A Avenida de Moscovo

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A derrota sofrida pelo Benfica em Moscovo colocou definitivamente Rui Vitória no fio da navalha. O cenário de despedimento, cenário que até à noite de ontem não passava de um mero cochicho murmurado debaixo das arcadas (nas barras de comentários de blogues; na língua viperina de um comentador mais rebelde e\ou abutre; é nesta última espécie que se insere por exemplo Rui Gomes da Silva) partilhado por um conjunto de adeptos descontentes com a prestação da equipa na presente edição da Liga dos Campeões e até no próprio campeonato, prova em que a equipa encarnada tem conquistado pontos aos solavancos (ora conseguindo vincar a sua supremacia sobre os adversários por força de acções individuais; ora ajudada por um ou outro erro de arbitragem) tornou-se uma hipótese bem real se a equipa encarnada não obtiver um bom resultado no próximo dia 1 de Dezembro na deslocação ao Estádio do Dragão. Independentemente dos feitos alcançados no passado (por mérito de quem? – é uma das perguntas que se deve colocar. Pela lavra de Rui Vitória ou pelo que foi deixado construído por Jorge Jesus?) feitos que o treinador encarnado faz questão de recordar estrategicamente na hora da derrota, para tentar justificar e salvaguardar a sua permanência no presente, passando um verdadeiro paninho quente sobre o que não fez e o que possivelmente não virá a fazer até ao final da temporada por manifesta falta de matéria-prima ou por manifesta incapacidade, quem anda pelo futebol sabe que para salvar a sua pele num momento de aperto, qualquer presidente acossado não hesita em culpabilizar o treinador pelo mau momento da equipa, despedindo-o. Continuar a ler “A Avenida de Moscovo”

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Não batemos em Mourinho pelo desporto da coisa

Mais uma vez ficaram à vista as debilidades defensivas deste Manchester United. Uma cagada em 5 actos:

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  1. Irracionalidade na distribuição de unidades no terreno, deixando o flanco direito em inferioridade numérica, sem que no meio haja qualquer jogador que possa obstruir eventuais linhas de passe para os jogadores que se encontram momentaneamente fora do centro de jogo onde se está a disputar a bola. Se o jogador que tem a posse neste momento quisesse receber, virar-se e abrir o jogo para o flanco, poderia fazê-lo sem grande problema, criando uma extraordinária plataforma de ataque em virtude da superioridade numérica existente e do distanciamento (espaço existente) entre o lateral e central.
  2. 3 jogadores no centro da bola não evitam a entrada da bola entre linhas no jogador que se solta da marcação.

basileia 2

3. Deficiente ataque à bola do jogador que está a fazer a acção de contenção, não tendo qualquer iniciativa de combate para parar a acção do portador. Deixa rodar para servir a situação de superioridade numérica que se mantém no flanco.

4. Assinalado a azul. Como podemos ver, no ângulo inferior direito, aquele que viria a ser o autor do golo, Michael Lang, movimenta-se no sentido de oferecer apoio ao portador dado o posicionamento interior de Daley Blind, posicionamento que lhe abre totalmente o flanco. O jogador que deve acompanhar a sua subida, Anthony Martial marimba-se completamente para a situação, não acompanhando a subida. Já no jogo do fim-de-semana contra o Newcastle, Martial descurou por completo o acompanhamento às subidas do lateral DeAndre Yedlin.

Dá-se a abertura para o flanco e a natural acção de sobreposição resultante da situação de superioridade existente. Sai o cruzamento para a área.

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5. Marcos Rojo perde a frente do lance para Dimitri Oberlin.

Já dizia o ditado

“À primeira todos caem, à segunda cai quem quer, à terceira só cai” – por sorte, não houve direito a terceira, mas se tivesse havido, quem sabe não é?

O pré-Gelson e o pré-Bruno, o pós-Gelson e o pós-Bruno.

bruno fernandes 4

Houve um jogo antes da entrada de Gelson (um futebol completamente amorfo, acabrunhado, sem ligação entre sectores) e um jogo ligeiramente diferente após a entrada na partida de Gelson, pesem no entanto as dificuldades sentidas até à entrada de Bruno Fernandes aos 59″, pela dupla de centrais e de médios (Battaglia e Petrovic no capítulo da saída de jogo e da primeira fase de construção, dificuldades essas que naturalmente foram agudizadas pela disposição compacta e pela agressividade demonstrada no capítulo da pressão (montada à entrada do meio-campo) pelos jogadores da formação minhota (há que dar mérito à organização defensiva exemplar demonstrada pelos comandados de Dito), pela inserção forçada de Bruno César nos flancos face à ausência de Acuña (esperemos que Ruiz venha com vontade para colmatar essa lacuna de plantel), pela falta de velocidade, de mobilidade de algumas unidades (não se desmarcando convenientemente para abrir linhas de passe), de paciência na circulação e até de inteligência por parte de Petrovic, dificuldades que por outro lado foram amenizadas com as constantes (e habituais) entradas do extremo em zonas interiores para vir buscar jogo atrás, de forma a auxiliar a ligação do jogo entre sectores, em especial a ligação e a parceria com Daniel Podence.

Jorge Jesus continua na sua onda experimental, naquela onda experimental que só traz desgraças aos clubes que vai orientando. Casar no meio-campo um médio de cariz mais defensivo (Petrovic) que sente efectivamente muitas dificuldades para discernir o que é que deve fazer com a bola em cada lance concreto (se deve passar, se deve arriscar um passe para um jogador entre linhas, se deve procurar os laterais, se deve progredir com a bola para o espaço livre que lhe é oferecido pelo adversário para atrair jogadores para libertar outros espaços para jogar nos corredores; chegou a existir ali um período em que os jogadores famalicenses ignoraram-no por completo, deixando de pressionar o sérvio, quando Dito apercebeu-se  da natureza inofensiva de Petrovic ou seja, da sua evidente incapacidade em gerar progressão à equipa através do transporte de bola) com outro, Rodrigo Battaglia, que, embora tendo registado melhorias neste aspecto desde que entrou pela Porta 10A, continua a ter muitas dificuldades no capítulo do passe e na partida de hoje decidiu, para cúmulo das dificuldades criadas pelo adversário, assumir menos o esférico no momento de construção para realizar movimentações completamente distintos que lhe são habituais (procurando entrar muitas vezes entre linhas ou até mesmo nas costas da defesa contrária), foi uma decisão de génio. Na minha opinião, Bruno Fernandes deveria ter entrado de início para resolver este jogo cedo, fazendo-o descansar quando o jogo (e o próprio adversário) estivesse totalmente dominado.

Nos primeiros 20 minutos assistimos a um Sporting com muitas dificuldades para construir. Frente a uma equipa que se organizou num bloco compacto bastante bem organizado, e bastante producente, com uma 1ª linha de pressão efectiva à entrada do meio-campo e um sistema de coberturas muito bem montado no qual todos os jogadores demonstraram o mínimo de intensidade e agressividade nas disputas, era preciso abordar esta partida de outra forma completamente diferente. O que vimos foi uma mão cheia de jogadores verdadeiramente impacientes na saída de jogo, de processos lentos, tentando despachar o jogo rapidamente para as costas da linha média famalicense, ao invés de tentar circular pacientemente e em velocidade entre flancos e\ou de ter um jogador capaz de romper coma bola pelo centro para obrigar a estrutura defensiva famalicense a dançar, ou seja, a ter que deslocar mais unidades para o miolo quando um jogador entrasse com o esférico em condução pelo meio (atraindo jogadores para abrir naturalmente espaços para jogar nas alas; o que até poderia resultar numa 2ª fase na entrada da bola no jogo interior em Podence ou em Dost) ou a ser atraída para um flanco para rapidamente se executar uma variação para o outro de forma a criar espaço para os jogadores da ala esquerda progredir.

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A gestão da vantagem – exemplo oferecido na noite de ontem pelos virtuosos médios croatas

Na ressaca do fantástico desempenho alcançado pelos seus comandados no jogo da 1ª mão, o seleccionador Zlatko Dalic preparou muito bem o plano de jogo para a 2ª mão. O futebol praticado pelos croatas em Atenas andou muito longe do ofensivo, desenrolado, e estético jogo exibido no jogo da 1ª mão em Zagreb, mas a verdade é que a vantagem de 3 golos alcançada no Estádio Maksimir obrigava os jogadores da selecção balcânica a ter que exibir outra atitude e outra abordagem no Estádio Karaiskákis, de forma a evitar uma ou outra surpresa que o adversário ainda pudesse vir tentar realizar.  Continuar a ler “A gestão da vantagem – exemplo oferecido na noite de ontem pelos virtuosos médios croatas”

4 breves notas reflexivas sobre o amigável realizado em Viseu frente à Arábia Saudita

  1. São várias as razões que me levam a não atribuir grande significado ou grande importância aos amigáveis que são realizados entre selecções. A mais importante de todas reside obviamente na natureza destes jogos. Não existindo nestes desafios, o condicionamento próprio do contexto competitivo, ou seja, o estímulo que obriga os atletas a ter que oferecer ao jogo a melhor reacção e a maior entrega possível  para vencer determinado adversário e para tirar vantagens dessa mesma vitória, grande parte dos jogos amigáveis acabam por ser aborrecidos, pese embora o facto de conseguir reconhecer que em determinados casos, possam existir amigáveis (partidas, competições) que possuem um “modelo ficcionado” aproximado à competição e que em  algumas destas partidas, os jogadores com menor probabilidade de virem a figurar na convocatória do seu seleccionador para um compromisso de de índole competitiva tentem, também por vários motivos, fazer render o seu peixe. Uma convocatória para um jogo amigável é a oportunidade ideal para determinado jogador se inserir nas rotinas de um grupo de trabalho, nas dinâmicas de determinado modelo de jogo idealizado e no lote de escolhas à disposição de um seleccionador para os jogos oficiais. Por outro lado, a internacionalização pela sua selecção é para qualquer jogador algo que lhe valoriza a carreira, um verdadeiro selo de qualidade que o torna mais apelativo (e uma escolha de menor risco) aos olhos dos dirigentes que o cobiçam. No Rugby por exemplo, o universalmente denominado e codificado (na linguagem da modalidade)  “test match” é um jogo com um carisma bem diferente do amigável realizado no futebol. Ao contrário do futebol, poucos são os intervenientes (treinadores, jogadores) que não atribuem ao test match uma importância bem próxima de um jogo oficial. Em primeiro lugar, tal deve-se à cultura sui géneris da própria modalidade. Se perguntarem a um adepto francês se ele gosta de perder um test contra a selecção inglesa, o dito certamente responderá que não gosta de perder nem a feijões contra os beefs. Se perguntarem a um jogador neozelandês se gosta de perder uma Bledisloe contra os australianos, a resposta será em tudo idêntica. Se perguntarem a um seleccionador se viu coisas positivas nos 4 tests, ele responderá certamente que a sua equipa ainda terá muito trabalho pela frente para se apresentar em boas condições nas grandes competições internacionais porque não cumpriu nenhum dos objectivos a que se propôs. Se perguntarem a um jogador se as vitórias tem peso diferente, qualquer jogador de rugby dirá que uma vitória é sempre uma vitória, indiferentemente dos contextos em que é obtida. Uma vitória no Rugby é um passo para a Glória. Tudo no fundo se resume a isso: à cultura da modalidade (uma cultura de honra, de vitória, de espírito de batalha, de compromisso, de integridade, de respeito, de serviço, de sacrifício) e à criação de sinergias dentro de um grupo de trabalho, sinergias que serão obviamente, a todos os níveis, muito válidas para o futuro. No Rugby, a World Rugby abre anualmente duas janelas para testes: uma em Junho (a Janela que simboliza o encerramento da temporada europeia), janela na qual por norma, as equipas europeias partem em digressão até ao Hemisfério Sul, e outra, em Novembro, que simboliza o final de temporada do Hemisfério Sul, janela (que se iniciou hoje) na qual as selecções do Hemisfério Sul partem em digressão para a Europa. Em ambas, os seleccionadores nacionais optam por levar consigo uma data de jogadores que em condições normais não tem lugar nas suas escolhas, misturados entre escolhas habituais ou os chamados intocáveis para os testar. Tal opção não se deve apenas para os testar num contexto desportivo aproximado ao da competição mas também para testar as suas aptidões sociais. E isto acontece porque, os estágios de preparação para as digressões e as ditas podem durar 2\3 meses, ou seja, uma duração aproximada aos estágios de preparação para o Mundial. São portanto 2 meses nos quais o atleta vai estar longe de casa, factor que pode efectivamente diminui-lo anímicamente, afectando-lhe o rendimento. Nenhum seleccionador irá decerto querer levar ao Mundial um jogador que não é capaz de extrair o seu melhor desempenho porque está mentalmente afectado por uma situação exterior ao contexto competitivo. No futebol raramente vemos esta cultura nos amigáveis. As janelas internacionais duram, no máximo, 7 ou 8 dias. Grande parte dos jogadores entra de forma receosa nas partidas, ou seja, com medo de se lesionar para não prejudicar a sua carreira no clube. Pela vontade de tantos outros, atletas que passam semanas fora de casa, que não passam o tempo que deveriam passar com esposas e filhos, nem punham os pés neste tipo de jogos.
  2. Como referi no ponto anterior, poucos são os amigáveis que me despertem interesse ou que me levem a atribuir-lhe grande interesse. Se um amigável realizado entre selecções de topo como o Inglaterra vs Alemanha não foi sedutor o suficiente para lhe gabar uma única imagem, compreenderão o diminuto interesse que possuo neste tipo de jogos, interesse que é antagónico por exemplo em relação aos amigáveis de clubes, por motivos completamente distintos. Vejo, ou tento ver, todos os amigáveis realizados pela selecção portuguesa. E vejo-os por um ou dois simples leitmotifs para compreender as sinergias que se criam, para compreender a valência dos jogadores novos num determinado modelo de jogo em andamento e para poder entender as escolhas que um seleccionador realiza no futuro.
  3. O jogo de ontem, disputado no Fontelo (Viseu), foi organizado com o intuito de poder aspirar a constituir-se, em simultâneo, como um pluridimensional momento de solidariedade e reconciliação nacional. Se por um lado, os mais recentes episódios da vida nacional, levaram a FPF a equacionar os dois jogos amigáveis marcados para o presente mês para as capitais de duas das várias regiões afectadas pelos incêndios deste verão\início de outono para prestar uma homenagem sentida às vítimas das duas tragédias e para, proceder a uma angariação de fundos passível de financiar a reconstrução de casas e fomentar o trabalho dos bombeiros das ditas regiões, cumprindo em teoria o papel de responsabilidade social que também assiste à dita Instituição, por outro lado, a Federação também aproveitou este momento para usar a selecção nacional como uma ferramenta de coesão social, levando-a até ao esquecido “farócentronordeste” – um pedaço de terra de montes e vales que é tantas vezes esquecido e até votado ao ostracismo pelos nossos governantes. No caso de Viseu, a cidade não recebe com maior regularidade da selecção nacional A porque não tem uma infraestrutura adequada para o efeito. O Estádio do Fontelo está decadente e se assim o está deve em parte à visão acertada de um dos seus anteriores presidentes de Câmara. Em boa hora, Fernando Ruas não optou pelo endividamento da Câmara em prol de um evento efémero que poucas contrapartidas traria ao tecido económico da região a curto e médio prazo e até mesmo nenhum a longo prazo. Nem os clubes de Viseu possuem “massas associativas” que justifiquem tais obras, nem na altura possuíam até hipóteses para colocar um clube na 1ª divisão, visto que essa altura (2000, 2001) coincidiu precisamente com o início do processo de bancarrota, falência e extinção do antigo Clube Académico de Futebol, o actual Académico de Viseu Futebol Clube, formação que como se sabe investiu fortemente para subir na presente temporada à 1ª Liga, feito que obrigará certamente a CMV a ter que investir seriamente na remodelação do Estádio do Fontelo nos próximos meses. A transmissão de ontem (dos pormenores do Estádio) não passou essa ideia aos telespectadores porque não filmou os vidros partidos na fachada, não filmou a lastimável qualidade do seu relvado e mascarou uma bancada inútil (não tem cadeiras; penso até que não tem a sua segurança devidamente aprovada nas entidades competentes) através da filmagem sobre a bancada amovível que foi colocada pela FPF num dos topos do estádio. A câmara de Viseu deverá ser certamente uma das câmaras municipais que mais fundos atribui ao desporto do país. Posso até afiançar que a algumas colectividades do concelho, a CMV dá dinheiro a mais, financiando a rodos a ambição desmedida de alguns dirigentes que se servem das Instituições para aspirar a algo mais para as suas vidas. Falo-vos portanto daquela modalidade tão típica do ser lusitano: o alpinismo social. A ginástica de trampolim que é oferecida por algumas colectividades aos seus dirigentes. Ou os dirigentes que fazem das colectividades que dirigem um mero trampolim. A ideia da FPF foi boa, mas não foi suficientemente sedutora para que eu marcasse presença no estádio. E não, ao contrário de milhares de viseenses que trataram de vender por 5 paus o seu bilhete assim que souberam da não convocação do Ronaldo, descurando todo o cariz social do evento, eu não fui porque não acredito verdadeiramente nestas acções de solidariedade da treta. Até que uma casa de uma família afectada seja efectivamente recuperada com o dinheiro angariado no jogo ou nas chamadas de valor acrescentado, ou que um filho de uma vítima possa ser vestido da cabeça aos pés com recurso aos fundos angariados, eu só não acredito nos objectivos deste tipo de acções como até prefiro ir entregar directamente o meu dinheiro às vítimas ou aos destinatários. Pelo menos sei que ao entregar directamente, o meu donativo não irá ser taxado com o respectivo IVA, nem será extraviado pelo caminho. Os viseenses não pensam assim. Maior parte dos que se encontraram no estádio, queriam ver a todo o custo Cristiano Ronaldo.
  4. Do jogo propriamente dito, creio que foi uma boa oportunidade para Fernando Santos testar a inversão nítida ao modelo de jogo que está paulatinamente a trabalhar com os jogadores desde a última janela internacional, ou melhor, desde os dias que antecederam o jogo realizado contra a Suíça, e para testar os estreantes ou os jogadores que fez regressar à sua convocatória. Da operacionalização das nuances em relação ao modelo de jogo padronizado desta selecção, ao modelo clássico de jogo exterior e de abordagem à área única e exclusivamente a partir de cruzamentos, pareceu-me que está a sair algo de mais positivo, de mais estético mas ainda com eficácia diminuta. Do jogo contra os sauditas selecção que em nada testou a Portuguesa no capítulo da transição defensiva e da organização defensiva, gostei particularmente de alguns processos de jogo que privilegiaram a entrada da bola em zonas interiores entre linhas e das dinâmicas apresentadas pelos 3 jogadores que jogaram atrás de André Silva (Bernardo Silva, Gonçalo Guedes e João Mário; constante mobilidade entre linhas, procurando oferecer a Danilo e a Manuel Fernandes linhas de passe no interior do bloco adversário, sem descurar por completo o jogo exterior; trocas posicionais constantes para confundir a defesa adversária; em diversas os 3 chegaram a estar inseridos em zonas interiores do terreno em simultâneo, aparecendo soltos de marcação para se enquadrar com a baliza no momento da recepção; boas combinações; boa capacidade de aceleração de jogo, em especial, de Gonçalo Guedes, jogador que também traz uma lufada de ar fresco a esta selecção no capítulo dos remates de meia distância; maior harmonia entre o jogo de interior e o jogo de exterior), gostei da capacidade de organização de Danilo (arriscando mais no passe longo; procurando ser um médio que acrescenta metros à equipa a partir do passe), da sua leitura de jogo quer no capítulo da organização ofensiva (procurando preferencialmente servir a entrada de companheiros em espaços vazios) como no capítulo da transição defensiva, fase no qual o médio é extraordinariamente efectivo porque ataca bem as segundas bolas, e lê bem as intenções adversárias para ser rápido a cair sobre um dos destinatários do esférico de maneira a matar a sua transição. Não desgostei de Kevin Rodrigues, apesar de ter visto recentemente alguns jogos nos quais o lateral esquerdo me desagradou por timidez (ou seja, por não subir tanto no terreno, por ser um lateral de pouca propensão defensiva), e não gostei absolutamente do excessivo individualismo de Gelson na segunda parte. Aquela vontade de fazer tudo sozinho redundou numa exibição em que o jogador do Sporting nada fez para além de complicar o jogo da equipa e de dar razão a todos aqueles que o caracterizam como um jogador que define mal as suas acções. E a verdade é que sou obrigado a dar razão aos seus argumentos.

A táctica dos 50 mil cruzamentos: sempre a pensar naquele auto-golo milagroso

Tantas vezes vai o cântaro à fonte que há de quebrar de qualquer forma. Frente a uma selecção algo expectante (com uma razoável organização defensiva, pese embora os espaços que está a permitir para a selecção portuguesa circular a bola no seu meio-campo; pressionante q.b nos momentos de transição e quando a bola entra nos corredorers; nunca concedendo superioridade numérica nas faixas, obrigando à construção de momentos de superioridade portuguesa com recurso aos deslocamentos de Ronaldo até aos flancos ou de André Silva, movimentos que começaram a surgir a partir da meia-hora; segura na transição; capaz de adormecer o jogo nos momentos de maior excitação ofensiva da selecção portuguesa) não denoto qualquer novidade nos processos de jogo ofensivos desta selecção.

William e Moutinho têm estado fantásticos na transição, retirando a bola das zonas de maior pressão suíça no miolo e lançando bem o ataque, com recurso ao passe preferencial para a ala direita (na ala esquerda, João Mário tem efectivamente tido mais oportunidades para acelerar nas acções de contragolpe, estando um pouco lesto a soltar a bola quando os adversários saem no seu encalce para matar a transição; Eliseu nem sempre sobe para apoiar as suas investidas), ala onde Bernardo tem recebido bem e contemporizado à espera da subida de Cedric quer pelo interior quer pelo exterior. Neste flanco, a presença constante de Ronaldo permite a criação de combinações que quase sempre redundam em oportunidades de cruzamento quer para Cédric quer para João Moutinho, jogador que também tem aparecido muito bem pela interior direita a apoiar as investidas dos flancos. No entanto, é no capítulo da definição e do último passe onde a selecção portuguesa tem vindo a falhar. Com pouca presença na área (André Silva começou o jogo sozinho frente aos dois laterais suíços; a partir da meia-hora, João Mário tem aparecido mais vezes em zona de finalização para dar mais uma opção a quem cruza) os cruzamentos tem saído bastante largos. Entalado entre os centrais adversários, André Silva não tem tido muitas oportunidades para atacar a bola e a verdade é que o avançado do AC Milan também não tem facilitado a vida de quem cruza. Bastará portanto uma movimentação para um determinado sentido (1º poste\2º poste) para pedir um cruzamento para um determinado espaço.