O expoente da grandeza

Do discurso emocionado e repleto de orgulho do neto de Jesus Correia, retive uma fase: “O meu avô, no fundo, representa o início do Sporting e a grandeza do Sporting” – Pedro, não poderias ter sido mais certeiro na tua afirmação, porque eu e outras tantas dezenas, senão tantas centenas de milhares ou até mesmo milhões, somos o produto da grandeza que o teu avô edificou. A grandeza do teu avô não se poderá apenas medir, pelos títulos que conquistou ou pelas distinções individuais e homenagens de que foi alvo em vida. A grandeza construída pelo teu avô e pelos outros 4 Violinos, foi o sportinguismo que ele fez florescer no coração de tantos homens da sua geração, sportinguismo que foi transmitido hereditariamente de geração em geração até chegar à minha. Se hoje sou sportinguista em muito o devo ao teu avô visto que foi ele quem cultivou a paixão pelo clube do meu há 70 anos. O meu fez 80 anos ontem. Tenho que te dizer que me custa imenso vê-lo envelhecer e que ainda não estou de todo preparado para a sua partida. Tenho que admitir que nos últimos tempos não o tenho visitado com a regularidade que seria desejável. Essa deverá ser talvez a minha maior falha. Se alguém lhe perguntar quem foi o melhor jogador que ele alguma vez viu jogar ele dir-te-à que foi o Travassos, o Zé da Europa. Mas se lhe perguntarem quem foi o maior desportista da história desta Nação, ele responderá que foi o Jesus Correia porque até ao berlinde “O Jesus Correia seria certamente o campeão do mundo”.

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Cheguei a Leicester de paraquedas. O que é que vou fazer a este grupo de trabalho?

claude puel

A assumpção de uma equipa a meio da temporada é, na minha opinião, por várias razões, o maior desafio a que um treinador se pode sujeitar em toda a sua carreira. A assumpção do comando técnico de um grupo de trabalho que não foi idealizado ou escolhido por si, condicionante que o obriga a ter que trabalhar forçosamente com matéria prima disponível no imediato (até à reabertura da janela de transferências ou na pior das hipóteses até ao momento em que a sua direcção tenha condicões financeiras para satisfazer as suas necessidades), que se encontre total ou parcialmente desmoralizado por força dos resultados negativos obtidos (pela pressão que esses resultados acarretam; pela necessidade de somar pontos rapidamente para inverter um ciclo negativo) ou pela existência de uma ou outra insatisfação motivada pelo mais amplo leque de choque de interesses (a vontade que determinados jogadores têm de se transferir para clubes que demonstrem outro tipo de ambições ou que possam satisfazer as suas exigências contratuais; as pressões que são realizadas pelos empresários junto dos jogadores e da direcção do clube para forçar uma transferência; jogadores insatisfeitos com os valores do seu contrato; a descrença que se vai acumulando nos jogadores que não são utilizados com regularidade ou que sentem que o seu rendimento não está a ser devidamente aproveitado ou potenciado; jogadores que estão a sentir dificuldades para se ambientar à realidade cultural de um país ou de uma cidade), que já se encontra em andamento ao nível de uma competição, da assimilação de determinado modelo de jogo, dos seus processos e das suas dinâmicas colectivas e individuais. Continuar a ler “Cheguei a Leicester de paraquedas. O que é que vou fazer a este grupo de trabalho?”

Felizmente não perdemos 2 pontos, mas poderíamos ter perdido

ruiz

Foi bonito ver o brilho do teu sorriso pepsodente, Bryancito!

Pela primeira vez em alguns anos (5, 6; creio que a última vez que não vi o Sporting foi na fatídica temporada 12\13) não vi o jogo do Sporting em directo. Para muitos sportinguistas, tal pecado pode-se considerar como um pecado capital, um pecado tão grave como o pecado cometido por um Católico que não aproveita a sua presença em Roma para dar um pequeno salto até à Cidade do Vaticano para ver o Papa ou de um Muçulmano, que, estando na Arábia Saudita no último mês do calendário islâmico não aproveita a ocasião para cumprir um dos 5 mandamentos da sua religião: a visita aos lugares sagrados de Meca e Medina. Aos que aqui vieram à espera de encontrar as minhas habituais ilacções ou análises sobre a partida, tenho que pedir as minhas mais sinceras desculpas. O sol da tarde de ontem, foi, aproveitado para “distritalar um pouco” por Nogueira do Cravo, concelho de Oliveira do Hospital, terra à qual me desloquei para assistir ao magnífico toque de bola e dar um abraço sincero ao nosso Puskas Samuel. A conversa pós-jogo no bar do clube, com um grupo de novos amigos, retirou-me a necessária concentração que normalmente preciso para ver a coisa como deve ser, não obstante o facto de ter visto durante o dia de hoje a segunda parte da partida à hora de almoço no café. Como não gosto de executar a minha análise sem ter um profundo conhecimento de causa, remeto-vos para a interessante análise que foi realizada que foi escrita aqui pelo José Duarte do A Norte de Alvalade e para as notas muito oportunas  que foram escritas nos últimos posts publicados pelo nosso amigo e Parceiro O Artista do Dia, amigo a quem devemos muitas (mais concretamente 28 mil) das centenas de milhares de visualizações que obtivémos desde o dia 10 de Março de 2017.

No entanto, não pensem que olhei para aqueles minutos finais com um olho aberto e outro fechado. Não, não olhei. Um dos problemas basilares desta equipa (a gestão da vantagem) mantém-se e está para durar enquanto Jorge Jesus não activar um conjunto de soluções que priviligiem o controlo do adversário através da gestão da posse e do ritmo de jogo, e enquanto alguns jogadores não interiorizarem que uma partida só termina aos 90 e picos quando o árbitro der três apitadelas bem assentes. Quero com isto dizer que alcançada uma vantagem, a equipa leonina tende a descurar praticamente tudo: posicionamentos, marcações (Jonathan esta é para ti), organizações sectoriais, qualidade na saída de bola (frente ao Braga foi uma perda na saída que ditou a recuperação que os bracarenses transformaram em golo) entre outros aspectos já aqui mencionados noutras ocasiões.

O golo dos Paços de Ferreira não fez mossa na tendência do resultado mas voltou a ser um exemplo paradigmático do grau de relaxamento a que se dá esta equipa quando se apanha a gerir uma vantagem confortável. Embora a coisa não tenha descarrilado, à semelhança do que aconteceu em Turim e em Alvalade frente ao Braga (nesse jogo temos que dar algum crédito às mexidas efectuadas por Abel na sequência do golo sofrido, porque as mudanças efectuadas na estrutura da equipa baralharam por completo a formação leonina, pese embora, como tenha escrito nessa noite, o Sporting não soube pura e simplesmente fazer a gestão mais adequada da vantagem) e do que poderia ter acontecido nos minutos finais dos jogos do Pireu, da Feira e da recepção ao Estoril.

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Estaremos perante uma nova e inovadora forma de organização sectorial da linha defensiva?

setubal

Creditos da imagem: Pedro Sousa

Se me permitem exprimir livremente todos os meus sentimentos para qualificar isto, bem, isto, esta coisa abjecta, esta autêntica cagada, extrapola por completo o limiar da sarjeta. Este comportamento é digno do esgoto, futebolisticamente falando. Quando vi esta imagem, preparei-me para escrever que isto está ao nível de alguns treinadores dos distritais (a verdade é que ainda ontem, no final de um jogo do Campeonato de Portugal disse a um treinador, cara-a-cara, que face ao que vi até agora das prestações da sua equipa, um futebol medonho de chutão para a frente e combate corpo-a-corpo, se eu fosse o responsável da empresa da formação que lhe vendeu o Nível I nos cereais do chocapic, devolvia-lhe imediatamente o valor da inscrição porque sentir-me-ia completamente envergonhado com a qualidade da formação ministrada pela minha empresa) mas antes de o escrever, lembrei-me que por falta de oportunidades (uns por falta de contactos; outros por manifesta falta de padrinhos; outros porque ainda acreditam no lado romântico da coisa, ou seja, ainda acreditam que este país está assente num sistema meritocrata) existem por aí, nos distritais, treinadores que conseguem realizar, com uma “mão-de-obra” menos qualificada que a que possui José Couceiro, melhores trabalhos ao nível de organização sectorial da linha defensiva. Pior que a falta de organização daquele sector é ver dois médios completamente encavalitados em cima de uma defesa já de si desorientada e dois jogadores à entrada da área a observar tudo como se estivessem sentados cómodamente na esplanada do café…. Por falar em esplanada do café, vamos ao próximo post.

Pormenores captados no Udinese vs Napoli

oddo

Não obstante a derrota sofrida por 1-0 frente à formação napolitana, derrota ditada por uma grande penalidade conquistada num lance em que os napolitanos conseguiram retirar a bola zona de maior pressão dos homens da casa, com uma variação do centro de jogo da zona interior do flanco esquerdo (o flanco onde Massimo Oddo tentou promover uma zona de maior pressão sobre o adversário de forma a tentar anular alguns os pontos fortes da formação napolitana; a presença de Insigne no último terço, as inflexões do extremo para o miolo, inflexões que são utilizadas por este para tentar solicitar os movimentos verticais de Hamsik para a área ou as diagonais de Mertens e Callejón; a entrada da bola no jogo interior) para o flanco direito (um flanco que esteve relativamente controlado pelos homens de Udinese porque o lateral direito Christian Maggio deu pouca largura e profundidade; já irei abordar este lance) considerei relativamente interessante (reconheço que teve em certos momentos a organização defensiva dos homens da casa teve as suas falhas, embora o resultado, o produto final foi positivo; nos primeiros 45 minutos os napolitanos só criaram uma oportunidade de golo) a organização defensiva demonstrada pela formação da região do Friuli-Veneza Giulia durante os primeiros 45 minutos da partida disputada na tarde de ontem contra a formação de Maurízio Sarri.

Alternando entre a utilização de uma estratégia de pressão alta relativamente bem organizada (na qual a equipa subiu em bloco até ao meio-campo adversário para condicionar a sua saída de jogo) à saída em construção dos napolitanos numa situação do jogo específica (nos pontapés de baliza; os encaixes promovidos pelos homens da casa obrigaram várias vezes Pepe Reina a ter que desfazer os processos trabalhados pela equipa nesta situação de jogo, através do recurso ao pontapé longo), estratégia que visou condicionar a maravilhosa saída em construção que é realizada pela formação de Maurizio Sarri e uma estratégia recuo das linhas até ao seu meio-campo, formando um bloco médio\baixo organizado no sistema táctico 5x3x2, no qual os homens da casa tentaram condicionar a saída pelo corredor esquerdo, entre algumas falhas, que irei realçar, Oddo e os seus jogadores conseguiram anular com eficácia alguns dos pontos fortes deste Napoli. Vejamos alguns exemplos: Continuar a ler “Pormenores captados no Udinese vs Napoli”

O Aves de Lito Vidigal

lito

Ao longo da vida, é natural ou pelo menos deve ser considerado como natural a simpatia ou a preferência por determinadas pessoas ou personagens em detrimento de outras, cuja personalidade, carácter ou feitio choca directamente com a nossa(o), ou com aquelas cujas atitudes ou comportamentos praticados não se enquadram nos moldes dos valores éticos ou nos comportamentos que acreditamos, defendemos, ensinamos e praticamos. No entanto, o facto de não gostar da personalidade de determinada pessoa ou dos comportamentos que esta pratica, não me tolda ao ponto de não reconhecer a grandeza dos seus feitos, o luminoso brilho do seu pensamento ou a grandeza da sua obra. Ao contrário do português comum, o sucesso alheio não me cria qualquer espécie de confusão nem sequer uma pontinha de inveja. Infelizmente sei que vivo em completa contra-corrente em relação à realidade do país. Os portugueses têm uma certa tendência para idolatrar deuses com pés de barro que nada de útil tem para oferecer à sociedade e para ferrar o seu mesquinho bico naqueles que realmente tem conteúdo para oferecer. O português tem uma natural tendência para querer ter em igual marca e espécie o carro que o vizinho comprou. Se não consegue igualar o seu fato ou o seu feito, o português não descansa enquanto não descer o vizinho ao seu nível de mediocridade. A propósito disto um dia escreveu Torga nos seus diários:   “Só há uma solução quando se vive num ambiente medíocre, entre medíocres: recusar a mediocridade” – ao longo destes últimos meses, tenho-a recusado insistentemente, “afastando de mim esse cálice” – como um dia cantaram Milton e Chico Buarque. Continuar a ler “O Aves de Lito Vidigal”

Breve passagem de olhos sobre alguns dos highlights do suplício australiano em Murrayfield

kepu

A 129ª e última selecção de Stephen Moore pelos Wallabies (53-26; a maior derrota registada pelos australianos nas 30 partidas realizadas contra os escoceses; os escoceses nunca tinham conseguido alcançar em toda a sua história duas vitórias seguidas sobre a selecção australiana), merecia outro nível de respeito por parte do pilar Sekope Kepu. Aos 39 minutos de jogo, numa fase do encontro em que os Wallabies estavam claramente por cima, galvanizados pelos dois ensaios “cavados” ao pé pelo abertura Bernard Foley na ressaca de um demoníaco arranque de partida protagonizado pela selecção da casa nos primeiros 20, o pilar dos Waratahs de Sydney decidiu cometer uma acção completamente infantil, despropositada e anti-desportiva (que pode ser vista a partir do minuto 49:45 até ao minuto 52:30 deste vídeo), que, para além do consequente e merecido castigo de que decerto será alvo nos próximos dias por parte da World Rugby, porque no rugby não há lugar para este tipo de atitudes irracionais que podem colocar em risco a integridade física do adversário, decerto o envergonhará. Ao largo da bela ilha de Tonga, entre daikiris e pinacoladas, Kepu terá certamente um mês de férias para reflectir sobre a borrada que manchou um jogo já de si extraordinariamente complicado para a sua selecção em virtude do pace elevadíssimo que foi colocado na partida pelos escoceses (aproveitando aquele que era à partida o seu maior trunfo frente aos australianos: a maior frescura física) e da incisividade e agressividade colocada pelos Scots nos seus carries e no seu desempenho defensivo. Continuar a ler “Breve passagem de olhos sobre alguns dos highlights do suplício australiano em Murrayfield”