A proeza de Dan Martin

Os últimos exames médicos realizados durante esta semana pelo chefe-de-fila da Quickstep no Tour Daniel Martin confirmaram que o irlandês, 6º classificado na geral individual, correu 12 etapas na prova francesa com as vértebras L2 e L3 partidas, na sequência da aparatosa queda sofrida como consequência da queda de Richie Porte na 9ª etapa.

12 etapas de puro sofrimento em que o ciclista não só continuou a lidar na perfeição com a brutalidade dos esforço realizados durante as etapas e com o natural cansaço que se acumula numa prova desta tipologia, como ainda conseguiu lançar ataques na montanha com duas vértebras partidas. Nas etapas em linha disputadas entre a 9ª etapa e a 21ª, Martin viria apenas a perder tempo em duas ocasiões para os rivais: no dia da queda (1,19m) e curiosamente, na etapa 13ª, tirada em que o vento fez estragos na chegada a Romains-Sur-Isère. No frente-a-frente na montanha o irlandês não perdeu um único segundo para ninguém e ainda conseguiu ser o ciclista de abordagem agressiva a que nos habituámos.  Continuar a ler “A proeza de Dan Martin”

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Bloco de Notas da História #28 – A melhor abordagem de sempre a um contra-relógio

Miguel Indurain. 13 de Julho 1992. 9ª etapa da 79ª edição Tour de France. 1994. Bergerac. Um orgasmo de competência no contra-relógio. Dois vídeos (e um rendimento) que deveriam ser vistos por todos aqueles cujas pretensões não são alcançadas em virtude dos seus fracos desempenhos no contra-relógio.

Indurain media 1,86 e pesava 80 kg. Face aos grandes contra-relogistas daquela era, o espanhol era significativamente mais pesado que todos. Chris Boardman era 10 kg mais leve que Indurain. Mesmo assim, em 1994, no brilhante contra-relógio de Bergerac, o ciclista britânico, ciclista que haveria de protagonizar, uns meses mais tarde, uma titânica luta frente ao espanhol pelo recorde da hora, apanhava 5 espantosos minutos do navarrenho! Nesse contra-relógio também aconteceu algo curioso…

Um tal de Lance Armstrong, campeão do mundo de estrada em 1993 na cidade de Oslo, ciclista que viria a ser, alguns anos mais tarde, um “dos melhores contra-relogistas” do cenário velocipédico mundial, era literalmente dobrado de “mota” pela 500cc de Indurain.

Melchior Mauri era 6 kg mais leve. Olano 8. Zulle era um peso pluma de 69 kg. Ao nível de peso (muscular) o espanhol tinha vantagem sobre os restantes, facto que lhe permitia efectivamente rolar melhor. No entanto, nas subidas, os restantes ciclistas mencionados tinham um processo de “watts saving” superiores aos do Extraterrestre. A massa gorda no corpo de Indurain era, na altura, superior à de Alex Zulle.

Os extraordinários contra-relógios de Indurain não se resumiam porém às questões morfológicas. Na vertente física, o espanhol preparava-se muito bem para as provas de contra-relógio. Como estudava minuciosamente os traçados nos momentos de preparação para a prova, Indurain conhecia na perfeição o terreno que iria correr bem como a cadência que deveria colocar nos diversos segmentos de terreno na sua desmultiplicação 54×12 que o fazia avançar 9 metros por pedalada! Isso permitia-lhe gerir com uma eficácia tremenda o esforço realizado ao longo do crono. O prego a fundo era importante mas…

Uns anos antes tinha existido um senão quando o ciclista tinha cometido um erro na montagem da sua bicicleta. Ao subir em demasia o guiador da sua bicicleta, o ciclista ia tão agachado que não conseguia desenvolver correctamente a sua pedalada nem tão pouco ter uma respiração correcta para o esforço energético que estava a despender. Os resultados levaram o ciclista e a sua equipa a formular vários projectos para a constituição de um bicicleta com a qual o atleta pudesse tirar o maior rendimento. Os projectos da Banesto com a Pinarello, redundaram na célebre Espada que foi utilizada pelo atleta na tentativa do recorde da hora.

  • 7.2 kg de peso.
  • Quadro revolucionário fabricado numa só peça com um espessor mínimo de 1,5 km.
  • Pedais preparados para uma sapatilha especial, criadas propositadamente para o pé do atleta. As sapatilhas permitiam-lhe a sensação de ter o pé e a perna “unificados” ao pedal.
  • Um sistema de acoplamento que viria a ser adoptado por todas as marcas nos anos seguintes.
  • Rodas lenticulares de fibra de carbono, extremamente leves. A roda traseira tinha um diâmetro maior que a dianteira.
  • O selim colocado milimetricamente de acordo com a altura e a aerodinâmica do ciclista.

Esta bicicleta, haveria de ser uma das múltiplas bicicletas criadas pela Pinarello para Indurain.

A postura corporal, em especial do tronco: o espanhol não mexia um milímetro durante a prova, fosse a prova de 10 minutos ou de uma hora. As linhas de corrida eram sempre aquelas que permitiam aproveitar todo o pedaço de estrada que melhorasse a velocidade.

As melhores imagens da 104ª edição do Tour

Conforme prometi no post de ontem, aqui fica a minha selecção com os melhores vídeos da 104ª edição do Tour. Para amanhã ficará o post de rescaldo da prova.

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Tour de France – 20ª e 21ª etapa – O inevitável epílogo

A 50 metros de fechar a 4ª vitória no Tour, Chris Froome mostrou um raro sorriso. Sem manifestar muito entusiasmo, aquele natural entusiasmo de quem acabara de escrever mais uma página de História na sua vida, na vida da prova que acabara de vencer, e até na modalidade em que é indiscutivelmente um dos Grandes, o britânico esticou o braço, ergueu o punho e tratou de dar uma pancada nas costas ao seu fiel escudeiro Michal Kwiatkowski. “Missão cumprida” – deverá ter pensado momentaneamente o britânico quando decidiu ter aquele gesto de carinho para com um ciclista que teria, em condições naturais, com uma equipa minimamente interessante às costas, capacidade para lutar por um lugar no top10 da geral individual. No fundo, quem é que desta equipa não teria capacidades para lutar pelo top10? Landa. Nieve. Henao. Kwiat. Thomas. Até o próprio Nieve se lhe fossem concedidas possibilidades para trabalhar no sentido de se apresentar na forma francesa em forma e com objectivos em mente.

Esta vitória foi efectivamente mais dura que as anteriores. O conjunto de situações que retiraram 2 dos principais rivais da prova foram só duas condicionantes que atenuaram o caminho ao britânico. Bardet, Uran e Aru foram, em momentos distintos da corrida, ossos duros de roer para o super ciclista. O inglês passou no exame. Desta vez o ciclista inglês nascido no Quénia, não foi obrigado (e em muitas etapas os adversários não o permitiram) a pintar a corrida com a sua indelével marca de água. Não vimos um Froome expansivo. Não vimos um Froome aventureiro. Vimos um Froome calculista e bem secundado por uma equipa escolhida a dedo que não cometeu grandes falhas nos momentos cruciais da prova. O colombiano, 2º classificado da geral, o francês da AG2R, o italiano da Astana e outros ciclistas como Daniel Martin, Barguil, Simon Yates, deram mostras sólidas daquilo que podem vir a realizar no futuro. Para o ano podemos ter Mikel Landa a correr por outra equipa porque nota-se a milhas que o espanhol não está contente com o seu papel dentro da equipa Sky. Tom Dumoulin, será, ao que tudo indica, a aposta da Sunweb para o Tour do próximo ano. O holandês poderá ser, em virtude da sua combatividade na alta montanha, do seu calculismo apurado, e da versatilidade provida pela sua altíssima especialidade no contra-relógio, a autêntica sombra de Froome nas próximas edições da prova francesa. Richie Porte também aparecerá em 2018 mais forte. O australiano deverá querer decerto fintar o azar que o vitimou na edição deste ano de forma tão precoce quando a corrida estava definitivamente a abrir. O australiano é louco o suficiente para tentar, tentar, tentar até aos 45 anos e só irá ficar satisfeito quando puder vencer o Tour. Alejandro Valverde poderá efectivamente não voltar à prova francesa mas Nairo Quintana não será o modesto NairoMan que vimos, fruto do cansaço acumulado devido à participação no Giro, na prova deste ano. Thibaut Pinot também deverá apostar à séria na edição de 2018, para vingar o mau desempenho geral da equipa FDJ na sua “prova rainha” da temporada. A estes nomes irão naturalmente acrescentar-se outros da nova geração. Manny Buchmann, Julien Alaphillippe (faltou à chamada por lesão), Adam Yates, Jan Hirt, Pierre Roger Latour, terão o seu espaço para crescer e para brilhar no futuro. O nível vai subir daqui em diante. Froome sabe. Toda a gente que segue esta modalidade, sabe. Vencer uma grande volta será cada vez mais difícil para um ciclista, indiferentemente do seu estatuto e da sua qualidade. O que não falta na hodiernidade da modalidade é talento, competência e vontade no pelotão internacional.

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A receita para um grande sprint

Vale a pena perder 2:45m das nossas vidas a observar este brilhante vídeo editado pela Eurosport. Neste vídeo podem ver com clareza todos os pormenores que diariamente abordo sobre um sprint. Os comboios, o acto de lançamento, a poupança de energia por parte do sprinter, a colocação no acto de lançamento, o “aproveitamento de determinadas rodas” por parte dos sprinters que não possuem um bom trabalho de equipa.

Tour de France – 19ª etapa – Edvald Boasson Hagen salvou a participação da Dimension Data na chegada a Salon-En-Provence

A volta queima os seus últimos cartuchos. À partida para esta etapa seria expectável que todas as equipas que ainda não ganharam qualquer etapa na prova e\ou que não vão levar nenhum ciclista ao pódio final de Paris utilizassem a tirada entre Embrun e Salon-de-Provence para dar outra expressão à sua performance. Qualquer equipa que saia de uma grande volta sem vencer uma etapa, pode considerar como inglórios (em vão) os esforços realizados durante o decurso da mesma. Vencer uma etapa numa grande volta é o principal objectivo estabelecido por grande parte das equipas presentes. A única excepção a esta regra é mesmo a Sky de Christopher Froome. Para a formação britânica, vencer uma etapa (já venceu, por intermédio de Geraint Thomas) sem vencer a geral da prova terá um sabor bastante amargo se atendermos à qualidade do elenco que foi convocado por Nicolas Portal para ajudar o seu chefe-de-fila a chegar ao 4º triunfo na prova.

Numa etapa bastante animada pela fuga do dia, Edvald Boasson Hagen pode aliviar os sobressaltados corações dos responsáveis da Dimension Data. De uma maneira ou de outra, nas etapas disputadas ao sprint ou nas etapas de montanha, Mark Cavendish e corredores como Stephen Cummings ou Serge Paawels (o ciclista belga tentou dar o litro em todas as fugas em que entrou no decurso da prova mas não conseguiu ser feliz) davam todas as garantias ao seu director desportivo. O prognóstico inicial ajuizado pela formação sul-africana acabou por cair num mar de dúvidas quando Mark Cavendish abandonou a prova na 4ª etapa. Quando Cummings e Paawels não conseguiram triunfar nas fugas em que entraram na montanha, ou até mesmo quando Edvald Boasson Hagen foi obrigado a fazer o papel de Cavendish nos sprints, papel que o levou a acumular uma série de 2ºs e 3ºs lugares nos sprints disputados contra Kittel ou Matthews, o mar de dúvidas que reinava no seio da equipa transformou-se num enorme pesadelo.

Na 19ª etapa da prova, a formação sul-africana decidiu alterar a sua estratégia de corrida. Ao lançar Boasson Hagen na numerosa fuga que se estabeleceu na frente, a formação orientada por Brian Smith pretendeu livrar o finalizador noruguês das oportunas garras de Michael Matthews.

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