A organização defensiva e a entrega ao jogo do Atlético de Madrid (parte 2)

Este post surge na sequência do post anterior, para explicar as razões pelas quais defendo que a organização defensiva do Atlético de Madrid de Simeone deveria ser objecto de estudo nas universidades pelo seu carácter extraordinário e fascinante. Como cheguei hoje a um número de visualizações jamais equacionado no momento em que criei este blogue, decidi brindar-vos com um pouco de conhecimento sobre a modalidade que tanto amamos.

Antes de passar aos habituais exemplos práticos, retirados da partida realizada na noite de ontem frente ao Real, permitam-me que vos escreva umas linhas sobre princípios tácticos de um jogo de futebol, mais concretamente sobre princípios defensivos.

Os objectivos gerais da acção sem bola, vulgo acção defensiva são:

  • Impedir ao máximo a progressão (invasão) do adversário no terreno (nos seus espaços defensivos)
  • Reduzir ao máximo o “espaço jogo do adversário”.
  • Recuperar a posse de bola, preferencialmente em terrenos adiantados para poder concretizar imediatamente uma acção de contragolpe que possa apanhar a equipa adversária descompensada.
  • Proteger a baliza.
  • Anular ao máximo as situações de finalização do adversário.

Para a realizar destes objectivos, a equipa deverá cumprir certos princípios de jogo. Entre os quais:

  • O princípio de contenção 
  1. – A equipa deve diminuir o espaço e o tempo de acção ofensiva do portador da bola. (limitação de espaço e tempo para pensar e executar)
  2. A equipa deve orientar a progressão do portador da bola para uma zona onde possa ser mais fácil roubar-lhe a posse, desarmando-o, fechando-lhe linhas de passe, obrigando-o portanto a cometer erros. (Restrição da acção de passe)
  3. A equipa ou os jogadores de determinada zona devem organizar-se de forma a parar ou atrasar o ataque ou contra-ataque adversário, propiciando em simultÂneo mais tempo para se organizar adequadamente no terreno de forma a complicar a acção ofensiva adversária e facilitar a intervenção.
  4. Os jogadores devem evitar a possibilidade do adversário colocar um drible que permita progressão no terreno e seja um elemento criador de uma situação de desequilíbrio, vulgo, inferioridade ou incapacidade de intervenção.
  5. Impedir a finalização.
  • O princípio da cobertura defensiva.
  1. Determinado jogador deve servir de novo obstáculo ao portador da bola, caso este passe pelo jogador de contenção.
  2. Determinado jogador deve transmitir confiança e segurança ao jogador de contenção para que ele tenha iniciativa de combate Às acções ofensivas do portador da bola.
  • O princípio do equilíbrio defensivo
  1. A equipa deve assegurar estabilidade defensiva nas várias zonas em que a bola está a ser disputada.
  2. Determinados jogadores devem apoiar os companheiros que executam as acções de contenção e cobertura defensiva.
  3. Cobrir linhas de passe.
  4. Marcar potenciais jogadores que possam receber o esférico.
  5. Fazer recuperação defensiva sobre o portador da bola.
  6. Recuperar ou afastar a bola da zona onde ela se encontra.
  • O princípio da Concentração
  1. Aumentar a protecção À sua baliza.
  2. Condicionar o jogo ofensivo adversário para zonas de menor risco do terreno.
  3. Propiciar o aumento da intensidade e agressividade da pressão no centro de jogo onde se disputa a bola.
  • O princípio da Unidade defensiva
  1. A equipa deve defender unida em bloco.
  2. A equipa deve garantir estabilidade espacial e sincronia de movimentos entre linhas, tanto longitudinalmente como transversalmente, tentando ao máximo fechar os espaços para o adversário jogar.
  3. A equipa deve diminuir a amplitude defensiva da equipa adversária, em termos de largura e profundidade.
  4. A equipa deve assegurar linhas orientadoras básicas que influenciem os comportamentos técnicos e tácticos dos jogadores que se posicionem fora do centro de jogo onde se está a disputar a bola.
  5. A equipa deve racionalizar ou equilibrar ou reequilibrar constantemente a repartição de unidades (forças) na organização, consoante as situações momentÂneas de jogo, de forma a reduzir o espaço de jogo do adversário.
  6. A equipa deve obstruir linhas de passe para jogadores que se encontrem fora do centro de jogo, para evitar que o portador possa almejar a progressão, através do passe para esses mesmos jogadores.
  7. A equipa deve propiciar a obtenção de superioridade numérica no centro de jogo.

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A organização defensiva e a entrega ao jogo do Atlético de Madrid

O desempenho defensivo do Atlético nos primeiros 45 minutos da partida que está a ser disputada no Wanda Metropolitano reforçam a ideia que há muito está presente no meu pensamento: a rápida transição defensiva (saltando os jogadores rapidamente de um sistema de pressão alta organizada quando a pressão alta não surte os devidos efeitos planeados, efeitos que passam sempre pela recuperação da posse bola em sectores adiantados do terreno para dar azo a perigosas acções de contragolpe para um bloco baixo bem organizado) a organização defensiva solidária (bloco baixo compacto, com linhas bem articuladas quer ao nível de longitude, quer ao nível transversal; fechando os seus dois médios o acesso ao jogo interior; obrigando-o a ter que circular para as faixas, faixas bem povoadas com 3 jogadores onde o adversário só conseguiu penetrar no último terço adversário por 4 ocasiões, sempre pelo mesmo flanco; 3 vezes por força das acções individuais de Marcelo e de Isco e uma através de uma tabela realizada entre Kroos e Ronaldo pela interior esquerda; excelente comportamento individual ao nível da defesa das suas respectivas zonas e de coberturas em caso de desequilíbrio) e a agressiva (para não lhe chamar viril) entrega ao jogo deste Atlético de Simeone deveria ser, pelo seu carácter extraordinário, fantástico, e pelo fascínio que em mim exerce, objecto de estudo em todas as universidades.

Os golos da jornada (1ª parte)

Começo este post pela derrota do Real Madrid na deslocação à Catalunha, mais concretamente ao terreno do recém-promovido Girona, emblema que é actualmente presidido pelo antigo lateral direito internacional Delfi Geli (jogador que se celebrizou nos anos 90 ao serviço do Atlético de Madrid de Radomir Antic) e que como se sabe foi adquirido recentemente pelos emires do City Football Group, a holding que controla, entre outros clubes, o Manchester City. Frente ao actual campeão espanhol e bicampeão europeu, a formação catalã fez um “partidazo” incrível (em suma, o jogo foi provavelmente um dos melhores jogos de 2017 da Liga Espanhola) no qual, no frenético (disputado a uma velocidade altíssima que me levou sinceramente a crer, in loco, que os catalães não teriam pernas para mais de 60 minutos; enganei-me redondamente; foi precisamente a partir dos 60 minutos que os merengues não tiveram pernas para aguentar o verdadeiro rolo compressor exercido pela formação da casa) e entrecortado carácter que o jogo foi proporcionando (de bola cá, bola lá) criou várias situações de perigo (enviando inclusive duas bolas aos ferros da baliza defendida por Kiko Casilla, titular em função da ausência de Keylor Navas) e beneficiou de uma rara (nada normal) falta de compostura de Ronaldo no capítulo da finalização.  Continuar a ler “Os golos da jornada (1ª parte)”

Atlético 1-1 Barcelona – Um mero e breve conjunto de apontamentos

Entrada prometedora dos catalães na partida.

O guião, vulgo, plano de jogo, de entrega total,, ditado por Diego Pablo Simeone aos seus jogadores já é ou pelo menos já deveria ser sobejamente conhecidos por todos aqueles que tem estado minimamente atentos ao percurso da formação colchonera desde o momento em que argentino assumiu o seu comando técnico. No que concerne às suas ideias de jogo, às dinâmicas e aos processos que compõem o seu modelo de jogo, o treinador argentino raramente altera o quer que seja em função do potencial do adversário que vai defrontar. A equipa mantém-se fiel às matrizes da histórica identidade construída pelo técnico argentino nas últimas 4 temporadas, alterando apenas o nível de intensidade e de agressividade com que a equipa pressiona o adversário logo nos primeiros minutos (porque efectivamente estes jogos dão “muito mais ganas” aos jogadores) – ainda há duas semanas, na partida disputada contra o Leganés a formação colchonera entrou à sua imagem e semelhança – a pressionar alto a saída adversária para condicionar a sua construção (obrigando a equipa adversária a reciclar o jogo para os espaços para os quais o Atleti quer que ela saia – para os corredores – para efectuar a rápida recuperação), nunca permitindo que a equipa adversária consiga estar confortável no jogo (leia-se: em posse durante longos períodos de tempo, no seu meio-campo), recuando as suas linhas quando a equipa sente que a pressão alta não está a surtir o devido efeito (não está a permitir a recuperação de bolas) e\ou que a disposição num bloco baixo extremamente bem organizado do ponto de vista de cobertura posicional e apoios (sectores bem preenchidos – sempre com superioridade nas zonas onde está a bola) é a disposição no terreno mais profícua para fechar a sua baliza, encurtar os espaços para a equipa adversária circular (negando-lhe sempre a possibilidade de entrar no jogo interior; linhas muito próximas) e capitalizar cada recuperação nas saídas para o contra-ataque, aproveitando claro está, neste capítulo, o maior adiantamento do adversário no terreno. Continuar a ler “Atlético 1-1 Barcelona – Um mero e breve conjunto de apontamentos”

Atlético vs Barça (1ª parte)

A jogada do único golo da partida. Transição simples e tão bem elaborada. Abertura para o flanco esquerdo onde Felipe Luis aparece bem projectado no terreno. O brasileiro apercebe-se que Ferreira-Carrasco, mais pelo interior tem espaço para receber porque Semedo lhe concedeu esse mesmo espaço. O brasileiro devolve para o interior.

yannick

O belga foi extremamente inteligente na sua acção. Em vez de receber, deixa passar a bola para tirar Semedo em definitivo do lance. Como podemos ver, Saúl também já ganhou a frente ao seu opositor, existindo espaço entre Rakitic e os defesas.

yannick 2

Yannick só precisa de colocar portanto a bola naquele espaço vazio que vai ser aproveitado por Saúl para executar aquele belíssimo remate em arco que beijou as redes da baliza de Ter Stegen.

O Barça tem efectivamente tido mais bola, mais iniciativa ofensiva e mais posse territorial no meio-campo adversário, frente a uma equipa que como se tem visto é capaz de pressionar muito bem em terrenos adiantados (já tendo conquistado várias bolas em erros de Jordi Alba, Piqué e Umtiti na saída de jogo) como de baixar rapidamente as suas linhas até aos seus últimos 30 metros, juntando linhas, sempre que pressente que a execução de um sistema pressão alta no meio-campo adversário não trará conquistas e prejudicará o equilíbrio defensivo pretendido pelo seu treinador Os últimos 30 metros do Barça tem sido o busílis da paciente mas conservadora exibição ofensiva dos culé – pouco criativa (variações de flanco a flanco – esteréis, porque Simeone consegue ter igualdade numérica na esquerda e superioridade 4×2 ou 4×3 na direita, mesmo nos lances em que Suarez tenta cair mais perto da esquerda para facilitar a missão de Inieste e Alba) pouco móvel (à excepção dos últimos 5 minutos do primeiro tempo, fase da partida na qual os centrais subiram até ao meio-campo adversário para permitir um certo adiantamento a Rakitic – só vi mobilidade em Messi e na dupla Semedo\André Gomes – ora entrando um por dentro, ora um por fora) incapaz de de circular rapidamente e de acelerar as transições para o contragolpe nos raros momentos em que a equipa madrilena perde a bola a meio-campo.

 

Os golos da jornada

Início a rodada de uploads com o golo somado pelo Alavés contra o Real Madrid para vos mostrar a simplicidade de processos da turma da casa na construção desta jogada e a atípica hesitação (patetice) de Raphael Varane no ataque a um lance aéreo.

O médio Burgui não só conseguiu na sua acção sair muito bem da pressão realizada por dois adversários, com a bola bem coladinha, em drible curtinho, ao pé direito (noutras ocasiões, pude reparar que o médio do Alavés é um jogador que não só consegue sair bem das situações de pressão como é um médio com uma técnica individual que lhe permite criar desequilíbrios em espaços muito reduzidos porque é um jogador que cola muito bem a bola ao pé e consegue mudar com rapidez a direcção do drible, dificultando a tarefa de quem o defende) como conseguiu rodar muito bem para se virar de frente para o jogo e para a oportunidade de progressão que lhe é aberta por Mounir El Haddadi na desmarcação para as costas de Sérgio Ramos. Com tempo e espaço para cruzar, o avançado colocou uma bola perfeita para a entrada em zona de finalização de Manu Garcia perante uma atitude atípica de Varane no ataque ao esférico.  Continuar a ler “Os golos da jornada”

A diferença entre os cretinos e um vintém no futebol – a existência de um certo valor chamado gratidão

O poluto e mercenário futebol moderno precisa claramente de mais exemplos como os de Antoine Griezmann – “sair do Atlético?” – “C’est un moment dur pour le club, pour les coéquipiers. Ça serait un sale coup de partir.”

O avançado mostra respeito, gratidão e fraternidade para com o clube que nele apostou quando era um simples “vistão” de chapeletas, movimentações e dribles curtinhos na Real Sociedad. O avançado mostra respeito para com o trabalho dos colegas. Respeito para com o trabalho que tem sido desenvolvido pelo treinador que o guiou à ribalta do futebol mundial. Gratidão para com os adeptos do clube. O francês pode sair (e sairá um dia, quando o período de turbulência que é vivido no clube for ultrapassado) para quem quiser, a ganhar literalmente o que quiser. Se o clube não permitisse a sua saída, poderíamos estar a assistir a uma das intermináveis novelas dos nossos tempos. Uma daquelas em que o jogador, um sanguessuga que dá pelo nome de agente e um habilidoso advogado montam um ardiloso e recambolesco guião para forçar a saída do atleta. Na sua situação, 99% dos futebolistas actuais não hesitariam em virar costas a quem lhes deu tudo a ganhar para assinar por um projecto milionário como é do Manchester United. Pisar um símbolo quando os benefícios que se tiram são inferiores aos que outros oferecem, tornou-se um fenómeno algo banal na era do futebol indústria, mas ainda exista alguém que conheça as palavras gratidão, reconhecimento, retribuição e recompensa. Esta é efectivamente uma atitude que faz toda a diferença no mundo do futebol.