha – No seu primeiro Giro, esperava-se que o ciclista natural de Barcelos pudesse realizar uma prova similar aquelas que tem realizado na Vuelta nos últimos anos, ou seja, uma prova irreverente. Não sendo um sprinter puro, Gonçalves é um corredor com uma ponta final explosiva que lhe permite ombrear com qualquer sprinter. Por outro lado, José Gonçalves é um corredor que se arrisca a vencer muitas etapas se conseguir entrar em fugas, sendo portanto um ciclista que tem um grau aceitável de resistência à montanha, de preferência à média montanha. Esta versatilidade do corredor português não foi explorada por uma equipa que se preocupou em exclusivo com o seu líder, Ilnur Zakarin. O Giro acabaria por passar ao lado do ciclista luso.

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