Dois puros momentos de rock and roll!

Continuo ainda debruçado em alguns dos pormenores da vitória alcançada pelo City na noite de ontem frente ao Southampton. Como fiz questão de referir no post anterior, os lances de bola parada, em especial os pontapés de canto (na defesa aos livres laterais que o Southampton dispôs a mais de 30 metros da baliza, livres em que a equipa aproveita naturalmente para tentar criar situações de finalização para os seus 3 centrais, todos eles bons cabeceadores, Pep voltou a pedir à equipa para se posicionar em linha, subida, no exterior da área; executando uma estratégia cujos objectivos eram, em primeiro lugar, como não poderia deixar de ser, impedir situações de finalização e promover a recuperação da posse\iniciativa de jogo, e em segundo lugar, caso não fosse possível impedir a finalização adversária, dificultá-la ao máximo ou seja, assegurar que o adversário nunca dispusesse de situações de finalização demasiado próximas da baliza e flagrantes. Como Ederson é um guarda-redes que sabe medir muito tempo o tempo de saída a um cruzamento, o catalão confia ao brasileiro a rectaguarda da sua defesa caso o jogador que vai cobrar a falta tente bombear a bola para além do ponto até onde a defesa poderá previsivelmente descer) foram uns dos vários problemas colocados para formação orientada por Maurizio Pellegrino. Posso até afirmar, com conhecimento de causa que esta fase do jogo tem sido o verdadeiro tendão de aquiles da equipa de Manchester na presente temporada.

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Cheguei a Leicester de paraquedas. O que é que vou fazer a este grupo de trabalho?

claude puel

A assumpção de uma equipa a meio da temporada é, na minha opinião, por várias razões, o maior desafio a que um treinador se pode sujeitar em toda a sua carreira. A assumpção do comando técnico de um grupo de trabalho que não foi idealizado ou escolhido por si, condicionante que o obriga a ter que trabalhar forçosamente com matéria prima disponível no imediato (até à reabertura da janela de transferências ou na pior das hipóteses até ao momento em que a sua direcção tenha condicões financeiras para satisfazer as suas necessidades), que se encontre total ou parcialmente desmoralizado por força dos resultados negativos obtidos (pela pressão que esses resultados acarretam; pela necessidade de somar pontos rapidamente para inverter um ciclo negativo) ou pela existência de uma ou outra insatisfação motivada pelo mais amplo leque de choque de interesses (a vontade que determinados jogadores têm de se transferir para clubes que demonstrem outro tipo de ambições ou que possam satisfazer as suas exigências contratuais; as pressões que são realizadas pelos empresários junto dos jogadores e da direcção do clube para forçar uma transferência; jogadores insatisfeitos com os valores do seu contrato; a descrença que se vai acumulando nos jogadores que não são utilizados com regularidade ou que sentem que o seu rendimento não está a ser devidamente aproveitado ou potenciado; jogadores que estão a sentir dificuldades para se ambientar à realidade cultural de um país ou de uma cidade), que já se encontra em andamento ao nível de uma competição, da assimilação de determinado modelo de jogo, dos seus processos e das suas dinâmicas colectivas e individuais. Continuar a ler “Cheguei a Leicester de paraquedas. O que é que vou fazer a este grupo de trabalho?”

Os golos da jornada (1ª parte)

Face à muralha de jogadores que o adversário colocou na área, Wijnaldum foi obrigado a sacar dos galões para encontrar espaço para disparar aquela bomba. No entanto, no início da jogada, com aquele pequenino toque de excelência técnica, o holandês teve o mérito de desmontar por completo a linha média adversária, abrindo espaço para a saída para o contra-ataque.

Depois de um arranque algo irregular na Premier, arranque no qual, pesem os interessantes e bem trabalhados pormenores demonstrados pela equipa no capítulo da organização da pressão (“a menina dos olhos de Jurgen Klopp”) e da transição para o contra-ataque (pormenores que permitiam à equipa passar rapidamente de uma mentalidade defensiva para uma mentalidade ofensiva, procurando servir, com pragmatismo em profundidade, em cada recuperação, as velozes investidas dos seus homens da frente, em especial as de Sadio Mane e Mohammed Salah) acabou por sobressair (pela negativa) a fragilidade defensiva do quarteto defensivo orientado pelo técnico alemão, o Liverpool vai começando a “despertar” para uma fase de maior regularidade quer em termos de resultados, quer em termos exibicionais, embora os 12 pontos de diferença para o City e a mais que evidente diferença de qualidade entre os planteis e o futebol das duas equipas, não permitam aos reds dizer que estão em condições de atacar o quer que seja pelo menos na presente temporada. Para reforçar esta ideia, sirvo-me da miserável exibição realizada por Dejan Lovren frente ao Tottenham, exibição no qual o croata e o seu colega de sector, o camaronês Joel Matip demonstraram possuir muitas dificuldades no controlo à profundidade adversária.  Continuar a ler “Os golos da jornada (1ª parte)”

Liverpool: uma defesa às aranhas

A fraca qualidade individual dos centrais, o péssimo trabalho de coordenação defensiva (trabalho que não tem garantido a devida segurança e estabilidade à equipa; falhas no controlo à profundidade adversária), a lentidão de alguns jogadores na recuperação, as perdas de bola na saída de jogo ou na fase de construção (fase na qual os laterais do Liverpool se projectam no terreno; havendo portanto muito espaço, que não é devidamente compensado nas suas costas se a equipa adversária recuperar a posse) e os jogos em que a linha média do Liverpool não compensa o seu adiantamento no terreno com uma boa reacção à perda (sendo facilmente suplantável) são factores que estão a arruinar por completo as aspirações de Jurgen Klopp.

tottenham

No lance do primeiro golo, a formação de Liverpool tenta reduzir os espaços num curto sector de terreno para recuperar ou obrigar o adversário ao erro. O seu quarteto defensivo está algo desalinhado mas não é quanto a mim por aí que vem algum mal ao mundo. A presença de Harry Kane (em linha) nas costas de Lovren até é aceitável se no momento em que o passe sai para Trippier, um dos centrais desse ordem de subida imediata para criar a armadilha do fora-de-jogo.

matip

Matip não só não cria a armadilha do fora-de-jogo como não é rápido a recuperar perante a sua inexistência, ficando parado a pedir fora-de-jogo enquanto Kane acelera. Se o central internacional pelos Camarões tivesse sido rápido a recuperar, poderia ter chegado primeiro ao esférico para controlar a situação e afastar o perigo. Lovren é comido de cebolada pelo arranque do internacional inglês.

son 3

No lance do 2º golo, a equipa de Anfield é apanhada completamente descompensada no momento da transição adversária. A linha média é batida. Son come o adversário em velocidade para ganhar a frente ao lance. Kane só precisa de esperar pela acção do colega para o isolar.

 

 

O futebol de altíssimo quilate praticado pelo Manchester City frente ao Burnley

Para preencher as horas mortas dos aficionados que visitam diariamente este blog, (o meu obrigado!) deixo-vos aqui alguns momentos do meu “atípico” sábado (confesso que neste sábado só vi “partida e meia”; felizmente, pude ver, na íntegra, os 90 minutos da partida disputada entre o Manchester City e o Burnley e a primeira parte do FC Porto frente ao Paços de Ferreira) pouco desportivo:

Jogada 1

No meu humilde entendimento esta foi a jogada que melhor resume a filosofia de jogo  operacionalizada por Pep Guardiola nos Citizens. Em 22 segundos, 4 passes e 16 toques na bola (contando com os 9 toques dados por Bernardo Silva naquela admirável arrancada na qual o internacional português meteu a linha média do Burnley no bolso) os citizens fizeram chegar a bola da entrada da sua área à área adversária? Futebol minimalista? Não. Este futebol muito que se lhe diga ao nível de dinâmicas:  Continuar a ler “O futebol de altíssimo quilate praticado pelo Manchester City frente ao Burnley”

A suprema inteligência de Heung-Min Son e Christian Eriksen

Só os grandes médios, aqueles que fazem efectivamente a diferença num jogo de futebol, são capazes de ter um grau de compreensão tão elevado sobre o que fazer num lance em específico. No lance do primeiro golo do Tottenham frente ao Bornemouth, equipa cuja organização defensiva apresentada em Wembley em bloco baixo 5x3x2 (boa cobertura e rigor posicional, ou seja, a equipa nunca se desmanchou, nunca cedeu à tentação de pressionar alto; a verdade é que a circulação paciente executada pelos centrais do Tottenham à entrada do meio-campo adversário convidava os forasteiros a pressionar mais alto para abrir espaços para jogar entre linhas; linhas muito próximas para fechar o jogo entre linhas; 3 homens no corredor central com a missão de fechar as linhas de passe para o surgimento de Eriksen, Dele Alli, Kane ou Min entre linhas; pressão dos alas quando o esférico era circulado para as pontas; tentativa de ter sempre superioridade na zona para onde o esférico era circulado) dificultou e de que maneira a entrada dos spurs no último terço.

son 2

Aos 47″, aproveitando um momento de relaxamento da formação adversária após o regresso das cabines, Son entrou bem entre linhas pela interior directa para receber o passe frontal de Davinson Sanchez.

son

Com um “giro” na recepção, o coreano atraiu dois defensores (obrigando um dos centrais a sair da cabeça de área para pressionar), arranjando o espaço (assinalado a azul) para Eriksen penetrar no último terço pelo corredor central. A simbiose entre os dois jogadores é perfeita. O coreano cria o espaço. O dinamarquês apercebe-se que tem que entrar nesse espaço para receber.

O dinamarquês é feliz no ressalto, finalizando a jogada com o garbo técnico que lhe é amplamente reconhecido.

Courtois!

Influente a segurar o empate que é para já garantido pelo Chelsea na recepção ao controlador City.

A formação de Guardiola está a ter naturalmente o controlo total da partida (quer em termos de posse; 66%; 315 passes com uma eficácia na casa dos 90%; quer também em termos de domínio territorial) mas esta a terá algumas dificuldades para chegar à baliza dos Blues. A construção está a ser óptima mas têm faltado 30 metros ao jogo do City. Partida nos designados “2 blocos de Guardiola” (os dois laterais Delph e Kyle Walker tem-se limitado a entrar no miolo no momento de construção; a estratégia dos laterais invertidos aqui explicada há bem pouco tempo) com Sané e DeBruyne bem abertos nas alas (para obrigar a equipa londrina a estender-se mais no terreno; a partir do minuto 35 o belga procurou outros espaços, inserindo-se mais entre as linhas adversárias no corredor central) e Sterling a adoptar uma posição interior mais próxima de Gary Cahill para facilitar acções 1×2 que possibilitassem a DeBruyne a conquista da linha de fundo e a possibilidade de tirar cruzamentos para a área sem oposição. O “vagabundo” David Silva tanto tenta activar o flanco direito como tem vindo à esquerda realizar as mesmas combinações com Leroy Sané. O espanhol teve nos pés uma das maiores situações de perigo quando numa dessas combinações, através de uma entrada para área pelo interior do corredor esquerdo, obrigou, com um remate cruzado (efectuado sob pressão de Fabrègas; os londrinos tem conseguido concentrar muita gente na área sempre que os citizens entram no seu último terço com bola) Courtois a uma defesa apertada. Continuar a ler “Courtois!”