Algumas notas relativas à vitória do Real no Superclássico

Dizer que o Barcelona fez um mau jogo no Santiago Bernabeu é uma afirmação algo redutora para tudo aquilo que os catalães fizeram no plano ofensivo durante os 90 minutos. Claro que na 2ª parte, o maior domínio dos catalães ao nível de posse de bola foi consentido por um Real que já estava claramente a aproveitar o momento para descansar em campo e de certo modo, formatar o chip para o arranque da Liga Espanhola no próximo fim-de-semana. No entanto, os catalães desperdiçaram golos atrás de golos (em alguns lances faltou uma pequenina pontinha de sorte), mostrando, ao longo dos 180 minutos, um irracional e anormal comportamento na área adversária, quer ao nível das decisões de último passe tomadas, quer mesmo ao nível da finalização propriamente dita. Noutro prisma, este Barcelona de Ernesto Valverde tem um comportamento defensivo a anos-luz do comportamento que foi exibido com outros treinadores. Falta de pernas? Muita. Parte do mau comportamento defensivo exibido pelos catalães nas duas derrotas frente ao Real pode explicar-se pela óptica do estado miserável de condição física em que se encontram grande parte dos seus jogadores. Se retirarmos o argentino e o uruguaio da equação (ambos foram de longe aqueles que mais pernas tiveram ao longo dos 180 minutos) existiram jogadores que terminaram a “eliminatória” literalmente de gatas.

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Napoli de Maurizio Sarri: a todas as valências anteriormente identificadas, junta-se agora a exploração regular da profundidade

O Napoli de Maurizio Sarri é neste momento a equipa mais bem construída do futebol europeu e aquela que domina melhor os 4 fases de um jogo de futebol: organização defensiva, transição defensiva, transição para o ataque e fase de organização ofensiva. Em todas as fases, o treinador italiano mecanizou (como muito trabalho ao nível de circulação de bola) num sistema táctico 4x3x3 (com um pivot e dois médios interiores) um estilo de jogo atractivo de posse e pressão alta (bem orientada, bem coordenada, sem grandes falhas quer na cobertura posicional, quer no gatilho das dobras aos jogadores que posam ser ultrapassados no decurso da execução das acções de pressão alta), no qual a construção começa quase sempre na defesa  (nos centrais; especialmente nos pés de Kalidou Koulibaly, central que sabe colocar muito bem o passe vertical entre linhas, mesmo quando se encontra sob pressão dos seus marcadores directos) e os médios, movendo-se entre as duas primeiras linhas do adversário (ou seja, dentro do bloco adversário) saem normalmente das costas dos médios contrários para receber no espaço que fica vazio assim que homens mais avançados da equipa adversária saem para pressionar os centrais napolitanos. Na fase de criação, os médios (Jorginho, Allan, Hamsik) procuram romper a segunda linha de pressão (a linha média) com recurso aos apoios frontais que são dados pelos avançados (Mertens ou Milik) para tabelar ou triangular. A formação napolitana não é portanto uma equipa que explore muitas vezes o jogo exterior, apesar dos laterais estarem devidamente projectados no segundo terço do campo. Os extremos (Insigne e Callejón) não são os clássicos extremos de jogo exterior, ou seja, de procurar o 1×1 no exterior ou fintar de forma a ganharem a linha para cruzar. Insigne é um extremo que tende a procurar inflectir com bola para o interior para aplicar o seu apurado remate enquanto Callejón é um extremo que procura essencialmente aparecer na área em zona de finalização, como se de um segundo avançado se tratasse. A equipa até coloca poucos cruzamentos por jogo apesar de ter dois extremos que aparecem muito bem em zona de finalização nas costas dos defesas adversários.

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Jorge Jesus ensandeceu de vez

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Não sei se neste atestado de estupidez passado a todos os sócios e simpatizantes do Sporting, o técnico se referiu à actual equipa do Steaua ou às mega competitivas equipas que os romenos apresentavam nas provas europeias há 30 anos. Se eventualmente se referiu a ambas nas declarações que proferiu na sala de imprensa do Estádio José de Alvalade, não posso dar-lhe razão por diferentes motivos. O Steaua de Emerich Jenei, campeão europeu em 1986 e de Anghel Iordanescu (bicampeão romeno) era uma equipa mágica que fazia da agressividade, e da elegância de algumas unidades (como Hagi, Petrescu, Boloni, Belodedic, Lacatus, Barbulescu, Stoica, Balint ou Piturca) os seus pontos fortes. O Sporting de 1985\1986 estava vários furos abaixo dessa consagrada formação do futebol romeno. Se Jesus eventualmente apenas se referiu à equipa que ontem pisou o relvado do Estádio José de Alvalade, sou obrigado a concluir que a sua avaliação do potencial do adversário está tão errada quanto anacrónico está o futebol praticado pela equipa que comanda. Esta equipa romena é uma equipa que luta com todas as (limitadas) armas que possui. É uma equipa cheia de limitações (nas várias dimensões do jogo) mas tem vontade e quer realizar feitos. A equipa do Sporting é uma equipa cheia de potencialidades em sub rendimento. Pior que não ter cão para ir à caça é ter um cão manco, que nos dá a aparente sensação que podíamos andar pelo “ground” a apanhar coelhos, quando no fundo nem de casa consegue sair.  Continuar a ler “Jorge Jesus ensandeceu de vez”

Devia pedir desculpa 1000 vezes

Não admira que Fábio Cardoso (o tal que um dia foi contar aos amiguinhos da casa do benfica lá da terra que o Islam Slimani “não fez farinha” com ele em Paços “porque passou os 90 minutos a insultá-lo de terrorista e porco magrebino”) tenha andado lá pelo meio, a pedir, em bom português (de Águeda) “tem calma” ao rapaz que minutos antes teve o dislate de lhe dar banhinho de imersão com direito a duche escocês e a shampoo Ten Voss.

P.S: Ver o Bruno Alves lá no meio a fazer papel de pacificador causou-me alguma estranheza, para não dizer impressão. Bruno Alves é um homem mudado. Ou então, o planeta terra não é redondo nem tem a forma de uma esfera, é um paralelepípedo. O central não deve andar a comer neeps and tatties em Glasgow. Os níveis de raiva no sangue devem estar em mínimos históricos. Há 10 anos atrás, numa situação destas, Bruno Alves resolvia o assunto (sem o árbitro ver; mesmo que visse, paciência!!) com uma boa joelhada nas costas do adversário, um torcer de braços, 2 dedos no olho do colega do lado e uma cabeçada na fuças para acabar com as fitas. 

P.S2: Já agora, o autor do golo foi o avançado Simon Murray. À primeira vista, o gajo até parece ter um pé esquerdo abençoado. Quando vamos ver o currículo é que é pior!

O dia mais importante da vida de uma modesta vila de 3700 habitantes – 1ª parte

hoffenheim

Com o passar dos anos, o futebol tornou-se uma notável força social no colorido espectro da região de Heidelberg. A 20 km da cidade que alberga a mais antiga Universidade Alemã (fundação datada de 1836) e que albergou temporariamente Martinho Lutero na sua cruzada contra o Comércio de Indulgências que era praticado por e pelos antecessores do Papa Leão X, nasceu uma das histórias mais lindas do futebol: o TSG 1899 Hoffenheim.

Fundado em 1945 após o fim da 2ª Guerra Mundial, o clube que juntou num só os dois clubes até então existentes no povoado de 2600 habitantes, o “ginástico” Turnverein Hoffenheim (1899) e Fußballverein Hoffenheim (1921) teve uma história obscura em cerca de meio século de existência. Até ao ano 2000, ou seja até à entrada de Dietmar Hopp (o multimilionário patrão da SAP, AG; fortuna avaliada em 3,3 milhões de dólares) o modesto TSG, clube que disputava o 5º escalão da nomenclatura de competições do futebol alemão, era uma simples agremiação de bairro, onde meia dúzia de jovens e adultos da terra perdida no meio de “nenhures” da região de Baden se juntavam para dar uns toques na bola e apanhar cáspias de Vetter´s, a cerveja mais famosa da região. A entrada de Hopp tudo alterou. O patrão da SAP, empresa criada em 1972 por antigos empregados da IBM (entre os quais Hopp) que viria a revolucionar as tecnologias da informação, tratou de construir a pulso e com afinco um dos mais bonitos projectos da história do futebol.

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Vroom, vroom! Deixem a mota passar – A grande imagem da última etapa do Binckbank Tour

Com licença, com licença – deixem o maior passar! A aceleração de Peter Sagan no Muur KapelMuur, icónico santuário que serve de amuleto para todos aqueles que pretendam ali atacam com o objectivo de vencer a Ronde Van Vlaanderen. Foi precisamente ali, naquele duríssimo (8,2% de inclinação média) sector de empedrado de 1100 metros que Philippe Gilbert projectou o ataque que viria a derrear toda a concorrência na última edição da Volta à Flandres.

Peter Sagan não venceu nem a etapa nem a geral (pese embora o facto de ter sido o ciclista que mais animou a prova, conjuntamente com a sua sombra Greg Van Avermaet) mas deixou apontamentos de sonho. Se não tivesse furado na 6ª etapa, o eslovaco poderia ter vencido a geral no muro de Geraardsbergen.

Como referi aqui, no post relativo à 6ª etapa, foi Tom Dumoulin quem aproveitou o “azar valão” do bicampeão do mundo de estrada. Na última etapa, o holandês só teve que realizar uma corrida à medida das suas necessidades, ou seja, no controlo total às movimentações de Tim Wellens. Quando Wellens tentou “sair a jogar” com Sagan no final do Kapel Muur, o holandês foi obrigado a assumir o esforço de perseguição. O belga da Lotto ainda conseguiu recuperar 2 dos 8 segundos que possuía de desvantagem em relação ao holandês da Sunweb num dos 3 sprints bonificados fixados pela organização no quilómetro dourado, mas não conseguiu ter a força necessária para tentar recuperar os restantes 6 na exigente rampa final de Geraardsbergen.

A falta de criatividade e a previsibilidade de processos dá neste tipo de empates chochos

sporting 23

Na Vila das Aves acreditei. O recuo de linhas foi fulcral para se atingir o resultado que se atingiu. Os dois golos da vitória nasceram em períodos do jogo nos quais o recuo do bloco deu a ilusória sensação ao adversário que estava por cima no jogo. O Aves expôs-se e o Sporting capitalizou em duas acções no contra-ataque. Frente ao Setúbal duvidei. Frente ao Steaua confirmei: o Sporting terá imensas dificuldades para bater todas equipas que se apresentem em bloco recuado em Alvalade.

Não é preciso ser um génio do futebol para se compreender a previsibilidade dos processos ofensivos da equipa de Jorge Jesus. A equipa sai bem a construir de trás (porque o sistema de pressão do adversário o vai permitindo) chega bem aos 60 metros mas aí, aí meus caros leitores, começa toda uma construção previsível (excessivamente flanqueada) onde não existe um pingo de dinâmica e um pingo de criatividade. Continuar a ler “A falta de criatividade e a previsibilidade de processos dá neste tipo de empates chochos”